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Lá estão eles, colorindo a cidade. Na Esplanada, ao longo do Eixão, nas superquadras. São os ipês-amarelos, os primeiros que costumam florescer quando as primeiras chuvas anunciam o fim próximo da tradicional estiagem de inverno na cidade. Lindos, vistosos, os ipês são para mim quase um símbolo da Brasília em que cresci. Por isso, sempre os mostro aos meus filhos quando as flores aparecem.

Curioso como, nas últimas gerações, as crianças foram cada vez mais perdendo os laços com as plantas e os animais. Nas cidades grandes, é difícil você encontrar uma criança capaz de diferenciar uma mangueira de uma amoreira, um ipê de um ficus, um jatobá de um buriti. É uma tremenda contradição o fato de que, nesta cidade tão cheia de verde, de árvores e de pássaros, os mais novos pouco saibam sobre eles.

Nossas mães são capazes de identificar flores e árvores que nós sequer conhecemos. Nossos filhos, criados entre quatro paredes, apegados às TVs e aos computadores, mal podem discernir entre um joão-de-barro e um pardal. Sabem o que é um pitbull ou um husky siberiano, mas não identificam um caburé ou um bem-te-vi.

Levar ao Jardim Zoológico não adianta muito, já que ali vivem, em sua maioria, animais que não são típicos do cerrado. Só em pássaros, existiam mais de 800 espécies por aqui quando estas plagas ainda eram a Fazenda Bananal de Jorge Pelles. Hoje, dizem os cientistas e pesquisadores, metade delas continua por aqui, ainda que “somente” umas cem espécies possam ser vistas fora das áreas de proteção ambiental.

Não é pouco, mesmo assim. Às margens do Paranoá, nos clubes, mesmo nas árvores das superquadras, é só procurar que você os encontra. Mostre-os a seus filhos. Afinal, em que outra cidade grande do Brasil eles terão esse privilégio?


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Lá estão eles, colorindo a cidade. Na Esplanada, ao longo do Eixão, nas superquadras. São os ipês-amarelos, os primeiros que costumam florescer quando as primeiras chuvas anunciam o fim próximo da tradicional estiagem de inverno na cidade. Lindos, vistosos, os ipês são para mim quase um símbolo da Brasília em que cresci. Por isso, sempre os mostro aos meus filhos quando as flores aparecem.

Curioso como, nas últimas gerações, as crianças foram cada vez mais perdendo os laços com as plantas e os animais. Nas cidades grandes, é difícil você encontrar uma criança capaz de diferenciar uma mangueira de uma amoreira, um ipê de um ficus, um jatobá de um buriti. É uma tremenda contradição o fato de que, nesta cidade tão cheia de verde, de árvores e de pássaros, os mais novos pouco saibam sobre eles.

Nossas mães são capazes de identificar flores e árvores que nós sequer conhecemos. Nossos filhos, criados entre quatro paredes, apegados às TVs e aos computadores, mal podem discernir entre um joão-de-barro e um pardal. Sabem o que é um pitbull ou um husky siberiano, mas não identificam um caburé ou um bem-te-vi.

Levar ao Jardim Zoológico não adianta muito, já que ali vivem, em sua maioria, animais que não são típicos do cerrado. Só em pássaros, existiam mais de 800 espécies por aqui quando estas plagas ainda eram a Fazenda Bananal de Jorge Pelles. Hoje, dizem os cientistas e pesquisadores, metade delas continua por aqui, ainda que “somente” umas cem espécies possam ser vistas fora das áreas de proteção ambiental.

Não é pouco, mesmo assim. Às margens do Paranoá, nos clubes, mesmo nas árvores das superquadras, é só procurar que você os encontra. Mostre-os a seus filhos. Afinal, em que outra cidade grande do Brasil eles terão esse privilégio?


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Os leitores certamente perceberam que, com o começo de um novo governo, houve uma mudança na turma que freqüenta a Esplanada dos Ministérios e, por extensão, o restante da cidade. A toda hora nos defrontamos com carros de outros estados, alguns de localidades bastante obscuras.

É claro que a maior parte do funcionalismo público continua a mesmíssima, com FHC ou Lula, mas os postos de comando, os salários mais altos, os cargos de confiança trocaram de dono e, com isso, deu-se a invasão de forasteiros. Paulistas (aos montes!), baianos, cariocas, gaúchos, mineiros, gente de toda a parte.

Eu já fui forasteiro na cidade e sei como é diferente viver em Brasília. A esses recém-chegados à capital, posso dar algumas dicas para que eles e elas, rapidamente, se ajustem ao que Brasília tem de melhor e não sejam influenciados por aquilo que temos de pior. Notadamente, é triste admitir, a falta de modos no trânsito que parece contaminar a cidade.

1) Velocidade excessiva: a galera nova da Esplanada anda agitada para mostrar serviço e, volta e meia, vemos apressadinhos fazendo zigue-zague pelas nossas largas pistas. Do contrário, seu DAS vai todo para alimentar os pardais do Detran.

2) Celular ao volante: caríssimos visitantes, a lei é a mesma em todo o território brasileiro. Assim, não há assunto ou decisão tão urgente que mereça colocar em risco sua vida ou a de outros. Até porque (não é bom?), em Brasília o trabalho é bem pertinho de casa.

3) Estacionamento: gramados e calçadas não são destinados aos automóveis, mas aos pedestres. Se faltam vagas, paciência. Procure mais, pare mais longe, mas não ajude a destruir nosso ambiente urbano.

4) Buzina: levem a sério a singela mensagem estampada na placa para quem chega ao Plano Piloto, vindo do aeroporto: “Sr. Visitante: aqui não usamos buzina”. Nada de esmurrar o volante, companheiro! O barulho atrapalha o canto dos pássaros.

5) Fila dupla: não se deixem levar pelo mau exemplo dos nativos. A praga da fila dupla ataca nas horas de pico e congestiona as entrequadras. Você pode até ganhar tempo, mas corre o risco de ganhar um aborrecimento. É muito provinciano ficar batendo boca no meio da rua com outro motorista.

6) Balões e tesourinhas: tá certo que a sinalização horizontal precisa de uma recauchutada, mas é só seguir as indicações. E, sim, é verdade, aqui em alguns casos para ir para a esquerda é preciso dobrar à direita. Foi a brilhante saída encontrada pelo Lúcio Costa para evitar os cruzamentos que você tinha na sua cidade natal.

Brasília é a capital de todos os brasileiros, já diz o slogan. De todos os sotaques e culturas. Então, desfrute (no bom sentido!).


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Os leitores certamente perceberam que, com o começo de um novo governo, houve uma mudança na turma que freqüenta a Esplanada dos Ministérios e, por extensão, o restante da cidade. A toda hora nos defrontamos com carros de outros estados, alguns de localidades bastante obscuras.

É claro que a maior parte do funcionalismo público continua a mesmíssima, com FHC ou Lula, mas os postos de comando, os salários mais altos, os cargos de confiança trocaram de dono e, com isso, deu-se a invasão de forasteiros. Paulistas (aos montes!), baianos, cariocas, gaúchos, mineiros, gente de toda a parte.

Eu já fui forasteiro na cidade e sei como é diferente viver em Brasília. A esses recém-chegados à capital, posso dar algumas dicas para que eles e elas, rapidamente, se ajustem ao que Brasília tem de melhor e não sejam influenciados por aquilo que temos de pior. Notadamente, é triste admitir, a falta de modos no trânsito que parece contaminar a cidade.

1) Velocidade excessiva: a galera nova da Esplanada anda agitada para mostrar serviço e, volta e meia, vemos apressadinhos fazendo zigue-zague pelas nossas largas pistas. Do contrário, seu DAS vai todo para alimentar os pardais do Detran.

2) Celular ao volante: caríssimos visitantes, a lei é a mesma em todo o território brasileiro. Assim, não há assunto ou decisão tão urgente que mereça colocar em risco sua vida ou a de outros. Até porque (não é bom?), em Brasília o trabalho é bem pertinho de casa.

3) Estacionamento: gramados e calçadas não são destinados aos automóveis, mas aos pedestres. Se faltam vagas, paciência. Procure mais, pare mais longe, mas não ajude a destruir nosso ambiente urbano.

4) Buzina: levem a sério a singela mensagem estampada na placa para quem chega ao Plano Piloto, vindo do aeroporto: “Sr. Visitante: aqui não usamos buzina”. Nada de esmurrar o volante, companheiro! O barulho atrapalha o canto dos pássaros.

5) Fila dupla: não se deixem levar pelo mau exemplo dos nativos. A praga da fila dupla ataca nas horas de pico e congestiona as entrequadras. Você pode até ganhar tempo, mas corre o risco de ganhar um aborrecimento. É muito provinciano ficar batendo boca no meio da rua com outro motorista.

6) Balões e tesourinhas: tá certo que a sinalização horizontal precisa de uma recauchutada, mas é só seguir as indicações. E, sim, é verdade, aqui em alguns casos para ir para a esquerda é preciso dobrar à direita. Foi a brilhante saída encontrada pelo Lúcio Costa para evitar os cruzamentos que você tinha na sua cidade natal.

Brasília é a capital de todos os brasileiros, já diz o slogan. De todos os sotaques e culturas. Então, desfrute (no bom sentido!).


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Ora vejam! Pelo menos nesta coluna eu fiquei mais magro. Tão espremido que mal posso escrever uma polissílaba sem atravessar de uma linha para a outra. Além de mais esguio, também mudei de dia, expulso que fui do caderno Viva! das sextas-feiras. Restaram-me estes quatro centímetros de largura por 48 de altura. Faz-me pensar se não seria o caso de mudar o nome da coluna de Na Esquina para No Minarete.

O nome Na Esquina, inclusive, não foi escolha minha, mas sugestão de um grande amigo que recentemente resolveu virar desafeto. Fazer o quê?… De todo modo, ficou o nome da coluna de herança, muito apropriado para o tipo de papo informal, leve, que tento levar todas as semanas.

