Larissa Barros
O futebol americano tem se consolidado como uma modalidade em expansão no Distrito Federal. Um dos exemplos desse crescimento é o Brasília Wizards, equipe formada por estudantes da Universidade de Brasília (UnB). Criado em 13 de novembro de 2016, o time surgiu da iniciativa de cinco jovens atletas que já tinham experiência na modalidade e integravam outra equipe tradicional da capital. Movidos pelo desejo de praticar o esporte de forma mais leve e descontraída, decidiram fundar um novo projeto focado inicialmente no flag football, versão sem contato que vem ganhando popularidade no Brasil e no mundo.
Segundo a psicóloga esportiva e presidente da equipe, Karla Peres, o Brasília Wizards construiu uma forte relação com a UnB e ganhou visibilidade dentro da universidade não apenas por sua proposta inovadora, mas também por suas ações práticas, como a organização de torneios internos de flag football e a oferta de treinos abertos a estudantes interessados. “Em 2018, o time passou a ser oficialmente o clube de futebol americano da UnB, com estatuto registrado e presença ativa no campus. Atualmente o time ainda é composto por universitários e pessoas interessadas no esporte”.
O projeto ganhou força rapidamente. Ainda em 2017, o Brasília Wizards participou de sua primeira competição oficial de flag football. Por limitações financeiras, os uniformes utilizados no torneio foram improvisados na véspera, camisas roxas lisas foram compradas no dia anterior e customizadas à mão com números brancos nas costas e um “W” dourado na frente. O time feminino, que também integrou a equipe desde o início, passou pelo mesmo processo, adaptando camisas pretas por falta de peças roxas suficientes.
Pedro Alves, de 26 anos, é o atleta que está há mais tempo no time. “Eu não sou um dos fundadores, mas entrei no time bem no começo, ainda em 2017, e sou o atleta mais antigo da equipe. No início era tudo muito menos sério, em uma proporção bem menor, com menos gente, e fazíamos os treinos onde dava. Era algo mais recreativo, até porque a maioria dos jogadores era bastante jovem”.
A transição do flag para o futebol americano com contato trouxe novos desafios. “Foi um processo bem complicado no início, porque é necessário muito mais pessoas, além do equipamento ser bem mais caro. Também precisávamos de um campo maior para poder treinar adequadamente, e vários, incluindo eu mesmo, nunca tínhamos jogado equipado. Além dos custos mais altos, era necessário mais organização na parte da diretoria, que fomos ajustando ao longo do tempo”, detalha Pedro.
Já o jogador Lucas Resende, de 28 anos, entrou recentemente no time. Apaixonado pela NFL, ele resolveu sair da arquibancada para o campo com o incentivo da esposa. “O nível de trabalho em equipe me surpreendeu. Quando assistia pela TV, não imaginava que o futebol americano fosse tão coletivo. Cada jogada depende do esforço de todos, e isso fica ainda mais evidente na convivência com o time, que tem uma cultura muito forte de colaboração”, conta.
Para Lucas, o esporte vem ganhando cada vez mais visibilidade no país. “Claro que ainda existe uma grande diferença entre o futebol americano praticado no Brasil e o que vemos na NFL, seja em estrutura, investimento ou visibilidade. Mas isso não diminui a paixão de quem joga aqui. Pelo contrário, mostra o quanto o esporte é forte por si só. Brasília tem muito potencial para se tornar um dos grandes polos da modalidade”.
A estrutura organizacional do Brasília Wizards é fruto do esforço coletivo de dezenas de colaboradores que, ao longo dos anos, doaram tempo, energia e criatividade para fazer o time crescer e se consolidar como uma das referências do futebol americano no Centro-Oeste.
“Em Brasília, não somos o único time de futebol americano. Já existiram muitos antes da pandemia. O interesse do público vem aumentando não só pela modalidade com contato, mas principalmente com a notícia de que o flag football terá sua estreia como modalidade olímpica nas próximas Olimpíadas, em 2028. Em algumas cidades do país já é comum vermos pessoas usando a camisa do seu time de futebol americano”, explica Karla.
