LUCAS BRÊDA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Na abertura da Copa do Mundo, na última quinta-feira (11), Shakira comandou um show que reuniu astros latinos para dublarem músicas no estádio Azteca, na Cidade do México. Toda com playback, a apresentação serviu menos para que os artistas mostrassem sua arte do que para promoverem um lançamento da Fifa.
A entidade que faz a Copa lançou um disco do mundial, com 18 músicas e um sonho –emplacar um hit que chegue perto de “Waka Waka”, a maior música já feita relacionada à competição, também de Shakira, em 2010. Não é à toa que a colombiana foi novamente chamada para cantar o tema oficial do torneio, “Dai Dai”, com o nigeriano Burna Boy.
Ela já havia sido requisitada em 2014, na Copa realizada no Brasil, para a música “La La La”. Mas ela não é a única. O álbum da Fifa traz dos Rolling Stones -irreconhecíveis em um remix eletrônico farofa– até Anitta –que cantou na abertura dos Estados Unidos, nesta sexta-, passando pelo porto-riquenho rei do reggaeton Daddy Yankee e dos americanos ícones do trap 21 Savage e Future.
A escalação estrelada é parte de uma corrida para ver quem terá o hit da Copa do Mundo. De marcas e bancos a gravadoras e cantores, todo mundo quer emplacar uma música sobre futebol, seleção brasileira ou sobre o Mundial.
Os números corroboram essa sanha. Segundo o Spotify, a criação de playlists relacionadas à Copa cresceu 235% no último mês. O Brasil é o terceiro país do mundo que mais ouve essas seleções, atrás de Estados Unidos e Reino Unido. Três músicas despontam na plataforma de streaming, com aumento de mais de 1.000% em audições no território nacional.
Uma delas é “Camisa Amarela”, um canto de estádio da torcida Movimento Verde Amarelo. A outra é “Funk da Copa”, do DJ Rique Sales, uma montagem com a vinheta “Brasil-il-il” das transmissões da Globo e sample de “A Taça do Mundo É Nossa”, clássica marchinha carnavalesca de 1958, ano da primeira Copa do Brasil.
Mas a mais curiosa é “Brasil com S”, viral de DJ M4ia, de Uberlândia, que passou do bilhão de reproduções nas redes sociais. O hit já foi dançado por Gil do Vigor e Tati Machado na Globo e até Neymar fez um vídeo curtindo a faixa com a filha.
A música, que traz os nomes dos jogadores da seleção em dinâmica de pergunta e resposta com um coro, foi criada com inteligência artificial. O vídeo da faixa no YouTube traz na descrição hashtags como “#ProduçãoMusicalComIA” e “#MúsicaComIA”, além de citar o Suno, plataforma de criação de músicas com a tecnologia.
O próprio DJ M4ia divulga um perfil no Instagram chamado “Aprendendo IA”, em que publica vídeos feitos com IA e afirma que mais de 850 alunos já aprenderam a usar as ferramentas com ele. Em sua página no Spotify, há faixas do mesmo estilo, como “Brasil”, “Brazil Legend”, “Nunca Serão” e “Penta Campeão”.
Com menos sucesso, pipocam na internet músicas temáticas de Copa feitas com IA. O YouTube está infestado por áudios e vídeos genéricos de nomes como “Samba do Hexa”, “Tropa do Hexa” e “Batidão da Seleção”, entre outros.
Até Latino apostou na tecnologia. Sua “Chegou a Hora” –versão de “Sarà Perché Ti Amo”, de Ricchi e Poveri– acompanha um videoclipe que traz o cantor como o camisa dez da seleção. O vídeo é feito com IA –como também parece ser o caso da música.
Fora desse universo, quem tem mais exposição sai na frente. Além das cerimônias de abertura, as músicas oficiais da Fifa serão tocadas exaustivamente ao longo do torneio, não só nas sedes, mas nas transmissões. É assim também com a publicidade. Na última Copa, o jingle do Itaú, de tanto martelar os espectadores nos comerciais, acabou grudando na cabeça dos torcedores -e está de volta neste ano.
Outra aposta é reciclar temas já famosos. A CazéTV chamou Dilsinho para gravar uma versão em pagode de “É uma Partida de Futebol”, do Skank. O funkeiro MC Guimê renovou um verdadeiro hit de Copa do Mundo, “País do Futebol”, de 2014, lançando uma parte dois da música, agora em pagode.
A Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, foi na linha da Fifa e tentou reunir a maior quantidade de astros –nesse caso, em uma mesma faixa. “Bate no Peito” é uma mistureba de ritmos tão vasta e desconexa quanto sua lista de cantores -Ludmilla, João Gomes, Zeca Pagodinho, Samuel Rosa e Veigh, sob produção de Papatinho.
Há estratégias mais sutis. Wesley Safadão se juntou a Ludmilla e ao ex-jogador Ronaldinho Gaúcho em “Tu Pode Falar Mal”, que mescla forró e pagode -e não fala de futebol, ainda que o esporte e as cores da seleção sejam tema do clipe. Xande de Pilares fez um vídeo com a temática de Copa para o single “Vento”, do ano passado.
As principais gravadoras de funk também estão se movimentando. A GR6 lançou, nesta sexta, “Jogo da Copa”, com os MCs Kevin, Hariel e IG e o DJs Gui de Novo e Yuri Pedrada. Trata-se do primeiro single de um álbum todo dedicado ao tema, com 11 faixas, a ser lançado em 23 de junho. A produtora já tinha soltado “Jogo da Seleção”, com vários de seus MCs, três meses atrás. A Kondzilla soltou em “Aqui É o Brasil”, com cinco MCs, entre eles Kekel.
Entre dezenas de lançamentos querendo surfar na onda do assunto do momento, há quem soe menos oportunista. O rapper Rincon Sapiência se uniu a Marissol Mwaba e Péricles em “Homem Gol”, um samba-rap adornado por sopros que dispensa os clichês da Copa.
Os MCs Maneirinho e Rick esbanjam criatividade em “Aqui É Brasil”. “Ancelotti se faz de bobo/ Tá que nem minha ex, procurando outro dez/ Mas eu que sou o craque do jogo”, canta o mineiro sob uma base instrumental atmosférica, misturando putaria e futebol na letra. O MC Hariel tira onda com um flow agressivo em “Brasil”, do MC PH.
Em “Copa Sem Neymar”, Bin canta que o mundial sem o camisa dez do Brasil é “tipo eu sem meu baseado”. Já Froid faz reflexões existenciais em uma música chamada “Endrick”, subjetivamente inspirada no atacante da seleção.
Até estrangeiros têm o futebol brasileiro como musa. Os irmãos Dana and Alden, que fazem um jazz de pegada indie, lançaram também nesta sexta, a música “El Gaucho”, referência a Ronaldinho, com participação da lenda brasileira Marcos Valle e camisas da seleção no vídeo de divulgação da música.