Muita gente discordaria. Como freqüentemente faço referência aos causos do passado, dou a impressão a muitos leitores de que sou um incorrigível saudosista. Nostálgica como dizem que é, melhor seria chamar a coluna de No fundo do baú. Pura maldade. Eu não tenho tantas saudades assim do tempo em que era um fedelho sem dinheiro, sem carteira de motorista, sem mulher, sem filhos, sem dívidas, sem rugas, sem barriga… Ufa! Pelo menos não estou perdendo cabelo, ficando impotente ou gostando de gim tônica; aí sim, seria grave.

Muito pior do que ser saudosista, fosse esse o meu caso, deve ser o de alguém que, repentinamente, perde todas as suas lembranças. Como um outro amigo meu, este também muito antigo, que esqueceu de tudo, quase 40 anos de vidas, sensações e recordações, por causa de um aneurisma cerebral. Teve que reaprender a falar, ler, escrever, dirigir.

Esqueceu dos amigos e dos só conhecidos, dos bons e dos maus momentos, das antigas namoradas, do colega de classe que implicava com ele no primário, do mau patrão que o sacaneou, do padre que lhe deu a primeira comunhão, da “primeira vez” e de em quem votou para presidente pela primeira vez (esse último, pensando bem, é mesmo melhor esquecer).

Para ajudar a preencher essa enorme folha em branco em que se transformou a memória, certo dia pegou sua antiga agenda telefônica e saiu ligando para as pessoas: nomes sem rosto, números absolutamente estranhos, vozes desconhecidas. Até que chegou ao “S” e, quando atendi, ele se apresentou:

– Oi, meu nome é Márcio Motta e acho que você já foi meu amigo. Seu nome está aqui na minha agenda telefônica.

Isso é que deve ser saudade. Saudade do passado que se perdeu para sempre nas brumas do cérebro. O negócio é deixar para trás e voltar a viver. Nascer de novo. Começar a contagem desde o dia em que abriu os olhos no hospital e viu aqueles estranhos de olhar apreensivo e sentiu uma mão suave e cálida dentro da sua.

Como assistir ao próprio nascimento…


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Ora vejam! Pelo menos nesta coluna eu fiquei mais magro. Tão espremido que mal posso escrever uma polissílaba sem atravessar de uma linha para a outra. Além de mais esguio, também mudei de dia, expulso que fui do caderno Viva! das sextas-feiras. Restaram-me estes quatro centímetros de largura por 48 de altura. Faz-me pensar se não seria o caso de mudar o nome da coluna de Na Esquina para No Minarete.

O nome Na Esquina, inclusive, não foi escolha minha, mas sugestão de um grande amigo que recentemente resolveu virar desafeto. Fazer o quê?… De todo modo, ficou o nome da coluna de herança, muito apropriado para o tipo de papo informal, leve, que tento levar todas as semanas.

Muita gente discordaria. Como freqüentemente faço referência aos causos do passado, dou a impressão a muitos leitores de que sou um incorrigível saudosista. Nostálgica como dizem que é, melhor seria chamar a coluna de No fundo do baú. Pura maldade. Eu não tenho tantas saudades assim do tempo em que era um fedelho sem dinheiro, sem carteira de motorista, sem mulher, sem filhos, sem dívidas, sem rugas, sem barriga… Ufa! Pelo menos não estou perdendo cabelo, ficando impotente ou gostando de gim tônica; aí sim, seria grave.

Muito pior do que ser saudosista, fosse esse o meu caso, deve ser o de alguém que, repentinamente, perde todas as suas lembranças. Como um outro amigo meu, este também muito antigo, que esqueceu de tudo, quase 40 anos de vidas, sensações e recordações, por causa de um aneurisma cerebral. Teve que reaprender a falar, ler, escrever, dirigir.

Esqueceu dos amigos e dos só conhecidos, dos bons e dos maus momentos, das antigas namoradas, do colega de classe que implicava com ele no primário, do mau patrão que o sacaneou, do padre que lhe deu a primeira comunhão, da “primeira vez” e de em quem votou para presidente pela primeira vez (esse último, pensando bem, é mesmo melhor esquecer).

Para ajudar a preencher essa enorme folha em branco em que se transformou a memória, certo dia pegou sua antiga agenda telefônica e saiu ligando para as pessoas: nomes sem rosto, números absolutamente estranhos, vozes desconhecidas. Até que chegou ao “S” e, quando atendi, ele se apresentou:

– Oi, meu nome é Márcio Motta e acho que você já foi meu amigo. Seu nome está aqui na minha agenda telefônica.

Isso é que deve ser saudade. Saudade do passado que se perdeu para sempre nas brumas do cérebro. O negócio é deixar para trás e voltar a viver. Nascer de novo. Começar a contagem desde o dia em que abriu os olhos no hospital e viu aqueles estranhos de olhar apreensivo e sentiu uma mão suave e cálida dentro da sua.

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Os mais jovens certamente vão duvidar, mas já houve um tempo, um passado até recente, em que conquistar uma mulher envolvia todo um ritual, um longo e às vezes penoso processo em que todas as estratégias e artifícios (legais, bem entendido) eram válidos para se alcançar o objetivo. Esse aprendizado era um dos mais divertidos na transição da puberdade para a juventude.

Antes eram os papos na porta da escola, hoje são as trocas de e-mails e mensagens pelo celular. Sem críticas aos métodos atuais de “pegação” nas raves e nas micarês, na minha geração, e evidentemente na minha faixa social, havia todo um ritual.

O primeiro movimento se dava com um convite ao cinema. Ali, no escurinho, dava para colocar o braço sobre os ombros e até roçar os cotovelos na poltrona, o que não garantia que as coisas seguiriam assim íntimas depois da sessão. Fazia-se necessária a estratégia mais agressiva. Quando a garota era especial, a saída noturna não podia ser para um botequim qualquer. Nada de cerveja em copo de requeijão, cadeiras de ferro na beira da calçada. Impunha-se um ambiente e um tratamento diferenciados na corte. Um garrafa de vinho e uma tábua de queijos e frios.

Papa fina, coisa séria. Era um baque tremendo para os escassos recursos orçamentários, mas a noite exigia. Escolhíamos um barzinho mais estiloso e romântico – tipo o Tasca, na 404 Sul, que já fechou, claro… – e procurávamos uma posição discreta, a um canto. Naturalmente, os dois do mesmo lado da mesa, (se a garota preferisse se sentar do outro lado, era péssimo sinal). O garçom acendia a vela no centro da mesa e nos oferecia o cardápio. As opções eram exíguas e (hoje sei disso!) muito ruins: Chateau Chandon, Baron de Lantier…

Pedíamos o vinho e a garrafa tinha que render, render, render, até o “bote”. Entre uma rodelinha de provolone e um quadradinho de quejo prato, a conversa precisava fluir rapidamente. A esperança era que a bebida fizesse logo efeito e descontraísse o ambiente. No cenário ideal, lá pela terceira taça o romance já estaria no ar. O vinho ajudava, era quase crucial, mas sem o papo e a disposição tudo ia por água abaixo.

O mais engraçado é que, na maioria das vezes, a noite terminava com um amasso no carro do pai, debaixo do bloco da menina, sob os olhares indiscretos do vigia. Nada de sexo, afinal naqueles tempos começo de namoro era assim mesmo.

Veteranos daquelas batalhas hoje sofisticaram seu gosto pelo vinho e já não praticam o mesmo ritual. São os colecionadores de rolhas. De vinho, bem entendido.


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Os mais jovens certamente vão duvidar, mas já houve um tempo, um passado até recente, em que conquistar uma mulher envolvia todo um ritual, um longo e às vezes penoso processo em que todas as estratégias e artifícios (legais, bem entendido) eram válidos para se alcançar o objetivo. Esse aprendizado era um dos mais divertidos na transição da puberdade para a juventude.

Antes eram os papos na porta da escola, hoje são as trocas de e-mails e mensagens pelo celular. Sem críticas aos métodos atuais de “pegação” nas raves e nas micarês, na minha geração, e evidentemente na minha faixa social, havia todo um ritual.

O primeiro movimento se dava com um convite ao cinema. Ali, no escurinho, dava para colocar o braço sobre os ombros e até roçar os cotovelos na poltrona, o que não garantia que as coisas seguiriam assim íntimas depois da sessão. Fazia-se necessária a estratégia mais agressiva. Quando a garota era especial, a saída noturna não podia ser para um botequim qualquer. Nada de cerveja em copo de requeijão, cadeiras de ferro na beira da calçada. Impunha-se um ambiente e um tratamento diferenciados na corte. Um garrafa de vinho e uma tábua de queijos e frios.

Papa fina, coisa séria. Era um baque tremendo para os escassos recursos orçamentários, mas a noite exigia. Escolhíamos um barzinho mais estiloso e romântico – tipo o Tasca, na 404 Sul, que já fechou, claro… – e procurávamos uma posição discreta, a um canto. Naturalmente, os dois do mesmo lado da mesa, (se a garota preferisse se sentar do outro lado, era péssimo sinal). O garçom acendia a vela no centro da mesa e nos oferecia o cardápio. As opções eram exíguas e (hoje sei disso!) muito ruins: Chateau Chandon, Baron de Lantier…

Pedíamos o vinho e a garrafa tinha que render, render, render, até o “bote”. Entre uma rodelinha de provolone e um quadradinho de quejo prato, a conversa precisava fluir rapidamente. A esperança era que a bebida fizesse logo efeito e descontraísse o ambiente. No cenário ideal, lá pela terceira taça o romance já estaria no ar. O vinho ajudava, era quase crucial, mas sem o papo e a disposição tudo ia por água abaixo.

O mais engraçado é que, na maioria das vezes, a noite terminava com um amasso no carro do pai, debaixo do bloco da menina, sob os olhares indiscretos do vigia. Nada de sexo, afinal naqueles tempos começo de namoro era assim mesmo.

Veteranos daquelas batalhas hoje sofisticaram seu gosto pelo vinho e já não praticam o mesmo ritual. São os colecionadores de rolhas. De vinho, bem entendido.


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Parecia um ser de outro planeta – ou de outra era. Jovem, na casa dos 20 anos, terno e gravata, tranqüilamente sentado no banco do saguão do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, o rapaz lia, em meio à algaravia dos passantes, um livro de poemas. Sim, de poemas!!! Mas não é de fato um cidadão inusitado, quase único?! O alto-falante anunciou a saída de um vôo da ponte aérea para São Paulo e meu personagem guardou o livro na pasta de couro marrom, levantou-se e foi embarcar.

