Eu estava aqui em Madrid, já passando da hora do almoço, tentando aproveitar a cidade com as amigas, quando recebi uma notícia que me fez perder até a vontade de pedir outra taça de vinho. Marco Nanini, minha gente! MARCO NANINI! Um dos maiores atores deste país, dono de uma carreira que merece aplausos de pé, acabou vaiado durante uma apresentação em Porto Alegre. E o motivo? Uma reclamação envolvendo a sombra de uma intérprete de Libras no palco. Eu li uma vez, li de novo e pensei: gente, será que entendi direito? Porque tem vexame que nem o melhor dramaturgo teria coragem de escrever.
O babado aconteceu na noite de domingo (18), durante a apresentação de Fim de Partida, no Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco, em Porto Alegre. Segundo relatos publicados pela imprensa gaúcha, Nanini interrompeu a fala de seu personagem para reclamar de uma sombra projetada no palco. Até aí, pensei que fosse algum refletor mal posicionado. Pois sentem, criaturas, porque a tal sombra era da intérprete de Libras que trabalhava para tornar o espetáculo acessível ao público surdo.

Gente, eu fiquei passada! A apresentação foi interrompida e, com a cortina fechada, a profissional recebeu a informação de que a produção havia solicitado sua retirada. Parte da plateia reagiu com vaias e pedidos de respeito. Pessoas surdas deixaram o teatro, acompanhadas por outros espectadores em protesto.
E tem mais. Lucas Bourscheid, artista surdo que estava na sessão, afirmou à TV Sim Brasil que a iniciativa de pedir a retirada da interpretação partiu do próprio Nanini, e não da equipe técnica. É o relato de quem estava lá, minha gente, e precisa ser tratado com a seriedade que merece.
A Pequena Central de Produções Artísticas, responsável pelo espetáculo, publicou uma nota reconhecendo que falhou ao não verificar antecipadamente as condições técnicas necessárias para a sessão com Libras. Pediu desculpas ao público surdo. A Fundação Theatro São Pedro também se manifestou, defendendo o acesso e o respeito a todos os públicos.
Agora, me expliquem uma coisa: como é que uma sessão preparada para receber pessoas surdas termina justamente com a retirada da profissional responsável pela acessibilidade? É de uma contradição tão grande que nem Samuel Beckett, autor de Fim de Partida, precisaria inventar um absurdo desses.
E eu, que sou uma fofoqueira de quinta categoria, mas não deixo de reconhecer o tamanho de um artista, fiquei especialmente incomodada. Marco Nanini tem uma trajetória extraordinária na televisão, no cinema e no teatro. Justamente por isso, o episódio merece esclarecimento. Talento não coloca ninguém acima de uma cobrança legítima.
Estou tentando falar com Nanini, mas, até agora, nada de conseguir contato. Quero ouvir o lado dele, saber exatamente o que aconteceu e entender como uma noite de teatro terminou dessa maneira.

Enquanto isso, aqui em Madrid, continuo pensando na ironia da história. Uma sombra incomodou no palco. Mas o que realmente ficou às escuras foi o direito de parte do público de acompanhar o espetáculo.
E olha, minhas filhas, que vexame. O teatro deveria abrir as cortinas para todo mundo. Nunca fechar as portas da inclusão.