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Bebbiano: Bolsonaro arrisca “suicídio político”

Em entrevista exclusiva ao JBr., ex-ministro diz que presidente não transmite a serenidade necessária para o cargo, afasta-se de aliados por conta de intrigas e perde apoio

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Rudolfo Lago
rudolfo.lago@grupojbr.com

Gustavo Bebbiano foi o coordenador da vitoriosa campanha que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República. Seu trabalho levou-o à Secretaria Geral da Presidência. Na esteira de denúncias sobre candidaturas-laranja no PSL, acabou demitido. Mas a total ausência de outras consequências demonstrou uma causa pessoal, que nada tinha a ver com a denúncia.

Bebbiano foi tragado pela fogueira das intrigas internas do governo. Fogueira que parece ter grande relação com a vertiginosa queda na popularidade de Bolsonaro, registrada esta semana pelo Instituto Datafolha.

Para analisar os números que apontam para a queda, o Jornal de Brasília ouviu Bebbiano. Para ele, Bolsonaro comporta-se como um piloto de avião tresloucado. Se não mudar seus métodos, alerta ele, o presidente acabará cometendo um “suicídio político”.

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A recente pesquisa Datafolha reforça impressões colhidas em outros levantamentos recentes de queda rápida e muito brusca na popularidade do presidente. O senhor foi o coordenador da campanha vitoriosa que levou Jair Bolsonaro à Presidência. Na sua avaliação, que fatores explicam essa queda tão rápida?

Na minha avaliação, o presidente erra ao estabelecer a estratégia do confronto, do conflito constante. Campanha é uma coisa, governar é outra. Governar exige respeito à liturgia do cargo; exige moderação, sobriedade. Nenhum filho confia e respeita um pai muito estridente, brigão, inconsequente. A liderança exige a combinação de calma, sobriedade e firmeza. Agressividade e gritaria transmitem desconforto e insegurança. Acho que é isso o que boa parte da população está vendo e sentindo. Pelo pouco tempo de governo, a lua de mel ainda era para estar vigente. Infelizmente, parece que o presidente gosta de produzir material contra si próprio.

Em que pontos o senhor considera que o governo Bolsonaro mais tem se afastado das expectativas daqueles eleitores que votaram nele e que agora, conforme a pesquisa, indicam insatisfação?

Acho que, antes de tudo, falta calma, serenidade, autoconfiança ao presidente. Imagine-se fazendo uma viagem de avião. Digamos que surjam problemas. Você preferiria estar nas mãos de um comandante sereno, experiente, que mostrasse tranquilidade e firmeza nas ações, ou nas mãos de um piloto que começasse a xingar, gritar, chorar?

O presidente tem demonstrado um nível de instabilidade incompatível com a sua função. Isso causa perplexidade e insegurança à população.

A maior parte do eleitorado que o elegeu não é composta por pessoas que portam estandartes ideológicos. O grosso do eleitorado que o elegeu simplesmente não queria mais o PT. Foram votos com reservas. Essas pessoas votaram no Jair, com muitas ressalvas e desconfiança. É para essas pessoas que ele deveria dar demonstrações de preparo para o cargo.

A pesquisa demonstra talvez ainda alguma sustentação no combate à corrupção e na segurança pública. Mas o presidente hesita em vetar a Lei de Abuso de Autoridade…

Talvez seja nesse ponto – das hesitações no combate à corrupção – que o governo perca mais apoio junto ao eleitorado mais ideológico, digamos assim, mais próximo e leal ao presidente. Há com relação a esse grupo o surgimento de algumas dúvidas. Dúvidas que envolvem o combate à corrupção. Esse capítulo do Flávio Bolsonaro tem sido bastante ruim.

O senhor se refere, além da hesitação quanto à Lei de Abuso de Autoridade, aos problemas com a Polícia Federal e na escolha do substituto de Raquel Dodge na Procuradoria Geral da República?

O presidente não pode tentar controlar os órgãos de investigação, tampouco aparelhar instituições que precisam de independência. Se ele insistir nisso, cometerá suicídio político. O Brasil não aceitará esse tipo de postura.

E quanto à semelhança de alguns posicionamentos com o discurso que antes fazia o PT com relação às denúncias?

Em muitas oportunidades, o presidente tem mostrado um perfil bastante parecido com o do ex-presidente Lula. Digo isso à medida em que ele tem se vitimizado sobremaneira. Não aceita qualquer tipo de crítica e sempre se coloca na posição de perseguido. Tanto não é perseguido que foi eleito e está aí, exercendo o seu cargo. O Brasil tem muitos problemas, problemas difíceis, mas está funcionando. As instituições estão funcionando e isso precisa ser valorizado.

Esse tipo de discurso é ruim e não produz nada de bom. O presidente precisa reduzir esse mimimi e trabalhar, honrando os votos que recebeu.

A presença massiva dos filhos na administração – algo do qual o senhor foi vítima – segue sendo um grande problema?

Certamente, o excesso de participação dos filhos do presidente nas questões do palácio acaba atrapalhando, e muito. Todo o entorno do presidente pensa dessa forma e há muitas reclamações internas, entre as pessoas. Mas, infelizmente, ninguém tem a coragem de falar a verdade abertamente. Se os filhos do presidente fossem maduros, preparados e serenos, poderiam até ajudar vez por outra. A questão é que os mais novos não têm muita noção das coisas e induzem o pai a muitos equívocos desnecessários. O grau de fofocas é fora do comum.

O presidente erra quando compra brigas internacionais como fez agora com a França?

Não há dúvidas de que o presidente erra, e feio, ao provocar e alimentar brigas internacionais. Esse tipo de coisa custará bastante caro aos brasileiros. O presidente tem a tendência de levar tudo para o lado pessoal e achar que há teorias de conspiração contra ele. Esse tipo de egocentrismo é péssimo e compromete os verdadeiros interesses do país. Os líderes europeus não são a deputada Maria do Rosário. O presidente não pode criar animosidades pessoais e colocá-las acima dos interesses nacionais. O presidente precisa compreender a diferença entre assuntos de Estado, de governo e de cunho pessoal. O Brasil depende da sua boa imagem para manter boas relações comerciais com o mundo.

Auxiliares militares na cúpula do governo ou foram afastados ou se recolheram recentemente. Que falta fazem, na sua avaliação, nomes como os generais Santos Cruz, que saiu, e os generais Augusto Heleno, Hamilton Mourão e Otávio Rego Barros, que estão recolhidos?

Sempre disse que o núcleo militar era o que havia de melhor nesse governo, tendo em vista o seu elevado preparo, patriotismo e seriedade. Infelizmente, por conta de absurdas e covardes teorias de conspiração, o presidente se permitiu envenenar.

A queda de qualquer líder começa quando ele se torna incapaz de distinguir quem está ao seu lado de verdade, e quem está ali apenas para obter vantagens pessoais.

O primeiro grupo não costuma digerir bem injustiças. Infelizmente, o presidente conseguiu quebrar os vínculos de confiança com esse grupo e está sozinho.

Hoje, não há quem avise ao rei que ele está ficando nu. É uma pena! Se o presidente ouvisse quem realmente lhe quer bem, teria tudo para se tornar um grande estadista.


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