Fiquei ali, esperando a minha vez de ser chamado a voar. Por que aquele rapaz estaria lendo um livro de poesia. Estava ali, na capa da obra, logo abaixo do título e do nome do autor: “Poemas”. É preciso ter muita sorte para, na longa duração de uma existência, você conseguir testemunhar uma cena como essa no Brasil de hoje.

Quem ainda lê poemas, meu Deus? Que as editoras me desmintam, mas certamente não é um produto de consumo popular. Não se vê um livro de poesia entre os dez (20? 100? 1.000?) mais vendidos há décadas. E mesmo assim, diante da tamanha indiferença do público em relação ao nobre gênero literário, ainda ensinam nas escolas o que são versos alexandrinos, métrica e por aí vai. Cai no vestibular!, descobri, espantado, há alguns dias.

Pode até existir coisa tão inútil quanto, mas certamente não há nada mais inútil para as novas gerações do que ensinar-lhes as técnicas para produção de versos em rimas metricamente perfeitas, como as redigiam nossos poetas parnasianos. Não é falta de romantismo ou de reconhecimento dos méritos de Olavo Bilac e tantos outros… É que os jovens hoje se conhecem e beijam mais depressa do que dizemos “dodecassílabo”. Seus versos são traçados nas salas de bate-papo da internet, nos e-mails e nas mensagens de texto pelo celular…

Poesia = paixão é uma equação que, admitamos, perdeu sua validade matemática. A paixão nunca vai morrer, nem a poesia, provavelmente. Sobreviverá em seu formato mais contemporâneo, sem rimas ou medidas, mas com força e emoção. Mas vai se tornando cada vez mais uma prática anacrônica, esquecida, restrita aos grupos de iniciados. Não é o meu desejo, são os fatos.

Se é saudável se estimular na juventude o hábito da leitura, aulas de métrica no ensino médio certamente não são boa estratégia. Já basta obrigar os meninos a lerem os clássicos em uma idade em que pouquíssima gente consegue assimilar – e conseqüentemente apreciar – o estilo e o conteúdo daquelas obras.


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Parecia um ser de outro planeta – ou de outra era. Jovem, na casa dos 20 anos, terno e gravata, tranqüilamente sentado no banco do saguão do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, o rapaz lia, em meio à algaravia dos passantes, um livro de poemas. Sim, de poemas!!! Mas não é de fato um cidadão inusitado, quase único?! O alto-falante anunciou a saída de um vôo da ponte aérea para São Paulo e meu personagem guardou o livro na pasta de couro marrom, levantou-se e foi embarcar.

Fiquei ali, esperando a minha vez de ser chamado a voar. Por que aquele rapaz estaria lendo um livro de poesia. Estava ali, na capa da obra, logo abaixo do título e do nome do autor: “Poemas”. É preciso ter muita sorte para, na longa duração de uma existência, você conseguir testemunhar uma cena como essa no Brasil de hoje.

Quem ainda lê poemas, meu Deus? Que as editoras me desmintam, mas certamente não é um produto de consumo popular. Não se vê um livro de poesia entre os dez (20? 100? 1.000?) mais vendidos há décadas. E mesmo assim, diante da tamanha indiferença do público em relação ao nobre gênero literário, ainda ensinam nas escolas o que são versos alexandrinos, métrica e por aí vai. Cai no vestibular!, descobri, espantado, há alguns dias.

Pode até existir coisa tão inútil quanto, mas certamente não há nada mais inútil para as novas gerações do que ensinar-lhes as técnicas para produção de versos em rimas metricamente perfeitas, como as redigiam nossos poetas parnasianos. Não é falta de romantismo ou de reconhecimento dos méritos de Olavo Bilac e tantos outros… É que os jovens hoje se conhecem e beijam mais depressa do que dizemos “dodecassílabo”. Seus versos são traçados nas salas de bate-papo da internet, nos e-mails e nas mensagens de texto pelo celular…

Poesia = paixão é uma equação que, admitamos, perdeu sua validade matemática. A paixão nunca vai morrer, nem a poesia, provavelmente. Sobreviverá em seu formato mais contemporâneo, sem rimas ou medidas, mas com força e emoção. Mas vai se tornando cada vez mais uma prática anacrônica, esquecida, restrita aos grupos de iniciados. Não é o meu desejo, são os fatos.

Se é saudável se estimular na juventude o hábito da leitura, aulas de métrica no ensino médio certamente não são boa estratégia. Já basta obrigar os meninos a lerem os clássicos em uma idade em que pouquíssima gente consegue assimilar – e conseqüentemente apreciar – o estilo e o conteúdo daquelas obras.


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O camaronês Foe tombou, subitamente, no centro do gramado. Revirou os olhos, agonizou e morreu, diante de milhões de pessoas que assistiam a um jogo de futebol. Morte súbita, estúpida, inesperada. Morreu, pelo menos, trabalhando e fazendo o que mais gostava: jogar bola.

No dia seguinte, aqui no Jornal de Brasília, outra morte estúpida e ainda mais inesperada nos chocou: Hamilton Almeida, colega e amigo, modelo e inspiração, deixou-nos engolido pela brutalidade e insensatez das estradas brasileiras. O pai, o filho, o esposo, o amigo, o companheiro de trabalho transformou-se, subitamente, em mais um número nas sangrentas estatísticas do trânsito.

Escrevo com redobrado cuidado nas vírgulas, nas flexões, na sintaxe e no estilo. Afinal, lá de cima, imagino o violeiro contido e talentoso a zelar, como fez durante toda a sua brilhante carreira, pelo nosso idioma e pela satisfação dos leitores. Hamilton, como diz a frase, vestia as sandálias da humildade para provar a velha máxima de que todo texto pode e deve ser mexido; e, quase sempre, fica melhor.

Jogadores de futebol e jornalistas têm, quem diria, algo em comum. Mesmo abalados pela tragédia de Foe, seus colegas de seleção terminaram o jogo e o campeonato. Aqui, na Redação, mesmo devastados pela perda do amigo, tivemos de produzir o jornal do dia seguinte, até mesmo cobrir e editar as notícias sobre a sua morte.

Eu ainda era um repórter novato de Esportes na redação do Correio Braziliense, há 20 anos, quando fomos engolidos pela tragédia do brutal assassinato de Mário Eugênio. Eu deixara o plantão do domingo e ouvi a notícia pelo rádio, no restaurante onde jantava. Voltei à Redação e lá encontrei uma dúzia de colegas consternados: Ronaldo e Randal Junqueira, Fernando Lemos, Renato Riella, João Bolão, Cláudio Lysias, Arnolfo Carvalho, Guilherme Soares… Reabrimos o jornal, mudamos as páginas, fizemos outra capa e publicamos a notícia da morte do repórter de polícia. Foi meu o título do editorial da capa: “Ele morreu, nós não!”

Mais que um vaticínio, uma promessa de que os criminosos não ficariam impunes. E, coincidentemente, um dos homens que mais trabalharam na investigação jornalística que nos rendeu o Prêmio Esso Nacional de Jornalismo foi este negro goiano valente, meticuloso e exigente como todo bom aquariano, mas dono de notável coração. Tão notável que conseguia colocar-se acima da própria razão, que em Hamilton era a marca. O gigante coração parou. Fica a saudade.


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O camaronês Foe tombou, subitamente, no centro do gramado. Revirou os olhos, agonizou e morreu, diante de milhões de pessoas que assistiam a um jogo de futebol. Morte súbita, estúpida, inesperada. Morreu, pelo menos, trabalhando e fazendo o que mais gostava: jogar bola.

No dia seguinte, aqui no Jornal de Brasília, outra morte estúpida e ainda mais inesperada nos chocou: Hamilton Almeida, colega e amigo, modelo e inspiração, deixou-nos engolido pela brutalidade e insensatez das estradas brasileiras. O pai, o filho, o esposo, o amigo, o companheiro de trabalho transformou-se, subitamente, em mais um número nas sangrentas estatísticas do trânsito.

Escrevo com redobrado cuidado nas vírgulas, nas flexões, na sintaxe e no estilo. Afinal, lá de cima, imagino o violeiro contido e talentoso a zelar, como fez durante toda a sua brilhante carreira, pelo nosso idioma e pela satisfação dos leitores. Hamilton, como diz a frase, vestia as sandálias da humildade para provar a velha máxima de que todo texto pode e deve ser mexido; e, quase sempre, fica melhor.

Jogadores de futebol e jornalistas têm, quem diria, algo em comum. Mesmo abalados pela tragédia de Foe, seus colegas de seleção terminaram o jogo e o campeonato. Aqui, na Redação, mesmo devastados pela perda do amigo, tivemos de produzir o jornal do dia seguinte, até mesmo cobrir e editar as notícias sobre a sua morte.

Eu ainda era um repórter novato de Esportes na redação do Correio Braziliense, há 20 anos, quando fomos engolidos pela tragédia do brutal assassinato de Mário Eugênio. Eu deixara o plantão do domingo e ouvi a notícia pelo rádio, no restaurante onde jantava. Voltei à Redação e lá encontrei uma dúzia de colegas consternados: Ronaldo e Randal Junqueira, Fernando Lemos, Renato Riella, João Bolão, Cláudio Lysias, Arnolfo Carvalho, Guilherme Soares… Reabrimos o jornal, mudamos as páginas, fizemos outra capa e publicamos a notícia da morte do repórter de polícia. Foi meu o título do editorial da capa: “Ele morreu, nós não!”

Mais que um vaticínio, uma promessa de que os criminosos não ficariam impunes. E, coincidentemente, um dos homens que mais trabalharam na investigação jornalística que nos rendeu o Prêmio Esso Nacional de Jornalismo foi este negro goiano valente, meticuloso e exigente como todo bom aquariano, mas dono de notável coração. Tão notável que conseguia colocar-se acima da própria razão, que em Hamilton era a marca. O gigante coração parou. Fica a saudade.


