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Política & Poder

Um país, um vírus, duas orientações, dois governos…

Na contramão do planeta, onde mais de 3 bilhões de pessoas estão confinadas, Bolsonaro contraria seu ministro da Saúde

Rudolfo Lago

Publicado

em

Isac Nobrega/ PR
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Em meio à crise, dois governos

Ministro e equipe técnica da Saúde propõem uma estratégia, e Bolsonaro insiste em outra

A constatação é de um integrante da cúpula de um ministério. O Brasil tem hoje dois governos. “Um são. Outro, não”, resume. O tamanho da divisão entre a equipe técnica do Ministério da Saúde e o presidente Jair Bolsonaro e seu grupo ideológico mais próximo ficou evidente neste fim de semana, depois que ele contrariou as determinações do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e saiu às ruas para visitar padarias e outros estabelecimentos comerciais que se encontram em funcionamento. Ao final da visita, Bolsonaro chegou a dizer que cogita editar um decreto liberando as pessoas para o trabalho.

A visita de Bolsonaro aconteceu um dia depois de uma tensa reunião, na qual Mandetta foi duro com o presidente e lhe disse que não estaria disposto a flexibilizar as medidas de confinamento às quais a população está submetida para combater a disseminação do novo coronavírus.

“Estamos prontos para o pior cenário, com caminhões levando corpos pelas ruas?”, perguntou Mandetta ao presidente na reunião. O ministro explicou ao presidente que, por conta das medidas de restrição, a contaminação evolui de forma bem menos rápida. Sem restrição, uma pessoa infectada hoje contaminaria outras seis pessoas, ou mais. Com a restrição, essa taxa caiu para duas pessoas, ou menos.

Duro, Mandetta chegou a dizer ao presidente que, tecnicamente, poderia mesmo vir a contradizê-lo caso sentisse necessidade. Bolsonaro respondeu que, em um caso desses, iria demití-lo.
Após a reunião, Mandetta deu uma coletiva na qual reiterou a necessidade de confinamento para evitar a disseminação da doença. Em muitos momentos, a entrevista parecia uma resposta direta ao presidente.

Mais uma vez, nas ruas

Na contramão de todas as determinações de Mandetta, na manhã de domingo Bolsonaro saiu às ruas e conclamou as pessoas a voltarem ao trabalho. Disse que estava com vontade de fazer um decreto para liberar todas as atividades.

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“Eu estou com vontade, não sei se eu vou fazer, de baixar um decreto amanhã [hoje]: toda e qualquer profissão legalmente existente ou aquela que é voltada para a informalidade, se for necessária para levar o sustento para os seus filhos, para levar leite para seus filhos, para levar arroz e feijão para casa, vai poder trabalhar”, afirmou. Questionado se o texto já estava em estudo, Bolsonaro afirmou que havia acabado de pensar nessa ideia, enquanto falava com jornalistas na porta do Palácio da Alvorada.

Ele justificou sua ida a pontos de comércio local, como em Taguatinga e Ceilândia, cidades satélites da capital federal, como uma forma de “ouvir o povo” sobre os problemas do Brasil. “Se eu não ouvir o cara falar que está na banana, como é que eu vou me sentir para poder agir?”, disse.

Militares preocupados

A divisão interna em torno de como o país deve se comportar para conter o avanço do novo coronavírus não envolve somente o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Os posicionamentos do presidente estão preocupando também a cúpula militar.

E o sinal externo mais evidente disso vem do vice-presidente Hamilton Mourão, que tem externado posições bem diferentes das do presidente, defendendo o confinamento.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Mourão defendeu a necessidade do chamado confinamento social, em contraponto à ideia de confinamento vertical — na qual ficariam isolados somente idosos e os que pertencem a grupos de disco. E voltou a atribuir a confusão ao estilo de Bolsonaro.

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O problema dessa divisão está na forma como reagirão os militares se forem acionados. Chamou a atenção de oficiais-generais o presidente ter falado de anormalidade democrática em decorrência da crise.

Em entrevista na frente do Palácio da Alvorada, citou os protestos que aconteceram no ano passado no Chile como possível consequência da paralisão da economia provocada pela quarentena imposta pelo novo coronavírus.

Na ocasião dos protestos no Chile, Bolsonaro disse que convocaria as Forças Armadas caso algo semelhante acontecesse no Brasil. A possibilidade para isso poderia vir dos preceitos constitucionais que autorizam a Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Caso houvesse perturbação da ordem pública, os militares poderiam ser acionados.

O problema, porém, para integrantes da cúpula militar, é a falta de unidade de discurso, que acabaria tornando confusa qualquer ação militar em um caso desses.

As posições de Bolsonaro não têm unidade sequer dentro do próprio governo federal. E estão na contramão das posições da grande maioria dos governadores, que teriam de concordar com o uso das forças para a garantia da lei e da ordem. Sem unidade, tudo isso fica impossível.

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Saiba Mais 

A decisão de Bolsonaro de fazer um passeio pelo Hospital das Forças Armadas e comércios do DF foi tomada depois de ele ficar irritado com repercussão de notícias de que seus ministros estavam fazendo pressão para que ele amenize o tom sobre o novo coronavírus e siga as orientações do Ministério da Saúde.

O presidente ficou incomodado ao ler que estava sendo “enquadrado” por seus subordinados.
“‘Ah, você viu o que o governador falou? O que o vice falou?’ Não me interessa”, disse Bolsonaro, indicando que deve seguir destoando de outras autoridades, como os governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e seu vice, Hamilton Mourão.


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