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Política & Poder

Faria Lima torce por desembarque de Flávio Bolsonaro em favor de Caiado

Muitos avaliam que, apesar de ser competitivo nas pesquisas, ele não vai resistir ao teste nas urnas

Redação Jornal de Brasília

27/07/2026 6h20

caiado

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

ALEXA SALOMÃO E JULIA MOURA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Não é segredo que o mercado financeiro brasileiro, representado pela região paulistana da Faria Lima, não gosta da política econômica do PT e do presidente Lula. Apoiou Jair Bolsonaro (PL) por ser o candidato que assumiu uma linha mais liberal. A preferência, no entanto, não se aplica a Flávio Bolsonaro, pré-candidato pelo PL.

Flávio encontra enorme rejeição na Faria Lima, segundo detalharam à reportagem gestores, economistas e CEOs com a condição de não terem o nome citado. Uns poucos bolsonaristas convictos ainda prestam apoio irrestrito, mas a maioria torce pelo desembarque de Flávio. Muitos avaliam que, apesar de ser competitivo nas pesquisas, ele não vai resistir ao teste nas urnas. Hoje a expectativa é que Lula vença no segundo turno.

Para o grupo que define para onde vai boa parte do dinheiro do Brasil, a desistência de Flávio criaria ambiente para o avanço de candidatos considerados mais estáveis, como a dobradinha Ronaldo Caiado-Gilberto Kassab (ambos do PSD), cuja preferência cresce dia a dia nesse grupo. Afora o perfil mais liberal na economia, Caiado é bem avaliado por sua política de segurança pública.

Também são bem cotados os empresários Renan Santos (Missão), que tem atraído crescente simpatia por criar uma imagem de renovação, e Romeu Zema (Novo).

Um conjunto de razões erodiu a imagem de Flávio Bolsonaro no mercado financeiro.

Ter mentido sobre a proximidade em relação a Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quem pediu dinheiro, pesa muito. No ranking de confiança do setor empresarial, Flávio despencou.

O que se conta, até com um tom de indignação, é que ele olhou no olho de muita gente e mentiu. As contradições na hora de explicar o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a vida do pai, aprofundaram as desconfianças.

Como existe um inquérito sobre o caso, os integrantes do mercado financeiro também afirmam que sentem desconforto em colocar as fichas em um candidato à Presidência que seja alvo de investigações.

A percepção agora é que paira sobre Flávio Bolsonaro um telhado de vidro que pode se espatifar a qualquer momento. O mercado convive com a perspectiva de que surja alguma nova troca de mensagem de WhatsApp ou vídeo desnudando algum novo segredo inconfessável.

Como Flávio é o principal rival de Lula nas pesquisas, que impede a ascensão de outros candidatos de direita, o maior temor é que alguma denúncia esteja sendo guardada para ser detonada no segundo turno, garantindo a reeleição de Lula.

O setor financeiro também entende que Flávio não tem demonstrado habilidade política para formar alianças. A avaliação é que ele prefere rivalizar a compor ou negociar. O embate público com a madrasta Michelle Bolsonaro (PL), vista como uma força política já estabelecida entre as mulheres, é descrito como um erro estratégico inexplicável.

Flávio demonstra ter dificuldade para mobilizar apoio de outros partidos e, segundo analistas que acompanham bastidores da política, sua candidatura está rachando até o PL.

Não fechou apoio do PP, não conseguiu sensibilizar a senadora Tereza Cristina (PP-MS) para ser sua vice e está afastado até de figuras políticas consideradas estratégicas que são próximas ao pai, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) —esse, sim, o candidato preferido do setor financeiro.

Para a Faria Lima, um erro fundamental que ainda hoje gera mágoa e ressentimento foi o fato de os Bolsonaro terem preterido Tarcísio em favor de Flávio.

O senador Rogério Marinho, coordenador da estratégia eleitoral de Flávio, e Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, que disputa para ser a vice na chapa, têm circulado pela Faria Lima apresentando Flávio como o único candidato capaz de derrotar Lula, mas sem convencerem a audiência.

Pela fragilidade que Flávio demonstrou até agora, a análise do cenário político de bancos, gestoras e corretoras precifica a vitória de Lula —ou seja, os preços dos ativos locais já estariam refletindo a reeleição do presidente, com o Ibovespa abaixo da máxima, dólar acima de R$ 5 e juros futuros em alta.

Os títulos do Tesouro, por exemplo, estão nos maiores juros desde o governo de Dilma Rousseff (PT). As NTNBs (Tesouro IPCA+) oferecem uma rentabilidade atual de cerca de 8% mais inflação. Já os prefixados estão perto de 15% ao ano.

É um cenário de pressão, agravado pela situação da dívida. Quando Dilma deixou a Presidência, em agosto de 2016, a dívida pública bruta do país como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) estava em 69,34%, segundo dados do Banco Central. Hoje está em 81,1%.

Tais taxas são diretamente influenciadas pelos juros futuros —aposta do mercado de qual será a Selic daqui a meses e anos. Sem perspectiva de um forte ajuste fiscal, se precifica uma taxa anual de 14,75% em quatro anos, acima dos atuais 14,25%.

Para a Faria Lima, esses números são um sinal de que o mercado precifica uma continuidade da política econômica vigente, sem ajuste fiscal que reduza a dívida pública.

Além do fiscal, há quem se preocupe ainda mais com as próximas indicações ao STF. Além da vaga de Luís Roberto Barroso, para a qual o Senado rejeitou Jorge Messias, Lula teria outras três indicações caso reeleito, lhe concedendo maioria no plenário. No atual mandato, o presidente indicou Cristiano Zanin e Flávio Dino.

Para outra parte da Faria Lima, a eleição ainda não tem movimentado o mercado, que se concentra na guerra do Irã e seu impacto no preço das commodities, especialmente o petróleo.

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