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Estamos todos, brasileiros, siderados pelo mais novo superprêmio da Megassena. Milhões, milhões, milhões. Vou poupá-los de citar as reais chances matemáticas de ganhar sozinho nesta loteria, até porque, longe da razão e da sensibilidade, eu também ando fazendo a minha fezinha, duas vezes por semana. Dez reais, dez apostas mínimas, números escolhidos pela máquina. Nunca passei de dois acertos em seis, mas em compensação não tenho uma grande sensação de perda. Explico a razão.

Nunca tive sorte no jogo. Durante uma fase meio agitada da minha vida, andei gostando um bocado de jogar cartas (pôquer, sete e meio, blackjack). Fase curta, registre-se, mas que me causou muita preocupação. Primeiro, porque perdia muito mais do que ganhava. Além da má sorte, imagino, conspirava contra as minhas ambições a falta de técnica e a de frieza necessárias para enfrentar o carteado. O jogo, todos sabem (menos os viciados, claro), é tremendamente insidioso. Infiltra-se em você e, de súbito, conquistou mais um escravo. Moralismos e sociologia à parte, não há sentido em apostar dinheiro em cartas, dados, patas de cavalo.

As pessoas, no fundo, estão em busca de emoções e sensações que parecem não reconhecer nas coisas mais simples e verdadeiras da vida. Já não se encantam pelos pequenos mistérios da Criação, pelas belezas que desprezamos na rotina da atribulada existência urbana moderna.

Vão, muitos, dizer que esse é um papo meio hippie, meio maluco, mas ouvi de uma pessoa cega, certa vez, que as pessoas ignoram o verdadeiro espetáculo proporcionado pelas outras quatro sensações exteriores. Sentir a brisa no rosto, tocar a pequena e carnuda mão de seu filho recém-nascido, saborear a mordida em uma fruta, apreciar o aroma de uma comidinha bem preparada. Chegar ao ponto final de um bom livro, relembrar os momentos mais emocionantes ou românticos da sua vida, recuperar uma amizade perdida, ser útil, ajudar alguém, fazer sentido… Longe de mim defender um boicote à Megassena. É certo que o governo luta com unhas e dentes para manter o monopólio do cassino no Brasil, oficial ou não, mas esses jogos, pelo menos, são mais inofensivos. Perde-se pouco, pode-se ganhar uma bolada. Vale até imaginar-se milionário, mandando o patrão às favas, viajando o mundo de primeira classe. Maravilha. Mas aquela vozinha que sempre ouvimos, aquele Grilo Falante que todos temos dentro de nós, sempre vai nos lembrar: e, então, a vida é isso? Eu sou, no fundo, um cara de sorte. Tenho tudo o que quero e amo tudo o que tenho.


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Estamos todos, brasileiros, siderados pelo mais novo superprêmio da Megassena. Milhões, milhões, milhões. Vou poupá-los de citar as reais chances matemáticas de ganhar sozinho nesta loteria, até porque, longe da razão e da sensibilidade, eu também ando fazendo a minha fezinha, duas vezes por semana. Dez reais, dez apostas mínimas, números escolhidos pela máquina. Nunca passei de dois acertos em seis, mas em compensação não tenho uma grande sensação de perda. Explico a razão.

Nunca tive sorte no jogo. Durante uma fase meio agitada da minha vida, andei gostando um bocado de jogar cartas (pôquer, sete e meio, blackjack). Fase curta, registre-se, mas que me causou muita preocupação. Primeiro, porque perdia muito mais do que ganhava. Além da má sorte, imagino, conspirava contra as minhas ambições a falta de técnica e a de frieza necessárias para enfrentar o carteado. O jogo, todos sabem (menos os viciados, claro), é tremendamente insidioso. Infiltra-se em você e, de súbito, conquistou mais um escravo. Moralismos e sociologia à parte, não há sentido em apostar dinheiro em cartas, dados, patas de cavalo.

As pessoas, no fundo, estão em busca de emoções e sensações que parecem não reconhecer nas coisas mais simples e verdadeiras da vida. Já não se encantam pelos pequenos mistérios da Criação, pelas belezas que desprezamos na rotina da atribulada existência urbana moderna.

Vão, muitos, dizer que esse é um papo meio hippie, meio maluco, mas ouvi de uma pessoa cega, certa vez, que as pessoas ignoram o verdadeiro espetáculo proporcionado pelas outras quatro sensações exteriores. Sentir a brisa no rosto, tocar a pequena e carnuda mão de seu filho recém-nascido, saborear a mordida em uma fruta, apreciar o aroma de uma comidinha bem preparada. Chegar ao ponto final de um bom livro, relembrar os momentos mais emocionantes ou românticos da sua vida, recuperar uma amizade perdida, ser útil, ajudar alguém, fazer sentido… Longe de mim defender um boicote à Megassena. É certo que o governo luta com unhas e dentes para manter o monopólio do cassino no Brasil, oficial ou não, mas esses jogos, pelo menos, são mais inofensivos. Perde-se pouco, pode-se ganhar uma bolada. Vale até imaginar-se milionário, mandando o patrão às favas, viajando o mundo de primeira classe. Maravilha. Mas aquela vozinha que sempre ouvimos, aquele Grilo Falante que todos temos dentro de nós, sempre vai nos lembrar: e, então, a vida é isso? Eu sou, no fundo, um cara de sorte. Tenho tudo o que quero e amo tudo o que tenho.


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Domingo passado, no Rio, fui com meu primo Gustavo e sua esposa Roberta levar o pequeno Tomaz para um passeio à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Era uma bela manhã e os felizardos moradores da Zona Sul puderam constatar mais uma vez que, como dizia nosso ministro da Cultura, o Rio de Janeiro continua lindo.

No espaço conhecido como Parque dos Patins, centenas de pais, mães e crianças divertiam-se ao ar livre, guardados pela imagem em granito de Nosso Redentor. Naquele mesmo lugar, por coincidência, acho que fui ao primeiro parque de diversões da minha vida, o Tivoli Park, que ali se instalava rotineiramente nos idos dos anos 60. Mas, àquela época, o máximo em termos de emoção para uma criança era descer o tobogã, andar no trem-fantasma ou passear na roda-gigante. Nem mesmo as hoje tão comuns montanhas-russas haviam desembarcado na Terra Brasilis. Esportes, por assim dizer, radicais, ficavam reservados aos mais velhos, meninões de seus nove ou dez anos. Descer uma ladeira com carrinho de rolimã, subir nas árvores ou pegar jacaré na praia eram as grandes produtoras de adrenalina. No Parque dos Patins, constatei que mudou o mundo e mudaram as crianças. Muro de escalada, minibungie-jump, skates, patinetes, patins, bicicross. Diversão para a garotada tem de ter aventura, muita aventura. Até mesmo os bem pequenos, que antes ficavam alegres e contentes com um pula-pula, hoje só querem saber de cama elástica ou do gigantesco escorregador inflável, para uma descida mais irada. Claro, nem tudo mudou tão depressa assim. Ainda pude encontrar, depois de muito procurar na multidão, uns dois ou três meninos andando de bicicleta com rodinhas. Houve até o caso de um pai – pasmem! – jogando futebol com o moleque. Velocípede é coisa do passado. O negócio agora é andar nos carros movidos a bateria. No grande círculo de cimento, dezenas de candidatos a piloto de F-1 ainda cheirando a fralda desafiavam-se em curvas e manobras ousadíssimas.

Não é à toa que, com infâncias tão recheadas de intrépidas atividades, os pimpolhos não evoluam para adolescentes radicais, adeptos do pára-quedismo, rapel, trilhas, exploração de cavernas e outras modalidades que fazem os nossos cabelos paternos e maternos ficarem grisalhos bem antes do tempo. No fundo, mudam os tempos, mas permanece o espírito. Afinal, para a criança, o mundo é um imenso parque de diversões a ser explorado. (Não pensem que descobri todo esse mundo infantil em minha visita ao Rio. É só desculpa para escrever a coluna)


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Domingo passado, no Rio, fui com meu primo Gustavo e sua esposa Roberta levar o pequeno Tomaz para um passeio à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Era uma bela manhã e os felizardos moradores da Zona Sul puderam constatar mais uma vez que, como dizia nosso ministro da Cultura, o Rio de Janeiro continua lindo.

No espaço conhecido como Parque dos Patins, centenas de pais, mães e crianças divertiam-se ao ar livre, guardados pela imagem em granito de Nosso Redentor. Naquele mesmo lugar, por coincidência, acho que fui ao primeiro parque de diversões da minha vida, o Tivoli Park, que ali se instalava rotineiramente nos idos dos anos 60. Mas, àquela época, o máximo em termos de emoção para uma criança era descer o tobogã, andar no trem-fantasma ou passear na roda-gigante. Nem mesmo as hoje tão comuns montanhas-russas haviam desembarcado na Terra Brasilis. Esportes, por assim dizer, radicais, ficavam reservados aos mais velhos, meninões de seus nove ou dez anos. Descer uma ladeira com carrinho de rolimã, subir nas árvores ou pegar jacaré na praia eram as grandes produtoras de adrenalina. No Parque dos Patins, constatei que mudou o mundo e mudaram as crianças. Muro de escalada, minibungie-jump, skates, patinetes, patins, bicicross. Diversão para a garotada tem de ter aventura, muita aventura. Até mesmo os bem pequenos, que antes ficavam alegres e contentes com um pula-pula, hoje só querem saber de cama elástica ou do gigantesco escorregador inflável, para uma descida mais irada. Claro, nem tudo mudou tão depressa assim. Ainda pude encontrar, depois de muito procurar na multidão, uns dois ou três meninos andando de bicicleta com rodinhas. Houve até o caso de um pai – pasmem! – jogando futebol com o moleque. Velocípede é coisa do passado. O negócio agora é andar nos carros movidos a bateria. No grande círculo de cimento, dezenas de candidatos a piloto de F-1 ainda cheirando a fralda desafiavam-se em curvas e manobras ousadíssimas.

