O universo de fantasia está de volta com A Pedra do Reino, minissérie de cinco capítulos que a Globo estréia hoje, após o Casseta & Planeta Urgente!. Com um time de atores ainda desconhecido do grande público, a produção tem como objetivo revelar novos talentos que atuam fora do eixo Rio-São Paulo, bem como homenagear o autor Ariano Suassuna, que completa 80 anos no sábado.
Segundo ele, nessas oito décadas de existência, sobra orgulho ao ser considerado um dos principais defensores da cultura nacional. “Sempre quis mesmo essa posição. Sempre achei que como escritor e professor eu devia defender a cultura brasileira. Tomei essa decisão aos 20 anos. E continuo pensando desse jeito”, falou.
Suassuna, no lançamento da microssérie, aproveitou para elogiar as iniciativas do diretor, Luiz Fernando Carvalho (Hoje É Dia de Maria). “Não podia esperar coisa melhor. O que o Luiz fez foi uma releitura da obra. E tinha que ser assim. É a transposição de uma arte para a outra. Ele procurou ser fiel ao espírito mágico e poético do romance”.
Filmada em três meses na pequena cidade de Taperoá, no sertão da Paraíba, A Pedra do Reino tem Pedro Diniz Quaderna como condutor da história. Ele se apresenta como um velho palhaço que percorre as estradas sertanejas e descreve suas memórias como em um espetáculo popular de rua. “Quaderna é um personagem que tenta resgatar as lembranças de sua vida”, afirma o ator pernambucano Irandhir Santos, que estréia na TV na pele do protagonista.
Nascido na cidade de Barreiros (PE), Santos tem experiência em teatro de rua e está ansioso para ver o resultado das filmagens. “Eu, assim como os demais integrantes, não vemos a hora de assistir ao resultado’, diz o ator que carrega em seu currículo prêmio de melhor ator coadjuvante do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado, por seu papel em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis.
Os outros 50 atores que participam da história também são moradores de cidades nordestinas. Em Taperoá, foi montada uma cidade cenográfica de dois mil metros quadrados. Todos os adereços utilizados nas filmagens foram produzidos por artesãos locais. “Tivemos a colaboração de artistas plásticos, bordadeiras, costureiras e marceneiros”, conta Carvalho. A cidade foi o cenário onde Suassuna passou parte de sua infância.
Assim como está descrito no livro homônimo publicado pelo escritor em 1971, A Pedra do Reino fala sobre os estranhos acontecimentos que surgem na família de Quaderna: a misteriosa morte de seu padrinho Dom Pedro Sebastião (Pedro Henrique Dias) e os sangrentos rituais promovidos por seu bisavô, Dom João Ferreira Quaderna, perante à própria Pedra do Reino. O local citado no livro não é fruto da imaginação de Suassuna. Ele fica no município de São José do Belmonte, também em Pernambuco. “São duas formações rochosas gigantescas e pontudas perdidas na caatinga’, descreve Carvalho.
A história tem início com a Morte Caetana, uma onça alada que sobrevoa o sertão por onde passa a trupe de pesquisa em grupos de teatro da cidade. Ainda criança, Quaderna contracena com o cantador João Melchíades (Abdia Campos), que surge como o primeiro mentor intelectual do personagem. Apesar da pouca idade, Felipe já apresenta desenvoltura para falar sobre movimentação do corpo para a interpretação. “Agora terei mais experiência para me apresentar nas peças do meu grupo’, completa Felipe.
Encontrar a sintonia entre os atores foi um dos obstáculos enfrentados por Carvalho na hora de montar o elenco. Para promover maior integração entre eles, as oficinas de preparo contaram com palestras de Fernanda Montenegro e do próprio Ariano Suassuna, que discursou sobre as principais características da obra. O resultado parece ter dado certo. “Ele fez com que todos se sentissem membros de uma mesma história. É incrível como ele teve o poder de fazer todos abraçarem a mesma causa com o mesmo entusiasmo’, descreve o ator Flávio Rocha, que interpreta o repentista Lino Pedra-Verde.
O desafio do diretor se desdobra nas próximas empreitadas previstas pelo projeto Quadrante, que pretende retratar três outros títulos da literatura brasileira no formato de microssérie: Dom Casmurro, de Machado de Assis (situada no Rio); Dançar Tango em Porto Alegre, de Sérgio Faraco (RS) e Dois Irmãos, de Miltom Hatoum (AM). “Estou propondo, por meio da transposição de textos literários, uma pequena reflexão sobre nosso País’, justifica Carvalho.