Anões, ratos, formigas e saxofones. São esses alguns dos personagens que contracenam com homens e mulheres nas histórias que compõem o livro Antologia – Meus Contos Preferidos, de Lygia Fagundes Telles. Tendo construído uma carreira amplamente premiada e com obras traduzidas para as principais línguas, a escritora paulistana – também conhecida como “a primeira-dama da literatura brasileira” – lança uma coletânea organizada por ela própria, reunindo 31 de seus contos mais queridos e levando os leitores a uma viagem por meio de seu vasto universo literário.
Os contos presentes no livro exibem o dom de Lygia para elaborar ricos personagens e criar narrativas detalhadas em textos fluidos que prendem a atenção de qualquer tipo de leitor. Do inexperiente (é imenso o número de pessoas que declaram ter começado a pegar gosto pela leitura devido aos seus escritos) ao erudito (a cada ano são elaboradas inúmeras teses acadêmicas acerca dos trabalhos da autora), ninguém consegue se manter imune ao poder das palavras de Lygia Fagundes Telles.
Formigas Tal fascínio pode ser entendido logo a partir das primeiras páginas de Antologia, em As Formigas. Em uma climática narrativa que traz à tona sua admiração por Edgard Allan Poe, Lygia conta a história de duas universitárias que se mudam para uma pensão barata. Alugam um quarto anteriormente ocupado por um estudante de medicina e encontram um baú com a ossada completa de um anão.
Durante madrugadas consecutivas, dão de cara com milhares de formigas que, misteriosamente, desaparecem pela manhã. Mais tarde, notam que os ossos do anão estão, aos poucos, sendo montados. O que ocorre quando o esqueleto é reconstituído por completo? Não se sabe. Antes que isso aconteça, as duas amigas fazem as malas e partem em disparada.
Para a autora, os fins não importam; são os meios que realmente interessam. Os contos são marcados pelo mistério, porém tal mistério não tem nenhum parentesco com as charadas de Arthur Conan Doyle ou de Agatha Christie.
O que aconteceu com o pai moribundo de Antes do Baile Verde? Qual teria sido o real motivo da morte do tio em O Jardim Secreto? Estariam corretas as previsões de Tomás em As Pérolas? Tudo fica em aberto. Há um tom sobrenatural permeando boa parte das histórias (A Caçada, Seminário dos Ratos, O Encontro), mas Lygia mostra que todos esses pavores e estranhezas nascem dentro da própria mente humana.
Mistérios Os mistérios de Lygia Fagundes Telles são os mistérios da vida, com suas questões que nem sempre podem ser esclarecidas, e o sobrenatural é o caminho que a escritora trilha para chegar à realidade. Assim como Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles narra a condição humana com maestria e rara sutileza. Dois dos temas recorrentes na prosa de Lygia são a morte e a nostalgia.
Em uma de suas maiores obras-primas, Venha Ver o Pôr-do-Sol”, totalmente ambientada em um cemitério abandonado, um rapaz rejeitado condena sua ex-namorada à solidão eterna. Em outros contos, como Verde Lagarto Amarelo, As Cerejas”, Natal na Barca, A Estrutura da Bolha de Sabão, Anão de Jardim e Uma Branca Sombra Pálida, o trinômio morte/nostalgia/solidão volta a ocupar o centro da ação.
Mesmo que os contos – escritos entre as décadas de 1960 e 1990 – não sigam no livro nenhuma ordem em relação às datas em que foram produzidos, as histórias parecem estar unidas por uma forte corrente e seguem coesas em uma intensa afinidade até a última página.