Não é à toa que, com infâncias tão recheadas de intrépidas atividades, os pimpolhos não evoluam para adolescentes radicais, adeptos do pára-quedismo, rapel, trilhas, exploração de cavernas e outras modalidades que fazem os nossos cabelos paternos e maternos ficarem grisalhos bem antes do tempo. No fundo, mudam os tempos, mas permanece o espírito. Afinal, para a criança, o mundo é um imenso parque de diversões a ser explorado. (Não pensem que descobri todo esse mundo infantil em minha visita ao Rio. É só desculpa para escrever a coluna)


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Despediu-se dos céus, depois de quase três décadas cruzando o Oceano Atlântico em velocidade mais rápida que o som, o Concorde. Vai ser aposentado ainda este ano para sempre. O narigudo jato anglo-francês foi uma verdadeira revolução à época de seu lançamento, a ponto de produzir um dos mais notórios casos de espionagem industrial, um verdadeiro clássico da guerra fria, com o surgimento do clone soviético Tupolev. Isso, no entanto, é assunto para John le Carré ou Tom Clancy, os cobrões dos livros (e filmes) sobre os embates das superpotências. No meu caso, o Concorde vai deixar saudades, mesmo sem eu ter tido a chance de ser seu passageiro. Faltou-me, além da oportunidade, o dinheiro, naturalmente. Por andar mais rápido, o danadinho sempre foi bem mais caro que os rivais nas travessias oceânicas. Fui à Europa quatro vezes, mas nunca eu e o esguio avião tivemos a chance de nos encontrar. Tive com o Concorde um, por assim dizer, namoro platônico. Que começou, comme il faut, na adolescência. Passávamos as férias de verão em uma casa de três telhados na então deserta Praia de Piratininga (RJ), já bem conhecida de meu fiel e cativo público-leitor. Ela fica logo depois de Niterói, portanto bem próxima à entrada da Baía de Guanabara. Foi de lá, numa tarde de domingo – salvo meus já tradicionais lapsos de memória –, que assistimos, eu, primos, tios e tias, à passagem do Concorde em seu primeiro vôo Rio-Paris.

O danadinho saía lá do Aeroporto do Galeão e, por essas ironias da aeronáutica, quebrava a barreira do som justamente sobre nossas cabeças. Ficávamos na areia esperando o bichão passar. Via-se pouco de sua figura metálica fina, o bico ereto (só se inclinava para as aterrissagens) buscando quase a estratosfera… De repente, pam! O estampido comprovava aquilo que o Zé, garçom do vizinho boteco O Tubarão, jurava ser potoca (mentira) dos jornais. De nada adiantava a gente mostrar para ele que o Concorde ia lá longe, quase no horizonte, e o som seguia sempre atrás, tal qual Schumacher e Rubinho. Zé não se conformava em ver o avião chegar por trás dos montes, passar sobre nossas cabeças e seguir adiante, sem um único ruído, como se uma ave fosse. Durante as férias de verão de 1975, as passagens do Concorde nas tardes de domingo eram programa obrigatório. Meu pai, tio Hélio e tio Jaci Hargreaves chegaram um dia a levar as cadeiras de armas para a areia, um isopor de gelo e a garrafa de uísque para fazer um brinde em homenagem ao século 21. E não é que chegamos todos a ele?!


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Despediu-se dos céus, depois de quase três décadas cruzando o Oceano Atlântico em velocidade mais rápida que o som, o Concorde. Vai ser aposentado ainda este ano para sempre. O narigudo jato anglo-francês foi uma verdadeira revolução à época de seu lançamento, a ponto de produzir um dos mais notórios casos de espionagem industrial, um verdadeiro clássico da guerra fria, com o surgimento do clone soviético Tupolev. Isso, no entanto, é assunto para John le Carré ou Tom Clancy, os cobrões dos livros (e filmes) sobre os embates das superpotências. No meu caso, o Concorde vai deixar saudades, mesmo sem eu ter tido a chance de ser seu passageiro. Faltou-me, além da oportunidade, o dinheiro, naturalmente. Por andar mais rápido, o danadinho sempre foi bem mais caro que os rivais nas travessias oceânicas. Fui à Europa quatro vezes, mas nunca eu e o esguio avião tivemos a chance de nos encontrar. Tive com o Concorde um, por assim dizer, namoro platônico. Que começou, comme il faut, na adolescência. Passávamos as férias de verão em uma casa de três telhados na então deserta Praia de Piratininga (RJ), já bem conhecida de meu fiel e cativo público-leitor. Ela fica logo depois de Niterói, portanto bem próxima à entrada da Baía de Guanabara. Foi de lá, numa tarde de domingo – salvo meus já tradicionais lapsos de memória –, que assistimos, eu, primos, tios e tias, à passagem do Concorde em seu primeiro vôo Rio-Paris.

O danadinho saía lá do Aeroporto do Galeão e, por essas ironias da aeronáutica, quebrava a barreira do som justamente sobre nossas cabeças. Ficávamos na areia esperando o bichão passar. Via-se pouco de sua figura metálica fina, o bico ereto (só se inclinava para as aterrissagens) buscando quase a estratosfera… De repente, pam! O estampido comprovava aquilo que o Zé, garçom do vizinho boteco O Tubarão, jurava ser potoca (mentira) dos jornais. De nada adiantava a gente mostrar para ele que o Concorde ia lá longe, quase no horizonte, e o som seguia sempre atrás, tal qual Schumacher e Rubinho. Zé não se conformava em ver o avião chegar por trás dos montes, passar sobre nossas cabeças e seguir adiante, sem um único ruído, como se uma ave fosse. Durante as férias de verão de 1975, as passagens do Concorde nas tardes de domingo eram programa obrigatório. Meu pai, tio Hélio e tio Jaci Hargreaves chegaram um dia a levar as cadeiras de armas para a areia, um isopor de gelo e a garrafa de uísque para fazer um brinde em homenagem ao século 21. E não é que chegamos todos a ele?!


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John Grisham, o autor de best-sellers de tribunal e de advogados, escreveu um livro (certamente autobiográfico) sobre a infância em uma fazenda do Meio-Oeste americano. A Casa Pintada é o tocante retrato das agruras e da simplicidade da vida rural, sob a ótica de um menino que, de uma só tacada, descobre o sexo, o medo, o valor da amizade e do dinheiro, enfim… A casa do título é aquela em que ele nasceu e cresceu e, antes dele, seu pai e também seu avô. Um santuário familiar, a âncora que manteve presas à terra e às tradições gerações e mais gerações.

Quantos de nós, leitores, ainda podemos dizer que vivemos na casa em que nascemos e crescemos? Nessa vida louca e moderna, passamos à condição de nômades sem sequer nos darmos conta. Eu mesmo recentemente mudei-me para o que é meu 18º (!!!) domicílio… Todos no Plano Piloto… Bem, a maior parte graças à convicção de meu pai, quando mudou-se para a capital, de que em breve estaria de volta ao Rio de Janeiro. Por isso, jamais comprou um imóvel aqui – quanto pôde, não quis; quando quis, já não tinha como… Pulávamos quase anualmente de uma quadra para a outra, ao sabor das intempéries provocadas pela antiga Lei do Inquilinato e a malsinada denúncia vazia. O senhorio mandava e desmandava, e o locatário vivia sobressaltado. A cada mudança, deixava para trás amigos, campinhos improvisados de pelada, árvores, paisagens, a banca de jornal, as camaradagens no comércio da quadra. Não era só sentimentais as perdas. Empacotar os brinquedos era quase uma rotina e, freqüentemente, algum de meus preciosos bens era surrupiado durante a mudança. Uma vez, deixando a 707 para a 112, fiquei sem o meu campo de futebol de botão. Ao chegar à 106, constatei que a coleção de chaveiros tinha sido severamente desfalcada. Mais adiante, em outra muda, sumiram os discos do Rick Wakeman (inclusive o quadrifônico Viagem ao Centro da Terra).

Até a gente se acostumar com a claridade ou a escuridão do quarto novo, aos barulhos matinais e noturnos, às distâncias entre a cama e a privada, fica tudo muito esquisito. Mais chato que mudar de endereço, só mesmo mudar de escola. A meninada sente o baque, fica meio sem chão. Sei disso porque vivi o drama naquela época e vivo de novo, lá em casa, com os meninos em busca de amigos novos na quadra nova.

Não posso dar-lhes nada além da minha solidariedade, além, talvez, da experiência de saber que, na vida, tudo passa. E de acreditar, como Fernando Sabino, que toda mudança é para melhor. Se não melhorou é porque a mudança ainda não terminou.


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John Grisham, o autor de best-sellers de tribunal e de advogados, escreveu um livro (certamente autobiográfico) sobre a infância em uma fazenda do Meio-Oeste americano. A Casa Pintada é o tocante retrato das agruras e da simplicidade da vida rural, sob a ótica de um menino que, de uma só tacada, descobre o sexo, o medo, o valor da amizade e do dinheiro, enfim… A casa do título é aquela em que ele nasceu e cresceu e, antes dele, seu pai e também seu avô. Um santuário familiar, a âncora que manteve presas à terra e às tradições gerações e mais gerações.

Quantos de nós, leitores, ainda podemos dizer que vivemos na casa em que nascemos e crescemos? Nessa vida louca e moderna, passamos à condição de nômades sem sequer nos darmos conta. Eu mesmo recentemente mudei-me para o que é meu 18º (!!!) domicílio… Todos no Plano Piloto… Bem, a maior parte graças à convicção de meu pai, quando mudou-se para a capital, de que em breve estaria de volta ao Rio de Janeiro. Por isso, jamais comprou um imóvel aqui – quanto pôde, não quis; quando quis, já não tinha como… Pulávamos quase anualmente de uma quadra para a outra, ao sabor das intempéries provocadas pela antiga Lei do Inquilinato e a malsinada denúncia vazia. O senhorio mandava e desmandava, e o locatário vivia sobressaltado. A cada mudança, deixava para trás amigos, campinhos improvisados de pelada, árvores, paisagens, a banca de jornal, as camaradagens no comércio da quadra. Não era só sentimentais as perdas. Empacotar os brinquedos era quase uma rotina e, freqüentemente, algum de meus preciosos bens era surrupiado durante a mudança. Uma vez, deixando a 707 para a 112, fiquei sem o meu campo de futebol de botão. Ao chegar à 106, constatei que a coleção de chaveiros tinha sido severamente desfalcada. Mais adiante, em outra muda, sumiram os discos do Rick Wakeman (inclusive o quadrifônico Viagem ao Centro da Terra).

