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Torcida

Eu, como espectador, fiquei ‘adrenalizado’ na final do Mundial de Surfe

Foi um desfecho politicamente correto, portanto, com Gabriel Medina e Carissa Moore. A decisão justificou a performance do ano

Carlos Burle*

A grande expectativa nesta final era justamente entender bem esse novo formato da disputa. Todo mundo tinha receio em relação ao sucesso desse modelo. A WSL trabalhou bem. Quis criar uma expectativa, criar um engajamento, uma ansiedade, uma adrenalina, botar tudo para jogo em um único dia. E o resultado foi positivo, sim. Eu, como espectador, estava ‘adrenalizado’. Se fosse esperar mais um campeonato, eu não ia ficar com esse nível de adrenalina que fiquei nesta disputa.

O resultado foi positivo porque refletiu o que os outros eventos durante o ano mostraram. Os líderes do Circuito Mundial ganhando no masculino e no feminino. Foi um desfecho politicamente correto, portanto, com Gabriel Medina e Carissa Moore. A decisão justificou a performance do ano.

Na parte técnica, o Brasil chegou à final como favorito, com esse time de peso, com Medina liderando, Italo em segundo e Filipinho em terceiro. Teve a bateria espetacular do Filipe Toledo, com seleção de ondas perfeitas e uma frieza enorme porque ele demorou muito para pegar as ondas e teve uma performance excelente, principalmente na segunda onda. Ele passa pelo rival e realmente mostra que surfa muito. Ali provou que estava pronto para enfrentar Italo Ferreira e Medina.

Contra o Italo, a bateria foi interessante. Vi o Filipe muito empoderado, pela postura dele, do seu corpo, a frieza, tipo ‘estou em casa’, com torcida forte do seu lado, seu pai… Só que ele estava competindo contra o melhor do mundo, atual campeão mundial, medalhista de ouro nos Jogos de Tóquio. Ele tinha então de provar que tinha condições de segurar essa pressão mais uma vez. E mostrou isso. O que me pareceu foi que o Italo caiu um pouco no jogo dele. Quis selecionar muito as ondas e não se soltou com aquele aquecimento normal, crescimento nas ondas, arriscando com várias manobras e isso resultou na passagem do Filipinho para a decisão.

A bateria final não é simples. Quem sobrasse nela, nas disputa das baterias, ia disputar o título com o Medina. Não é simples. Medina estava descansado, esperando. Honestamente, você ganha uma vez do Medina, mas não faz isso duas vezes. Ele não comete os mesmos erros duas vezes. Mas o Filipe tem um arsenal de manobras. Então, ele entra nessa final sabendo que precisava subir o nível. Mas vimos na primeira bateria um Medina melhor, se soltando mais, fazendo a melhor onda, tirando um 9 e fazendo a segunda onda também muito boa. A pressão aumentou para o Filipinho. Na segunda bateria da melhor de três, Filipe estava mais nervoso e o Medina mais à vontade, completando as manobras. O Medina dominou a cena na primeira e na segunda bateria e meteu 2 a 0. Fico com a sensação de que foi justo. A torcida era para o Filipinho porque ele não tinha o título ainda. Queríamos saber como ele ia lidar com essa pressão, a torcida estava com ele porque ele estava em casa. O Italo tinha torcida também, meu companheiro da Red Bull, mas a torcida da justiça estava com o Gabriel Medina. Foi justo.

No feminino, vi a Tati bem emocionada nesta final. Ela conseguiu virar uma bateria e foi para a decisão com a possibilidade de se tornar campeã. Foi um dia clássico na Califórnia, com ondas de dois metros nas séries ou mais, com engajamento grande. Vi um surfe muito madura da Tati, mas a Carissa teve uma sequência melhor e uma prancha um pouco maior, e conseguiu fazer manobras melhores. Foi um ano brilhante das duas surfistas. A Tati é jovem e o título vai chegar para ela, tenho certeza. Mas a Carissa foi melhor nas duas baterias, assim como foi o Gabriel Medina.

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*Surfista

Estadão Conteúdo






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