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Saúde

Musculação ajuda a prevenir Alzheimer e melhora independência de pessoas que têm a doença

A atividade está associada a mecanismos biológicos que favorecem a saúde cerebral e podem contribuir para reduzir o risco de declínio cognitiv

Redação Jornal de Brasília

21/06/2026 9h17

Foto: Agência Brasília

LAIZ MENEZES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A musculação pode desempenhar um papel importante tanto na prevenção do Alzheimer quanto no cuidado de pessoas que já receberam o diagnóstico da doença. Além de ajudar a preservar força, mobilidade e funcionalidade ao longo do envelhecimento, a atividade está associada a mecanismos biológicos que favorecem a saúde cerebral e podem contribuir para reduzir o risco de declínio cognitivo.

O aposentado Rogério Beck, 59, recebeu o diagnóstico de Alzheimer há cerca de dois anos. Desde então, passou a praticar mais exercício físico como parte do tratamento. Trocou a corrida pela musculação e treina de três a quatro vezes por semana, dividindo as sessões por grupo muscular. Diz que sente a diferença nos dias em que não vai: “passo o dia meio irritado, acabo dormindo pior”.

A esposa Karin Beck, 55, faz o caminho inverso: treina para prevenir o diagnóstico. Com histórico familiar de Alzheimer -a mãe morreu em 2004 devido a complicações da doença-, ela faz pilates duas vezes por semana, modalidade que combina força, equilíbrio e mobilidade, e acrescentou duas sessões de caminhada à rotina.

Paulo Caramelli, neurologista e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que a atividade física, incluindo a musculação, é considerada parte fundamental de estratégias de prevenção e cuidado do Alzheimer. Segundo ele, o sedentarismo é um dos principais fatores de risco modificáveis para demência, o que coloca o exercício físico no centro das intervenções não farmacológicas.

Entre os mecanismos biológicos associados à musculação, Caramelli destaca a ação das miocinas, substâncias produzidas pelo músculo durante a contração. Essas moléculas entram na circulação e podem alcançar o cérebro, onde estimulam a formação de novas conexões entre neurônios e contribuem para a manutenção da plasticidade cerebral –capacidade do cérebro de se reorganizar, criar novas conexões entre neurônios e se adaptar ao longo da vida.

Em pessoas já com Alzheimer, especialmente nas fases em que há sarcopenia (perda da massa muscular), a musculação pode ajudar a melhorar mobilidade, reduzir risco de quedas e atenuar o declínio funcional associado à evolução da doença. Mas ainda falta evidência robusta de efeito direto sobre a progressão da doença.

O educador físico e pesquisador Luiz Sinésio Neto, professor da UFT (Universidade Federal do Tocantins) e diretor científico da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer) no estado, recomenda o chamado exercício multicomponente, que combina musculação, atividades aeróbicas, exercícios de equilíbrio e mobilidade.

Ele cita um estudo publicado em 2015 na revista The Lancet, que acompanhou 1.260 pessoas entre 60 e 77 anos com maior risco de desenvolver Alzheimer. A intervenção combinou treinamento cognitivo e controle de fatores cardiovasculares com atividades como musculação, exercícios aeróbicos e práticas de equilíbrio e mobilidade. Ao final de dois anos, o grupo submetido à intervenção apresentou melhor desempenho cognitivo em comparação ao grupo controle.

Um relatório da The Lancet publicado em 2024 reuniu evidências sobre fatores modificáveis associados ao risco de demência ao longo da vida. O documento identificou 14 fatores de risco, entre a inatividade física, e destacou que mudanças nesses determinantes podem reduzir a probabilidade de desenvolvimento da doença.

Karin adotou boa parte dessas mudanças no estilo de vida da família, incluindo a alimentação baseada no padrão mediterrâneo. O modelo prioriza o consumo de frutas, verduras, legumes, grãos integrais, azeite de oliva e peixes, com redução de carnes vermelhas e alimentos ultraprocessados. “Meu objetivo é saúde”, diz ela.

Rogério, além da musculação, faz atividade cognitiva em horário separado, com acompanhamento de uma neuropsicóloga. Ele recebeu o diagnóstico depois que começou a perceber mudanças sutis no dia a dia, principalmente na memória de curto prazo e em tarefas simples, que antes eram automáticas.

Segundo Neto, a relevância da musculação também está ligada ao papel do músculo no organismo. “O músculo é um dos maiores e mais importantes tecidos do corpo humano. O músculo fraco representa doença e, com quantidade e qualidade adequadas, representa saúde”, afirma.

Outro ponto associado ao treino de força é a redução de processos inflamatórios e a melhora do metabolismo da glicose e da circulação cerebral, fatores considerados relevantes para a saúde vascular do cérebro.

O psiquiatra Arthur Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), destaca que o foco não deve estar apenas em hipertrofia, mas na funcionalidade: manter autonomia para tarefas cotidianas como levantar da cadeira, subir escadas e caminhar com segurança.

Uma pesquisa publicada em 2016 no Journal of the American Geriatrics Society acompanhou cem adultos com comprometimento cognitivo leve e avaliou um programa de treinamento resistido de alta intensidade por seis meses. Os resultados mostraram melhora de força muscular, capacidade aeróbica e desempenho cognitivo.

Danila acrescenta que as evidências atuais mostram efeitos mais consistentes na autonomia, mobilidade, força muscular e qualidade de vida do que na desaceleração direta da progressão biológica da doença.

Ainda assim, a manutenção da funcionalidade pode contribuir para preservar independência por mais tempo e reduzir o impacto do Alzheimer no cotidiano de pacientes e cuidadores.

Como incluir a musculação na rotina para proteger o cérebro

A profissional de educação física Talita Cezareti, da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), afirma que a recomendação geral é que o treinamento de força seja realizado de forma regular, de duas a três vezes por semana, sempre com orientação profissional e respeitando a individualidade e o nível de condicionamento de cada pessoa.

Ela reforça que a musculação pode ser combinada com exercícios aeróbicos e outras práticas ao longo da semana, compondo um programa mais amplo de cuidado com a saúde e o envelhecimento.

A recomendação geral para adultos e idosos segue diretrizes internacionais de pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, distribuídos ao longo da semana, com a musculação inserida de forma consistente nessa rotina.

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