Até a gente se acostumar com a claridade ou a escuridão do quarto novo, aos barulhos matinais e noturnos, às distâncias entre a cama e a privada, fica tudo muito esquisito. Mais chato que mudar de endereço, só mesmo mudar de escola. A meninada sente o baque, fica meio sem chão. Sei disso porque vivi o drama naquela época e vivo de novo, lá em casa, com os meninos em busca de amigos novos na quadra nova.

Não posso dar-lhes nada além da minha solidariedade, além, talvez, da experiência de saber que, na vida, tudo passa. E de acreditar, como Fernando Sabino, que toda mudança é para melhor. Se não melhorou é porque a mudança ainda não terminou.


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Passo diante dele todos os dias. E sempre me prometo escrever em sua defesa. Paciente como um monge, ele aguarda há tempos que eu honre a palavra. Enquanto isso, esquecido por mim, mas principalmente pelo Governo do Distrito Federal, o Planetário de Brasília vai se deteriorando cada vez mais. Há anos fechado, priva as crianças (e até mesmo os adultos) da chance de uma viagem mágica pelo mundo das estrelas, dos planetas e das luas. Lembro-me com nitidez, visitar o Planetário foi, para mim, uma sensacional revelação. Recém-inaugurado, meu primeiro planetário foi o do Rio de Janeiro, na Gávea, onde a aventura de passear entre os planetas do Sistema Solar deixou o menino de nove anos boquiaberto. Era uma época de enorme entusiasmo e interesse pelas viagens espaciais – Neil Armstrong tinha deixado sua pegada no solo lunar no ano anterior. Feito que muita gente considerava uma armação bem realizada dos estúdios de Hollywood. Dona Celina, negrona risonha e gorducha que morava no antes pacato Morro do Turano e trabalhava na casa da minha tia Coy, dizia, com absoluta convicção: “Invenção dos americanos! Onde já se viu um homem viajar até a Lua?!”

Eu viajei até a Lua. Passei por ela e enfrentei o calorão que faz em Mercúrio, deslumbrei-me com a beleza de Vênus e Marte, atravessei o Cinturão de Asteróides e sobrevoei os Anéis de Saturno. Júpiter fez nossa “nave” parecer uma poeirinha no espaço, tão grande é maioral do Sistema Solar. Nos distantes Urano, Netuno e Plutão, só vimos neve – o que era até bom, diante do inclemente verão carioca.

Minha inveja durou poucos anos porque, em 1974, inauguraram o Planetário de Brasília, igualzinho ao do Rio: 130 lugares, cúpula de projeção de 12, 5 metros, uma beleza. Não perdi a chance de viajei de novo. Vinte anos depois, fui pela terceira vez a um planetário. Levei meu filho Gustavo, pequeno ainda. Pegamos a fila, compramos pipoca, nos sentamos nas poltronas reclinadas e curtimos mais uma viagem pelo universo. O fascínio continuou bem vivo, apesar dos prodígios da tecnologia a que eles se habituaram, até mesmo dentro de casa. Mas tenho dois filhos mais novos que nunca puderam fazer o mesmo passeio.

O pobre Planetário de Brasília, que poderia estar servindo na educação e no lazer de tantas famílias, inclusive dos turistas, segue fechado, esquecido, às escuras. Tomara que dê certo o plano de uma parceria entre o GDF e a UnB para reabrir o sonho.


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Passo diante dele todos os dias. E sempre me prometo escrever em sua defesa. Paciente como um monge, ele aguarda há tempos que eu honre a palavra. Enquanto isso, esquecido por mim, mas principalmente pelo Governo do Distrito Federal, o Planetário de Brasília vai se deteriorando cada vez mais. Há anos fechado, priva as crianças (e até mesmo os adultos) da chance de uma viagem mágica pelo mundo das estrelas, dos planetas e das luas. Lembro-me com nitidez, visitar o Planetário foi, para mim, uma sensacional revelação. Recém-inaugurado, meu primeiro planetário foi o do Rio de Janeiro, na Gávea, onde a aventura de passear entre os planetas do Sistema Solar deixou o menino de nove anos boquiaberto. Era uma época de enorme entusiasmo e interesse pelas viagens espaciais – Neil Armstrong tinha deixado sua pegada no solo lunar no ano anterior. Feito que muita gente considerava uma armação bem realizada dos estúdios de Hollywood. Dona Celina, negrona risonha e gorducha que morava no antes pacato Morro do Turano e trabalhava na casa da minha tia Coy, dizia, com absoluta convicção: “Invenção dos americanos! Onde já se viu um homem viajar até a Lua?!”

Eu viajei até a Lua. Passei por ela e enfrentei o calorão que faz em Mercúrio, deslumbrei-me com a beleza de Vênus e Marte, atravessei o Cinturão de Asteróides e sobrevoei os Anéis de Saturno. Júpiter fez nossa “nave” parecer uma poeirinha no espaço, tão grande é maioral do Sistema Solar. Nos distantes Urano, Netuno e Plutão, só vimos neve – o que era até bom, diante do inclemente verão carioca.

Minha inveja durou poucos anos porque, em 1974, inauguraram o Planetário de Brasília, igualzinho ao do Rio: 130 lugares, cúpula de projeção de 12, 5 metros, uma beleza. Não perdi a chance de viajei de novo. Vinte anos depois, fui pela terceira vez a um planetário. Levei meu filho Gustavo, pequeno ainda. Pegamos a fila, compramos pipoca, nos sentamos nas poltronas reclinadas e curtimos mais uma viagem pelo universo. O fascínio continuou bem vivo, apesar dos prodígios da tecnologia a que eles se habituaram, até mesmo dentro de casa. Mas tenho dois filhos mais novos que nunca puderam fazer o mesmo passeio.

O pobre Planetário de Brasília, que poderia estar servindo na educação e no lazer de tantas famílias, inclusive dos turistas, segue fechado, esquecido, às escuras. Tomara que dê certo o plano de uma parceria entre o GDF e a UnB para reabrir o sonho.


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Naturalmente – dá para notar pela foto – que não sou do tempo dos aviões da Panair, como o Milton Nascimento. Mas ainda peguei os DC-8, Constellation e Avro (foi num deles que vim de Belo Horizonte para Brasília). Já era bem grandinho quando a Sadia virou Transbrasil – nos tempos do narigudíssimo comandante Omar Fontana, não nesses dias de arresto de aeronaves. Havia também a Cruzeiro, que se fundiu à Varig. A TAM sequer imaginava transformar-se na empresa área do tapete vermelho. Quando muito, transportava fazendeiros em Marília a bordo de monomotores. Tudo bem, é assim que se começa. Naqueles tempos, uma aura de romantismo ainda cercava a aviação. Os pilotos pareciam heróis audazes e todas as aeromoças se pareciam como a Kim Novak – ou, pelo menos, era essa a nossa esperança. Serviam refeições de verdade a bordo, mas pouco podíamos aproveitar porque os danados dos turbo-hélices balançavam muito mais que os jatos de hoje.

Tudo isso é uma nostalgia de dar rugas em múmia, mas, como sempre, o tema me veio à cabeça durante um papo de boteco (sempre a inspiração etílica, diriam, invejosos, os abstêmios). Andar de avião pela primeira vez é uma experiência libertadora. Sinto uma tremenda pena de quem tem medo… Voar é sensacional, mesmo espremido na poltrona do meio, entre o Faustão e a irmã dele. A verdade é que um ato durante séculos sonhado pelos homens se materializou graças ao gênio de um – sorry, periferia – mineiro de chapelão branco nos céus de Paris. Santos-Dumont mudou o mundo. Mudou nossas vidas. E a tecnologia e a modernidade que vieram depois trataram de esvaziar o que restava de romantismo e poesia nas viagens aéreas. Não se pode mais, sequer, acenar pela janelinha do avião. Quem vai ver? Raramente subimos a escadinha para, lá do alto, dar adeus à cidade e a sua gente. Agora é um tal de overbooking, code-share, boarding pass, e-ticket. O passageiro é embarcado como bagagem e as malas, essas coitadas, sofrem ainda mais. Nesse triste cenário, sinto saudades até dos corujões, célebres e abundantes nos anos 80. Eram vôos que saíam de madrugada e ofereciam tarifas com grandes descontos. Era divertido ver a galera acordar no meio da noite só para viajar mais barato. Era um festival de bocejos a bordo e ficávamos pensando se o comandante também tinha caído da cama, como nós…


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Naturalmente – dá para notar pela foto – que não sou do tempo dos aviões da Panair, como o Milton Nascimento. Mas ainda peguei os DC-8, Constellation e Avro (foi num deles que vim de Belo Horizonte para Brasília). Já era bem grandinho quando a Sadia virou Transbrasil – nos tempos do narigudíssimo comandante Omar Fontana, não nesses dias de arresto de aeronaves. Havia também a Cruzeiro, que se fundiu à Varig. A TAM sequer imaginava transformar-se na empresa área do tapete vermelho. Quando muito, transportava fazendeiros em Marília a bordo de monomotores. Tudo bem, é assim que se começa. Naqueles tempos, uma aura de romantismo ainda cercava a aviação. Os pilotos pareciam heróis audazes e todas as aeromoças se pareciam como a Kim Novak – ou, pelo menos, era essa a nossa esperança. Serviam refeições de verdade a bordo, mas pouco podíamos aproveitar porque os danados dos turbo-hélices balançavam muito mais que os jatos de hoje.

