O tratamento do câncer de mama pode trazer desafios que começam à mesa: dor ao mastigar, dificuldade para beber líquidos e mudanças no sabor dos alimentos. Associados a algumas terapias, esses efeitos na boca podem comprometer a alimentação, a hidratação e a qualidade de vida. Neste Outubro Rosa, o acompanhamento odontológico amplia a discussão sobre o cuidado integral às mulheres que enfrentam a doença.
Os sintomas não atingem todas as pacientes e variam conforme os medicamentos, as doses e as condições de saúde de cada mulher. Identificar problemas bucais antes do tratamento e acompanhar possíveis alterações ao longo da terapia permite planejar cuidados de acordo com as necessidades de cada caso.
A dimensão desse cuidado acompanha os números da doença. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama feminina por ano no Brasil, no triênio de 2026 a 2028. No Distrito Federal, são previstos 1.410 casos em 2026. Excluídos os tumores de pele não melanoma, esse é o câncer mais incidente entre as mulheres no país.
“Quando a boca dói, a paciente pode ter dificuldade para se alimentar e beber líquidos. O acompanhamento odontológico ajuda a identificar a causa desse desconforto e a definir os cuidados necessários, em conjunto com a equipe oncológica”, afirma Maria Letícia Bucchianeri, dentista e coordenadora do curso de odontologia da Faculdade Aria.
Feridas na boca podem comprometer mais do que uma refeição
Alguns quimioterápicos podem afetar as células da mucosa, tecido que reveste a boca. Uma possível consequência é a mucosite oral, inflamação que pode causar vermelhidão, sensibilidade, feridas e dor. A frequência e a intensidade dessas manifestações dependem do medicamento e do esquema terapêutico. Queda no número de plaquetas causada pela quimioterapia pode agravar quadros de inflamação gengival, podendo haver sangramento significativo ao escovar os dentes, e até sangramento espontâneo, além de gengiva poder adquirir um aspecto mais vermelho e inchado.
Os ciclos de quimioterapia também causam queda da imunidade da paciente, o que a deixa mais vulnerável a infecções oportunistas. Microrganismos já presentes em nosso organismo, que em condições de saúde não são capazes de causar doenças, em pacientes com sistema imunológico debilitado podem gerar quadros infecciosos. Este é o caso da candidíase oral, infecção causada por um fungo que habitualmente coloniza nossa cavidade bucal.
“Alterações no paladar e sensação de boca seca também podem ocorrer com alguns tratamentos. Quando a dor ou a dificuldade para engolir reduz a ingestão de alimentos e líquidos, pode haver risco de desidratação e comprometimento do estado nutricional”, destaca a dentista.
“Qualquer ferida que dificulta comer ou beber precisa ser avaliada. A paciente não deve esperar o desconforto se intensificar para pedir ajuda. Investigar o sintoma permite indicar o cuidado adequado, considerando o tratamento oncológico em andamento”, orienta Maria Letícia Bucchianeri, que também pondera que os há protocolos de tratamentos odontológicos disponíveis focados em amenizar estes efeitos colaterais e seus desconfortos.
Além da quimioterapia, algumas terapias-alvo utilizadas em situações específicas do câncer de mama podem causar lesões na boca. Informar ao dentista quais medicamentos estão sendo utilizados ajuda a orientar a avaliação e o planejamento dos cuidados.
A prevenção pode começar antes do tratamento
A avaliação odontológica antes da quimioterapia e radioterapia pode identificar problemas que mereçam atenção, como infecções dentárias, doenças nas gengivas, lesões na mucosa e próteses que machucam. O objetivo é reduzir possíveis fontes de infecção e trauma e orientar a higiene bucal. Nem sempre será necessário realizar procedimentos antes do início da terapia.
“Não existe uma orientação única para todas as mulheres. Precisamos conhecer os medicamentos, os exames, o momento do tratamento e a condição da boca para planejar os cuidados com segurança. O diálogo entre dentista e oncologista é importante, especialmente quando há necessidade de procedimentos”, explica.
Muitas mulheres ainda enfrentam, após o término dos ciclos de quimioterapia e radioterapia e de eventuais cirurgias para remoção dos tumores, tratamentos com medicamentos que podem perdurar por até 5 anos. Estes protocolos visam, de modo especial, minimizar riscos de recidiva e metástase da doença, mas também podem impactar a saúde bucal da paciente, em especial no que se refere ao metabolismo ósseo.
“O contato entre médico e cirurgião-dentista é a melhor conduta para a definição de eventuais intervenções odontológicas nesta fase do tratamento. Os profissionais discutirão as reais necessidades de intervenção odontológica, o melhor momento para fazê-la e eventuais ajustes de doses de medicamento para um tratamento dentário mais seguro”, reforça a especialista.
Cuidar da boca também é preservar a qualidade de vida
A higiene bucal deve ser mantida e adaptada às condições de cada paciente. Escovações delicadas, com escova macia, e acompanhamento profissional integram esse cuidado. Produtos e medidas para aliviar os sintomas devem seguir as orientações da equipe responsável.
“Comer, beber e conversar com conforto fazem diferença na rotina de quem está em tratamento. Preservar essas atividades também é uma forma de cuidar da qualidade de vida da paciente. Preservar a alimentação, aliviar a dor e acolher as dificuldades que surgem durante a terapia são partes de uma assistência que acompanha a paciente em todas as etapas do tratamento”, finaliza a coordenadora do curso de odontologia da Faculdade Aria.