O semblante sério e jeito professoral de Luc Moullet, cineasta francês de 73 anos, parecem não condizer com o espírito lúdico que dá o tom de seus filmes, em cartaz até o dia 6 de março na retrospectiva Luc Moullet – Cinema de Contrabando, no Centro Cultural Banco do Brasil. Como crítico e realizador, o trabalho de Moullet prega a transgressão das fórmulas e o questionamento, usando o humor com arma.
Natural de Paris, o diretor fez sua estreia como crítico aos 18 anos na lendária revista Cahiers du Cinéma. A publicação revelou cineastas como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, Claude Chabrol, além do próprio Moullet, que deram origem ao movimento conhecido como Nouvelle Vague, nos anos 60.
O movimento se diferencia dos demais por seu espírito cinéfilo e a vontade de contravenção que movia os jovens realizadores. “Era mais um movimento da crítica. A rigor, não gostávamos dos mesmos filmes e nossos trabalhos como diretor eram muito diferentes entre si”, observa Moullet.
Seu primeiro longa-metragem, Brigitte e Brigitte (1966) transborda de espontaneidade, ao revelar momentos brilhantes no dia-a-dia prosaico de duas estudantes que, apesar dos temperamentos diferentes, são unidas pelo mesmo nome e pelo gosto parecido em roupas. O humor (quase) ingênuo e a leveza no tratamento contrastam com o tom acadêmico de curtas como Obra-Prima? e Jean-Luc Segundo Luc, em que o diretor protagoniza ensaios sobre o conceito de obra-prima e o
trabalho de Godard, respectivamente.
É em Obra-Prima? que Moullet faz referência a seu cineasta brasileiro favorito, Jorge Furtado. Moullet incorpora trechos do já clássico Ilha das Flores (1989) ao filme, além de utilizar um estilo de montagem que lembra a frenética narrativa do curta-metragem do diretor gaúcho. “Furtado se apropria das possibilidades oferecidas pelo vídeo, enquanto outros cineastas filmam em digital como se estivessem filmando em película. Ilhas das Flores é um dos melhores filmes dos últimos anos”, declara Moullet.
Crítico
Assim como seus contemporâneos, a experiência como crítico foi determinante para seu estilo como realizador. “Foi como uma escola. Assistíamos aos filmes e discutíamos suas qualidades e defeitos. Eu não tive outra formação cinematográfica”, relembra Moullet. O cineasta teve como editor-chefe na Cahiers ninguém menos que o diretor Eric Rohmer (falecido em 2010). “Ele me ajudou muito a melhorar minhas críticas”, revela.
Ainda ativo como cineasta, Moullet jamais abandonou seu trabalho como crítico. “Não vejo muita diferença. Não sei se sou crítico ou cineasta”, confessa.
Embora buscassem sua própria gramática (ou, no caso do próp
rio Moullet, renegassem o conceito de linguagem cinematográfica), a citação de grandes realizadores do cinema americano, como Alfred Hitchcock, Samuel Fuller e Orson Welles, permeava o trabalho dos enfants terribles da Nouvelle Vague. Moullet cita Cecil B. DeMille (Os Dez Mandamentos) como uma grande influência para seu trabalho. “Inclusive fiz um ramake do filme The Whispering Chorus (1918) chamado Prestígio da Morte (2006)”.
De seus 41 filmes (todos eles na programação da retrospectiva apresentada pelo CCBB), ap
enas dez são longas-metragens. O diretor afirma que para ele é mais fácil realizar curtas e médias-metragens. “Grandes cineastas fizeram apenas curtas-metragens, como Karl Valentin (comediante e realizador alemão), assim como grandes autores escreveram mais novelas do que romances, como James Joyce e Lewis Carrol”, compara.
Luc Moullet, Cineasta de Contrabando. Até 6 de março de 2011 (de terça-feira a domingo) no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (SCES, Trecho 2, Conjunto 22) Informações: 3310-7087 Entrada Franca.
Programe-se:
Terça
19h – Os Náufragos da D17 (81 min).
20h30 – Os Havres (12 min), O Ventre da América (25 min), O Sistema Zsygmondy (18 min), No Campo da Honra (15 min).
Quarta
19h – A Odisseia do 16/9 (11 min), La Sept Segundo Jean e Luc (13 min), O Fantasma de Longstaff (20 min), A Valsa da Mídia (27 min).
20h30 – Brigitte e Brigitte (75 min).
Quinta
19h – Aerroporrrto de Orrrly (6 min), Equilíbrio e Cegueira (5 min), Todos Nós Somos Baratas (10 min), Cada Vez Menos (13 min), Cada Vez Mais (24 min), O Império do Totó(13 min).
20h30 – Gênese de uma Refeição (117 min).
Os filmes não são recomendados para menores de 14 anos.