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Investimento em vigilância genômica da Covid precisa continuar, diz pesquisadora

O Brasil conseguiu montar uma estrutura abrangente de monitoramento do material genético do vírus da Covid-19 ao longo dos anos de pandemia

Por FolhaPress 18/05/2022 7h27
Foto: NIAID

Reinaldo José Lopes
São Carlos, SP

O Brasil conseguiu montar uma estrutura abrangente de monitoramento do material genético do vírus da Covid-19 ao longo dos anos de pandemia, e esse sistema precisa continuar funcionando se o país quiser enfrentar com seriedade as doenças infecciosas do futuro.

A avaliação é de Marilda Siqueira, pesquisadora que chefia o Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo da Fiocruz e coordena a rede genômica da instituição. “É importante ter em mente que vamos enfrentar novos desafios desse tipo. Como eu digo nas minhas apresentações faz mais de 20 anos, desde a época em que a gente ainda usava transparências no retroprojetor em vez de PowerPoint, quando o assunto é pandemias, nunca é uma questão de ‘se’, mas sim de ‘quando’ [algo assim vai acontecer].”

Siqueira conversou com a Folha por telefone durante sua participação no Sexto Simpósio Internacional em Imunobiológicos, evento organizado pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz. A vigilância genômica realizada por ela e outros pesquisadores no Brasil e no mundo é o que permite acompanhar como o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, tem sofrido alterações em seu material genético conforme vai infectando a população humana.

Essas mudanças ocorrem ao acaso, por erros de cópia que aparecem quando o vírus se replica nas células que invadiu. Muitas delas não têm efeito algum ou podem até ser prejudiciais para o Sars-CoV-2.

Outras, no entanto, são capazes de ajudar o vírus a se multiplicar com mais eficiência ou a escapar melhor do sistema de defesa do organismo, levando ao surgimento de variantes, como as designadas pelas letras gregas delta e ômicron. Por isso, saber o que está acontecendo com os genes virais ao longo do tempo é essencial para rastrear como ele está se espalhando e como vacinas e terapias podem se sair diante de novas versões do coronavírus.

Para a pesquisadora, é cedo para dizer como esse processo poderá afetar os riscos trazidos pela Covid-19 no futuro. “Ainda estamos num tempo de muito aprendizado. Nós evoluímos muito em tratamentos e vacinas, e ele [o vírus] também evoluiu. Falta muita coisa para ser compreendida.”

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Do lado da evolução viral, um dos grandes problemas, aponta ela, é a falta de uma distribuição equitativa das vacinas contra a Covid-19 no mundo todo. Embora as imunizações disponíveis atualmente não consigam impedir completamente o espalhamento do vírus, os locais com altos índices de vacinação são muito menos propícios para a multiplicação do Sars-CoV-2 do que os países nos quais relativamente pouca gente recebeu vacinas. É nesses lugares que o patógeno tem mais chances de dar origem a novas variantes perigosas.

“Por isso, vários países estão discutindo a questão da sustentabilidade de longo prazo do monitoramento genômico. Participei recentemente de uma reunião da OMS [Organização Mundial da Saúde] na Itália sobre esse tema. O compartilhamento dos dados genômicos envolve uma série de questões delicadas, mas é muito importante para aumentar a rapidez com que a detecção de um novo agente patogênico seja avisada”, ajudando a coordenar medidas de saúde pública, diz ela.

Do lado brasileiro, Siqueira lembra que, no começo da pandemia, o país teve dificuldades para ampliar seu sistema de monitoramento, em parte por causa da crise de insumos. A questão é que os aparelhos e matérias-primas usados para sequenciar (“ler”) o material genético não são produzidos no Brasil, e a alta demanda nos países desenvolvidos fez com que as empresas fabricantes priorizassem os clientes de longa data nesses locais.

Depois desse baque inicial, porém, agências de fomento à pesquisa estaduais, como a Fapesp e a Faperj (em São Paulo e no Rio, respectivamente), bem como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e o Ministério da Saúde, conseguiram financiamento suficiente para que a diversidade genômica do Sars-CoV-2 pudesse ser acompanhada de forma relativamente confiável país afora.

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Siqueira destaca, por exemplo, que todos os chamados Lacen (Laboratórios Centrais de Saúde Pública, ligados ao Ministério da Saúde), presentes em cada uma das capitais, agora contam com aparelhos de sequenciamento que permitem a realização desse trabalho. “Poderia ter sido mais rápido, talvez, mas os desafios estão sendo superados”, resume ela.

A continuidade do financiamento para esse trabalho em rede ajudaria a entender, por exemplo, se a Covid-19 passará a ter um comportamento sazonal semelhante a outros vírus respiratórios, como o dos causadores da gripe, cujo impacto sobre a população tende a se concentrar nos meses de outono e inverno nas regiões Sul e Sudeste.

“O ideal seria estender esse monitoramento a diversos vírus respiratórios, incluindo não só o Sars-CoV-2 e os vírus influenza [da gripe] como também o vírus sincicial respiratório [causador da bronquiolite, frequente em bebês e crianças pequenas]”, afirma.

Os vírus da gripe, muitos dos quais circulam também entre aves silvestres e animais domésticos, como galinhas, patos e porcos, sempre foram vistos como candidatos a causar futuras pandemias. O salto de novas formas do vírus influenza de animais para seres humanos é um dos pontos mais potencialmente delicados nesse sentido.

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“O monitoramento desses casos é algo que ainda precisamos melhorar bastante. Temos alguns dados pontuais, em municípios de Santa Catarina e outras regiões onde a criação de suínos e aves é bastante intensa”, diz Siqueira.








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