Tudo isso é uma nostalgia de dar rugas em múmia, mas, como sempre, o tema me veio à cabeça durante um papo de boteco (sempre a inspiração etílica, diriam, invejosos, os abstêmios). Andar de avião pela primeira vez é uma experiência libertadora. Sinto uma tremenda pena de quem tem medo… Voar é sensacional, mesmo espremido na poltrona do meio, entre o Faustão e a irmã dele. A verdade é que um ato durante séculos sonhado pelos homens se materializou graças ao gênio de um – sorry, periferia – mineiro de chapelão branco nos céus de Paris. Santos-Dumont mudou o mundo. Mudou nossas vidas. E a tecnologia e a modernidade que vieram depois trataram de esvaziar o que restava de romantismo e poesia nas viagens aéreas. Não se pode mais, sequer, acenar pela janelinha do avião. Quem vai ver? Raramente subimos a escadinha para, lá do alto, dar adeus à cidade e a sua gente. Agora é um tal de overbooking, code-share, boarding pass, e-ticket. O passageiro é embarcado como bagagem e as malas, essas coitadas, sofrem ainda mais. Nesse triste cenário, sinto saudades até dos corujões, célebres e abundantes nos anos 80. Eram vôos que saíam de madrugada e ofereciam tarifas com grandes descontos. Era divertido ver a galera acordar no meio da noite só para viajar mais barato. Era um festival de bocejos a bordo e ficávamos pensando se o comandante também tinha caído da cama, como nós…


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Sensacionais os novos filmes institucionais que a Rede Globo colocou no ar para comemorar seu aniversário. Retratam a vida de um menino e uma menina, da infância até o nascimento de seus próprios filhos, por meio das novelas e dos programas da emissora ao longo das quatro últimas décadas. Brilhante idéia. Deu enorme saudade dos tempos em que a TV brasileira era um orgulho para todos nós, pela qualidade de suas produções e pela maciça presença de programas com conteúdo educacional, cultural e histórico.

Noite dessas, comentando sobre isso em uma festa, fiquei parecendo louco fugido do hospício. Ninguém se lembrava do programa O Mundo em Guerra!

O ator Walmor Chagas era o apresentador da série documental sobre a 2ª Guerra Mundial, exibida semanalmente nos anos 70. Gravações por toda a Europa – Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Polônia, Rússia… –, cenas da época, entrevistas com sobreviventes… Verdadeira aula de história. Uma maravilha! No bom sentido, quero dizer, já que uma guerra nunca é exatamente uma maravilha.

O Mundo em Guerra foi um dos exemplos de como a TV Globo investia na qualidade. Tínhamos programação cultural e educativa em pleno horário nobre. Quem não se lembra dos espetaculares Casos Especiais? Uma vez por mês, às quartas-feiras, depois da novela das oito (que, pasmem, começava às 8h30, e não às 9h15, como hoje). Só craques escrevendo, dirigindo e atuando. Originais de autores contemporâneos como Oduvaldo Vianna Filho, Domingos de Oliveira, Dias Gomes, e de clássicos como Machado de Assis, Lima Barreto, José de Alencar… Teatro e literatura na casa dos telespectadores. As manhãs de domingo das famílias brasileiras, acreditem se quiser, tinham os memoráveis Concertos para a Juventude, que alternava exibições da Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a batuta de Isaac Karabitchevsky, com grandes momentos das maiores orquestras do mundo. Ali eu vi performances de Leonard Bernstein, Herbert von Karajan, Arthur Rubinstein e tantos outros. As crianças assistiam ao Sítio do Picapau Amarelo e à Vila Sésamo, adaptação do programa americano Sesame Street que enfatiza o processo de alfabetização infantil. Pensando bem, não sei se a Globo tem mesmo motivos para comemorar… Afinal, ela vendeu a alma para manter-se como campeã de audiência.


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Sylvio Guedes

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Sensacionais os novos filmes institucionais que a Rede Globo colocou no ar para comemorar seu aniversário. Retratam a vida de um menino e uma menina, da infância até o nascimento de seus próprios filhos, por meio das novelas e dos programas da emissora ao longo das quatro últimas décadas. Brilhante idéia. Deu enorme saudade dos tempos em que a TV brasileira era um orgulho para todos nós, pela qualidade de suas produções e pela maciça presença de programas com conteúdo educacional, cultural e histórico.

Noite dessas, comentando sobre isso em uma festa, fiquei parecendo louco fugido do hospício. Ninguém se lembrava do programa O Mundo em Guerra!

O ator Walmor Chagas era o apresentador da série documental sobre a 2ª Guerra Mundial, exibida semanalmente nos anos 70. Gravações por toda a Europa – Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Polônia, Rússia… –, cenas da época, entrevistas com sobreviventes… Verdadeira aula de história. Uma maravilha! No bom sentido, quero dizer, já que uma guerra nunca é exatamente uma maravilha.

O Mundo em Guerra foi um dos exemplos de como a TV Globo investia na qualidade. Tínhamos programação cultural e educativa em pleno horário nobre. Quem não se lembra dos espetaculares Casos Especiais? Uma vez por mês, às quartas-feiras, depois da novela das oito (que, pasmem, começava às 8h30, e não às 9h15, como hoje). Só craques escrevendo, dirigindo e atuando. Originais de autores contemporâneos como Oduvaldo Vianna Filho, Domingos de Oliveira, Dias Gomes, e de clássicos como Machado de Assis, Lima Barreto, José de Alencar… Teatro e literatura na casa dos telespectadores. As manhãs de domingo das famílias brasileiras, acreditem se quiser, tinham os memoráveis Concertos para a Juventude, que alternava exibições da Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a batuta de Isaac Karabitchevsky, com grandes momentos das maiores orquestras do mundo. Ali eu vi performances de Leonard Bernstein, Herbert von Karajan, Arthur Rubinstein e tantos outros. As crianças assistiam ao Sítio do Picapau Amarelo e à Vila Sésamo, adaptação do programa americano Sesame Street que enfatiza o processo de alfabetização infantil. Pensando bem, não sei se a Globo tem mesmo motivos para comemorar… Afinal, ela vendeu a alma para manter-se como campeã de audiência.


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Não é fácil ser filho. Eu sei o que é isso. E não é fácil ser pai. Estou descobrindo que do outro lado a barra também pesa. Ser filho é ter que corresponder às expectativas do pai. Ser pai é se controlar ao máximo para não transferir para o filho as nossas próprias frustrações. Pensava nisso esta semana, enquanto procurava meios de segurar a corujice durante as emocionantes olimpíadas realizadas no colégio de meus dois filhos mais novos. Quando eu era garoto, as façanhas atléticas nunca foram o meu forte. Nas peladas de futebol da quadra, tinha sempre um lugar garantido – no banco de reservas (que, no caso, era o meio-fio ou o capô de algum Fusca próximo ao local de jogo). Na escola, pelo menos, havia um contingente razoável de jogadores sem brilho, como eu, para formar um animado grupo na hora do recreio.

Nunca senti em meus pais a pressão pelos bons resultados esportivos. As notas eram bastante boas. O comportamento, quase o de um cordeirinho. Assim, salvo uma ou outra surra (provavelmente merecida), não havia muitos motivos para atrito.

É preciso muito cuidado e tato para equilibrar-se entre o estímulo (positivo) à competitividade e a histeria, que em alguns casos acomete os pais de modo irremediável. Já vi gente gritar para os filhos na beira da quadra de futsal ou de tênis como se o título mundial estivesse em jogo. Moleques, coitados, doidos apenas para se divertir e agradar aos pais. Dói ver meninos sentindo enorme frustração porque não conseguiram agradar aos pais. Tudo o que eles queriam era a sua aprovação. E não conseguiram. Vencer é só um acessório. Para tantas crianças, essencial é ser herói aos olhos dos pais, assim como, nós pais, queremos que os filhos nos adorem e nos amem. Nas olimpíadas dessa semana, poucos pais apareceram. Ocupados, eu sei. Sou também. Dei um jeito. Fui lá e investi umas poucas horas no fortalecimento de uma relação que forja caráter e define personalidade. Torci, tirei fotos, cumprimentei os coleguinhas, fiz comentários, até dei instruções pelo alambrado (o treinador não gostou muito). Levei reforço para a torcida (a mãe e a tia), só para o caso de um pai mais coruja resolver “engrossar” no time adversário. Foi moleza. Parecia ter voltado ao colégio, às peladas do Dom Bosco, ao primário… Aliás, ganhamos. Yes!!!


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Não é fácil ser filho. Eu sei o que é isso. E não é fácil ser pai. Estou descobrindo que do outro lado a barra também pesa. Ser filho é ter que corresponder às expectativas do pai. Ser pai é se controlar ao máximo para não transferir para o filho as nossas próprias frustrações. Pensava nisso esta semana, enquanto procurava meios de segurar a corujice durante as emocionantes olimpíadas realizadas no colégio de meus dois filhos mais novos. Quando eu era garoto, as façanhas atléticas nunca foram o meu forte. Nas peladas de futebol da quadra, tinha sempre um lugar garantido – no banco de reservas (que, no caso, era o meio-fio ou o capô de algum Fusca próximo ao local de jogo). Na escola, pelo menos, havia um contingente razoável de jogadores sem brilho, como eu, para formar um animado grupo na hora do recreio.

Nunca senti em meus pais a pressão pelos bons resultados esportivos. As notas eram bastante boas. O comportamento, quase o de um cordeirinho. Assim, salvo uma ou outra surra (provavelmente merecida), não havia muitos motivos para atrito.

É preciso muito cuidado e tato para equilibrar-se entre o estímulo (positivo) à competitividade e a histeria, que em alguns casos acomete os pais de modo irremediável. Já vi gente gritar para os filhos na beira da quadra de futsal ou de tênis como se o título mundial estivesse em jogo. Moleques, coitados, doidos apenas para se divertir e agradar aos pais. Dói ver meninos sentindo enorme frustração porque não conseguiram agradar aos pais. Tudo o que eles queriam era a sua aprovação. E não conseguiram. Vencer é só um acessório. Para tantas crianças, essencial é ser herói aos olhos dos pais, assim como, nós pais, queremos que os filhos nos adorem e nos amem. Nas olimpíadas dessa semana, poucos pais apareceram. Ocupados, eu sei. Sou também. Dei um jeito. Fui lá e investi umas poucas horas no fortalecimento de uma relação que forja caráter e define personalidade. Torci, tirei fotos, cumprimentei os coleguinhas, fiz comentários, até dei instruções pelo alambrado (o treinador não gostou muito). Levei reforço para a torcida (a mãe e a tia), só para o caso de um pai mais coruja resolver “engrossar” no time adversário. Foi moleza. Parecia ter voltado ao colégio, às peladas do Dom Bosco, ao primário… Aliás, ganhamos. Yes!!!