Ela destaca também as estratégias de divulgação do esporte que têm sido adotadas pela equipe. “Fazemos visitas em escolas, apresentando o esporte e convidando os alunos a conhecerem de perto. Sempre que somos convidados, participamos de eventos educativos, esportivos e comemorativos, como foi no aniversário do Guará. Nada mais justo do que prestigiar a cidade que nos acolheu”.
Entre as ações recentes do time, está a Taça Arthur Mariano de Flag Football, realizada em abril com entrada gratuita. E, no segundo semestre, vem aí o tradicional Wizards Bowl, uma das atividades mais aguardadas do ano. “É um evento anual que divide o time em dois grandes grupos, Time Roxo e Time Amarelo, que duelam em diversas modalidades”, explica a presidente.
A equipe foi acolhida pela administração do Guará, que cedeu um campo onde os treinos são realizados. O Brasília Wizards também conta com o apoio da Secretaria de Estado de Esporte e Lazer, por meio do programa COMPETE, que viabiliza a participação da equipe em competições fora da cidade. “Sem esse apoio, não teríamos condições de arcar com as despesas. Ainda assim, buscamos apoiadores e patrocinadores para viabilizar os recursos, como bolas, uniformes, chuteiras e equipamentos, e dar continuidade aos nossos projetos”, reforça Karla.
Atualmente, o time disputa a Super Liga, principal campeonato nacional de futebol americano. A estreia será no dia 20 de julho, mas o local ainda não foi divulgado. As informações estão no Instagram @brasiliawizards.
Todos os anos, o Brasília Wizards realiza seletivas para novos atletas. Não é necessário ter experiência prévia. Para o futebol americano, a idade mínima é de 17 anos, para o flag football, a partir dos 10. Os interessados podem buscar mais informações pelo Instagram ou pelo e-mail brasilia.wizards@gmail.com. Os treinos acontecem no Guará II, atrás da UBS II, futebol americano às quartas-feiras, às 19h30, e sábados, às 15h, e flag football às segundas e sábados, às 14h.
Equipe feminina Brasília Wizards
A equipe feminina faz parte da identidade do Brasília Wizards desde a fundação. Criada junto ao time masculino, compartilha os mesmos valores de união, leveza e paixão pelo esporte. Durante dois anos, treinou regularmente na modalidade com contato, chegando a reunir até 15 atletas, número ainda insuficiente para competições oficiais. Mesmo sem estrear em jogos completos, o grupo teve papel essencial na expansão do clube e na presença feminina no futebol americano em Brasília.
Durante a pandemia, o projeto feminino foi descontinuado por dificuldades em manter o número mínimo de atletas e a logística dos treinos. Em 2024, o Wizards anunciou a retomada do time feminino, agora focado no flag football 5×5, com objetivo de se preparar para campeonatos a partir de 2025.
Joanna Mendes Vale, de 24 anos, entrou para o time no fim de 2019, pouco antes da paralisação causada pela pandemia. “Com certeza foi difícil o início, porque peguei o período sem treinos presenciais, mas mesmo assim, sempre víamos jogos e analisávamos jogadas. A adaptação foi gradual, ainda mais por ser mulher e mais nova que a maioria no time”, comenta.
A atleta destaca o acolhimento da equipe como um dos principais motivos para ter permanecido. “Um dos motivos que fui para o Wizards é justamente o tratamento da equipe técnica com os atletas, e das atletas entre elas. Somos um time em início de reconstrução, quem tem experiência sou eu e mais uma, o restante está começando agora. E ainda assim, eu aprendo a cada treino. Há sempre respeito, entendimento do ritmo de cada uma e a consciência de que estamos juntas para melhorar como equipe”.
Para quem tem vontade de praticar o esporte, mas ainda se sente insegura, Joanna deixa um recado: “Não precisa ter medo ou achar que precisa ter experiência em outro esporte. Se for receio de se machucar, pode ficar tranquila, o flag não tem contato. Mas o mais difícil é só dar o primeiro passo. Quando você vai assistir a um treino, já saí com vontade de participar. Basta querer, que o Brasília Wizards estará de braços abertos para te receber”.