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PSDB não tem coesão para estancar crise mesmo com candidatura ao Planalto; leia análise

As lideranças partidárias não possuem coesão em torno de um diagnóstico e da estratégia para estancar a crise

Rafael Cortez*

Em 27 de novembro de 2021, João Doria vence as prévias do PSDB para a escolha do candidato à Presidência. Em 14 de maio de 2022, o ex-governador escreve uma carta endereçada ao partido sugerindo tentativas de golpe em oposição à sua candidatura. Tal conflito aparece às vésperas da data divulgada pelos líderes do projeto da terceira via.

No lugar de um candidato, a data pode marcar mais um episódio de judicialização da política para arbitrar um conflito político não resolvido da legenda que, em um passado não tão distante, organizou um campo político no plano nacional, oferecendo ao crivo do eleitor um projeto político.

O ocaso dos tucanos representa, talvez, o legado mais persistente da Operação Lava Jato à política nacional aos olhos da balança de poder entre os partidos. O resultado não apenas da disputa interna entre os tucanos, mas sobretudo das negociações entre os partidos do chamado “centro-democrático”, parece ser secundário. As lideranças partidárias não possuem coesão em torno de um diagnóstico e da estratégia para estancar a crise que, curiosamente, nasce no momento de enfraquecimento eleitoral do seu rival.

Os tucanos conquistaram um status desejados por muitos e conquistados por poucos. A saber: de organizador da centro-direita. Tal posição foi direto da eficiência dos seus quadros em mobilizar formuladores de políticas públicas em torno de um plano que trouxe um choque positivo de bem-estar aos brasileiros. Se sobrou virtude na implementação do plano Real e da agenda de modernização institucional, faltou força organizacional para o partido cultivar seu legado junto à sociedade. O bolsonarismo tomou o espaço de mobilização do eleitor, gerando inclusive a perda do discurso reformista que acompanhou o PSDB nos anos de oposição.

A sequência de conflitos retrata a falta de força organizacional e de um plano para enfrentar a crise da legenda. O partido até tentou alterar o enredo da escolha dos candidatos. De uma seleção construída por poucos caciques à mesa de restaurantes, a legenda fez a opção por ouvir seu filiado; em vão. Preso entre a tese da candidatura própria e o apoio à chapa com o MDB, os tucanos gastam mais energia nas disputas internas do que na construção da identidade do seu projeto. Se o partido não sabe do significado da sua candidatura, dificilmente o eleitor irá prestar atenção com cuidado na mensagem dos seus líderes.

Os tucanos abusaram da “regra três” e podem sair de 2022 como um partido satélite sem a pretensão de organizar um projeto nacional e fazendo política a partir dos interesses locais para fomentar sua base legislativa. Curiosamente, esse caminho pode ser feito de braços dados com o MDB, relembrando a identidade entre as legendas na origem do sistema partidário pós-Constituição de 1988.

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Doutor em Ciência Política (USP) e Sócio da Tendências Consultoria

Estadão Conteúdo








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