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Já foi o tempo em que se entrava em um restaurante e olhava-se todo o ambiente, para ver se havia um pianista empenhado em executar clássicos populares ou eruditos, enquanto as pessoas saboreavam uma agradável refeição. Havia uma certa reverência no gesto, respeito ao talento do artista em plena manifestação. No extremo oposto, figuram as churrascarias-rodízio, em que o burburinho dos garçons e o entra-e-sai dos clientes transforma o músico da casa em um verdadeiro autista.

Hoje em dia, as músicas que mais ouvimos os restaurantes são as dos telefones celulares. Há uma competição deveras vexatória entre os usuários das engenhocas pelo troféu de Histriônico do Ano, ou de Exibicionista da Década. Até um dileto amigo, mesmo com minha sólida formação moral e a educação nos melhores colégios europeus (por correspondência, é bem verdade…), até ele deixou-se envolver nesta tresloucada aventura de constranger os demais humanos com temas musicais de gosto altamente duvidoso. E por isso viveu uma experiência eletrizante.

Certa noite, J. (melhor mantê-lo no anonimato) jantava em ambiente refinado – daqueles em que o prato principal é do tamanho da entrada e a conta é maior que o contracheque. A certa altura, recebeu uma chamada em seu celular e o tema de James Bond, o notório e notável agente britânico 007, ecoou no restaurante.

J. pôde notar, com uma ponta de soberba, o olhar surpreso de alguns clientes. Um senhor que degustava vinho torceu o nariz, não sei se para a música ou para a bebida. Mas o cavalheiro tinha um tique nervoso, torcia o nariz para tudo, até para a incrível louraça que dividia a mesa com ele. Esta sim, parecia valorizar a sua criatividade, e abriu um generoso sorriso para a canção de agente secreto. Não tão generoso quanto o decote (aliás, J. não soube definir se era um vestido com decote ou um decote com vestido…)

A musiquinha quebrou o gelo e, enquanto o distinto trocava impressões sobre a safra de vinhos com o sommelier da casa, sua amiga trocava olhares nada distintos com meu amigo!

O clima estava ficando tremendamente amigável, ainda que platônico, quando, repentinamente, um outro telefone tocou no restaurante. Eram os acordes do clássico dos anos 70 da TV Havaí 5-0. Sem tirar os olhos penetrantes de J., a belíssima moça sacou da bolsa um celular, tirou o brinco da orelha e atendeu a chamada.

Foi paixão à primeira vista. Hoje, os dois visitam juntos as barracas dos camelôs no Setor Comercial Sul, em busca de novos sons e músicas para seus celulares.


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Já foi o tempo em que se entrava em um restaurante e olhava-se todo o ambiente, para ver se havia um pianista empenhado em executar clássicos populares ou eruditos, enquanto as pessoas saboreavam uma agradável refeição. Havia uma certa reverência no gesto, respeito ao talento do artista em plena manifestação. No extremo oposto, figuram as churrascarias-rodízio, em que o burburinho dos garçons e o entra-e-sai dos clientes transforma o músico da casa em um verdadeiro autista.

Hoje em dia, as músicas que mais ouvimos os restaurantes são as dos telefones celulares. Há uma competição deveras vexatória entre os usuários das engenhocas pelo troféu de Histriônico do Ano, ou de Exibicionista da Década. Até um dileto amigo, mesmo com minha sólida formação moral e a educação nos melhores colégios europeus (por correspondência, é bem verdade…), até ele deixou-se envolver nesta tresloucada aventura de constranger os demais humanos com temas musicais de gosto altamente duvidoso. E por isso viveu uma experiência eletrizante.

Certa noite, J. (melhor mantê-lo no anonimato) jantava em ambiente refinado – daqueles em que o prato principal é do tamanho da entrada e a conta é maior que o contracheque. A certa altura, recebeu uma chamada em seu celular e o tema de James Bond, o notório e notável agente britânico 007, ecoou no restaurante.

J. pôde notar, com uma ponta de soberba, o olhar surpreso de alguns clientes. Um senhor que degustava vinho torceu o nariz, não sei se para a música ou para a bebida. Mas o cavalheiro tinha um tique nervoso, torcia o nariz para tudo, até para a incrível louraça que dividia a mesa com ele. Esta sim, parecia valorizar a sua criatividade, e abriu um generoso sorriso para a canção de agente secreto. Não tão generoso quanto o decote (aliás, J. não soube definir se era um vestido com decote ou um decote com vestido…)

A musiquinha quebrou o gelo e, enquanto o distinto trocava impressões sobre a safra de vinhos com o sommelier da casa, sua amiga trocava olhares nada distintos com meu amigo!

O clima estava ficando tremendamente amigável, ainda que platônico, quando, repentinamente, um outro telefone tocou no restaurante. Eram os acordes do clássico dos anos 70 da TV Havaí 5-0. Sem tirar os olhos penetrantes de J., a belíssima moça sacou da bolsa um celular, tirou o brinco da orelha e atendeu a chamada.

Foi paixão à primeira vista. Hoje, os dois visitam juntos as barracas dos camelôs no Setor Comercial Sul, em busca de novos sons e músicas para seus celulares.


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Resolvi que minhas (poucas) preciosidades em vinil não merecem ir parar em um balcão qualquer de sebo, por mais rico que eu possa ficar com essa negociação. Nada contra me desfazer de clássicos como a trilha sonora de Cavalo de Aço ou a primeira versão dos sucessos da Boate Hippopotamus, dois musts da década de 1970. Afinal, tocaram tanto nas antigas vitrolas que só servem mesmo para algum tarado guardar. Como me faltam tanto o espaço disponível quanto a loucura, decidi que só mesmo as raridades me acompanharão em direção à quinta década de existência.

Há um tempo andei tão saudoso da era do vinil que comprei uma picape (não um jipe, mas um toca-discos). Ouvi alguns LPs chiados, outros nem tanto, deleitei-me com as capas e o formato bem mais agradável do que os modernos CDs mas, ao fim e ao cabo, deixei-me vencer pela tecnologia. Tanto é verdade que, graças à engenhosidade e à boa vontade de um dos mais competentes corsários vivos, que por acaso é meu amigo, estou vertendo para as trilhas digitais do terceiro milênio esses meus tesouros da adolescência e juventude.

Os primeiros vinis a ganharem versão em CD, com toda a tecnologia anti-ruído e de remasterização doméstica, foram os do John Lennon. A cópia de Imagine, com a cabeça do velho John tomada pela fumaça (por fora e por dentro, registre-se), ficou ótima. Revisitando o melhor trabalho solo do ex-beatle, extraí uma não inédita mas forte lição de vida. O ódio e o ressentimento são sempre, lamentavelmente, muito mais fortes que a amizade e o amor.

Lennon escreveu uma faixa (How do You Sleep? ) só para sacanear Paul McCartney, seu ex-parceiro musical, ex-maior amigo, ex-companheiro de embalos e viagens. Barra pesadíssima. John dá o recado: “Um rostinho bonito pode durar um ano ou dois, mas muito em breve eles verão do que você é capaz”. Muita gente diz que esta música acabou inviabilizando para sempre as pazes entre os dois gênios musicais. Vai se saber…

O que importa é que essas pequenas maravilhas não vão se perder no tempo, graças à tecnologia. Tenho mais sorte que Beethoven ou Mozart. Fico sempre imaginando como deveriam se sentir os compositores clássicos, que escreviam primorosas sinfonias mas precisavam esperar meses de ensaios da orquestra antes de ouvi-las em um espaço fora de seus próprios cérebros geniais. Aquela interpretação era sempre única, jamais se repetiria. Acabava junto com os últimos aplausos.


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Resolvi que minhas (poucas) preciosidades em vinil não merecem ir parar em um balcão qualquer de sebo, por mais rico que eu possa ficar com essa negociação. Nada contra me desfazer de clássicos como a trilha sonora de Cavalo de Aço ou a primeira versão dos sucessos da Boate Hippopotamus, dois musts da década de 1970. Afinal, tocaram tanto nas antigas vitrolas que só servem mesmo para algum tarado guardar. Como me faltam tanto o espaço disponível quanto a loucura, decidi que só mesmo as raridades me acompanharão em direção à quinta década de existência.

Há um tempo andei tão saudoso da era do vinil que comprei uma picape (não um jipe, mas um toca-discos). Ouvi alguns LPs chiados, outros nem tanto, deleitei-me com as capas e o formato bem mais agradável do que os modernos CDs mas, ao fim e ao cabo, deixei-me vencer pela tecnologia. Tanto é verdade que, graças à engenhosidade e à boa vontade de um dos mais competentes corsários vivos, que por acaso é meu amigo, estou vertendo para as trilhas digitais do terceiro milênio esses meus tesouros da adolescência e juventude.

Os primeiros vinis a ganharem versão em CD, com toda a tecnologia anti-ruído e de remasterização doméstica, foram os do John Lennon. A cópia de Imagine, com a cabeça do velho John tomada pela fumaça (por fora e por dentro, registre-se), ficou ótima. Revisitando o melhor trabalho solo do ex-beatle, extraí uma não inédita mas forte lição de vida. O ódio e o ressentimento são sempre, lamentavelmente, muito mais fortes que a amizade e o amor.

Lennon escreveu uma faixa (How do You Sleep? ) só para sacanear Paul McCartney, seu ex-parceiro musical, ex-maior amigo, ex-companheiro de embalos e viagens. Barra pesadíssima. John dá o recado: “Um rostinho bonito pode durar um ano ou dois, mas muito em breve eles verão do que você é capaz”. Muita gente diz que esta música acabou inviabilizando para sempre as pazes entre os dois gênios musicais. Vai se saber…

O que importa é que essas pequenas maravilhas não vão se perder no tempo, graças à tecnologia. Tenho mais sorte que Beethoven ou Mozart. Fico sempre imaginando como deveriam se sentir os compositores clássicos, que escreviam primorosas sinfonias mas precisavam esperar meses de ensaios da orquestra antes de ouvi-las em um espaço fora de seus próprios cérebros geniais. Aquela interpretação era sempre única, jamais se repetiria. Acabava junto com os últimos aplausos.


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