Com apenas 21 anos, a francesa Lolita Pille conheceu, há dois anos, aquilo que pode ser chamado de sucesso editorial absoluto. Na época, lançou seu primeiro romance, Hell. Vendeu como água Evian na França e, logo depois, já estava nas prateleiras das livrarias de todo o mundo.
Até aí, nenhuma novidade, dentro de um mercado editorial que prima por rostos bonitos (Lolita é uma típica parisiense, magra, extremamente sexy – veja foto ao lado – com uma conta bancária rechonchuda), mas não necessariamente, por textos concisos.
A glória dela talvez esteja no fato de conseguir concisão em um contexto extremamente fútil. Escreveu em seu Hell, o que muitos jovens franceses e porque não, também os moradores das grandes cidades do resto do mundo, vivenciam todos os dias, mas não têm coragem de contar. Ela teve coragem e por isso, inclusive, foi intensamente criticada. Depois que seu livro foi publicado ela chegou a ser mal-vista em alguns lugares (leia-se restaurantes e cafés chiques que costumava freqüentar) e alguns de seus amigos, se viram retratados na obra e cortaram relações com a moça, que faz questão de não incluir na contra-capa do livro aqueles dizeres que eximem os escritores da culpa e do martírio social, “esta obra é inspirada em fatos reais”. Hell é o relato de fatos reais e Lolita deixa isso bem claro.
Lançado no Brasil em dezembro último, o livro ganhou o subtítulo Paris-75016, que representa o código postal do 16ème, bairro mais elegante de Paris, onde vive Hell. A personagem título é, na verdade, o alter-ego da jovem autora, bem de vida, tão jovem quanto pródiga, também fútil e viciada em drogas.
Não pense, portanto, que o livro é de fácil digestão. Narrado em primeira pessoa, ela divide seu mundo cínico e sem modéstia, em dois, o dela e seus amigos ricos, e o do leitor, que provavelmente não tem um terço da cifra presente no extrato mensal da conta bancária da autora.
O cotidiano é aquele das butiques caras como Dior, Hermès, Prada, Gucci ou Colette, os bares e restaurantes da moda, os hotéis cinco-estrelas da capital francesa, onde se vai beber champagne rosé com as amigas, mas não sem antes, estacionar seus mais novos modelos de Ferrari, BMW ou Bentley.
autodefiniçãoEm seu site oficial, Lolita descreve, em poucas palavras, como se define: “Em 1999, tem sua primeira relação sexual e em 2000, cheira cocaína pela primeira vez”. Apaixonada tanto por escritores da geração beat, como Jack Kerouac, Charles Bukowski, William Burroughs, quanto pelos clássicos Balzac, Ernest Hemingway, Marcel Proust, ela garante que seu livro preferido é Tempo Perdido, de Proust. “Está aí, outro clichê”. E como outros jovens de sua idade, Lolita gosta de ouvir Radiohead, Leonard Cohen, Lou Reed e White Stripes.
Para Lolita, seu alter-ego é, na maioria das vezes, assim como ela. “Hell, vai a fundo nas situações. Como ela, sou um pouco maníaca, louca, arrogante, esnobe. O aborto de Hell me aconteceu, assim como o descrito. Sua mãe a deixa em uma clínica, vai trabalhar e Hell pensa que sua vida não é nada, quando se depara diante de uma loja Baby Dior na Avenida Montaigne. As orgias também aconteceram, como aquela em um quarto do luxuoso Hotel Ritz (um dos mais caros do mundo). Mas eu nunca tive, por exemplo, um amigo que tenha morrido em um acidente de carro, por exemplo”, pondera.
E quando perguntada o porquê de escrever sobre tudo isso, ela é categórica. “Porque minha geração está perdida. A juventude rica é um problema. Tem-se tudo o que quer muito rápido”.
Se alguma coisa mudou nela, depois da publicação e do grande sucesso do livro? Na opinião de Lolita, o livro abriu seus olhos sobre o que ela faz de sua vida. “Encontrei pessoas interessantes, freqüento outros lugares, hoje. Por exemplo, parei de ir a boates. É uma atividade na qual você paga e não recebe nada em troca”, reflete a moça, que atualmente está escrevendo o roteiro para adaptação de Hell para o cinema, que deve ser dirigido por Bruno Chiche.
Ela acaba de terminar seu segundo romance, que leva o título provisório de Bubblegum. Conta a história de uma jovem que vive no interior mas que se muda para Paris em busca de sucesso. “Algo normal nesse contexto de programas de TV como o Big Brother, mas no fundo é chocante e deplorável”, diz.