DANIELLE CASTRO
RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS)
O frio chega, o casaco sai do armário e os espirros parecem vir junto. A baixa temperatura, porém, não provoca sozinha o agravamento de rinites, sinusites, asmas e outros problemas respiratórios crônicos.
“O que acontece é que o inverno reúne uma série de fatores que favorecem o aparecimento ou a piora dos sintomas”, diz Fátima Rodrigues Fernandes, alergista do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) de São Paulo.
No inverno, as pessoas ficam mais tempo em ambientes fechados e com pouca ventilação, afirma a alergista e imunologista Fernanda Soubak, da rede INKI. Esse cenário aumenta a exposição a alérgenos, como ácaros da poeira, pelo de animais e mofo, que, muitas vezes, estavam junto das roupas de frio guardadas.
O tempo seco também contribui para uma mucosa nasal mais sensível a irritantes externos, como fumaça e perfumes. De acordo com Georgiana Hueb, otorrinolaringologista do Hospital Sírio-Libanês, a redução da umidade do ar neste período vem acompanhada de maior concentração de poluentes, decorrente do processo de inversão térmica nas grandes cidades.
O resultado é um nariz com menos capacidade de filtrar partículas e mais sujeito a espirros, coriza e obstrução quadro que se agrava com a maior circulação de vírus respiratórios nesta época.
“Muita gente confunde crise alérgica com resfriado ou começa com rinite e acaba evoluindo, pegando um resfriado”, diz Soubak.
Neste 8 de julho, Dia Mundial da Alergia, confira as dicas para fazer um manejo melhor da saúde respiratória e fugir das dores de cabeça e do nariz escorrendo.
O IMPACTO DA DOENÇA
A rinite alérgica não deve ser encarada como uma condição banal. Conforme as Diretrizes Brasileiras para Imunoterapia com Alérgenos, documento redigido pela Associação Médica Brasileira e pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), o problema é observado em uma faixa de 10% a 40% da população mundial.
Documento publicado no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology de 2023, com assinatura da Asbai com a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), afirma que a rinite traz impacto substancial no sono e para o desenvolvimento.
O cansaço crônico afeta crianças e adultos, prejudicando desempenho escolar e profissional. Além disso, de 15% a 38% dos pacientes com rinite desenvolve também asma alérgica.
DIFERENCIANDO ALERGIAS DE INFECÇÕES
A rinite alérgica é uma resposta exagerada do sistema imunológico a substâncias como ácaros, poeira, pólen e pelos de animais. Os sintomas costumam incluir espirros em sequência, coceira no nariz, olhos e garganta, obstrução nasal e secreção transparente.
“Já gripes e resfriados são infecções causadas por vírus. O resfriado costuma ser mais leve, com coriza, congestão nasal e dor de garganta”, detalha Hueb.
A gripe em si costuma provocar febre, dores no corpo, cansaço intenso e mal-estar, além de sintomas respiratórios. A profissional reforça que, embora alguns sintomas sejam semelhantes, a causa e o tratamento dos dois problemas são diferentes e devem ser acompanhados por um especialista médico.
HIGIENE NASAL E CUIDADOS AMBIENTAIS
Para o manejo eficiente dos sintomas de alergias, a lavagem nasal com soro fisiológico é um consenso. “Ajuda a remover secreções, partículas inaladas, alérgenos e microrganismos, além de manter a mucosa hidratada e favorecer a depuração mucociliar, mecanismo natural de limpeza das vias aéreas”, diz Hueb.
Em bebês, deve-se usar pequenos volumes, aplicados com conta-gotas ou seringas apropriadas. Já crianças maiores e adultos podem empregar quantidade maiores, mas sempre com irrigação suave e atenção à pressão aplicada para garantir conforto, segurança e eficácia.
O controle ambiental é outra peça-chave no tratamento preventivo. Além de manter os ambientes ventilados e arejados, é recomendado fazer higienização semanal das roupas de cama com água quente.
Os alérgicos também devem reduzir a presença de objetos que acumulam poeira, como tapetes e cortinas pesadas. Hueb lembra que em regiões de clima seco, a hidratação e lavagem nasal são diferenciais, enquanto áreas litorâneas pedem mais atenção no controle de mofo.
No interior, a maior exposição à poeira e à terra pode ainda ser agravantes de sintomas em pessoas predispostas, reforçando a necessidade geral de limpar as superfícies e pisos. “É super importante reduzir poeira, passar pano úmido no lugar de varrer, evitar acúmulo de objetos que juntam poeira e cuidado com mofo”, diz Soubak.
TRATAMENTO E SINAIS DE ALERTA PARA EMERGÊNCIA MÉDICA
Segundo Fernandes, a principal medida terapêutica para conter quadros de alergia é “manter a doença bem controlada durante todo o ano e não apenas tratar os sintomas quando eles aparecem.”
Pacientes com rinite devem seguir o tratamento prescrito pelo médico, especialmente quem tem indicação de corticosteroides nasais, e manter uma boa hidratação.
“Quem também tem asma deve manter o tratamento de controle regularmente, pois rinite e asma frequentemente coexistem e o descontrole de uma pode piorar a outra”, diz a alergista do Iamspe.
A maioria dos episódios de rinite pode ser tratada em casa ou em consulta ambulatorial, mas alguns sinais indicam a necessidade de avaliação médica imediata. “Devem procurar um serviço de emergência pessoas que apresentem dificuldade para respirar ou falta de ar importante”, diz Fernandes.
Soubak lembra que é fundamental estar com a vacinação completa, em particular contra gripes, e que a automedicação deve ser evitada, pois pode atrasar o diagnóstico de outras doenças que precisam de atendimento emergencial.
“Quando os sintomas nasais persistem por mais de 10 dias, tornam-se muito frequentes ou prejudicam o sono e a qualidade de vida, o ideal é procurar um alergista ou otorrinolaringologista para investigação e tratamento adequados”, pondera Fernandes.
A ida imediata ao hospital deve ocorrer se houver inchaços da face, lábios, língua ou garganta, indicadores de reação alérgica grave (anafilaxia). Já febre alta persistente associada a dor intensa na face, protração, inchaço ao redor dos olhos ou alteração da visão, por sua vez, podem indicar complicações de uma sinusite e também pedem uma ação imediata.
“Chiado no peito, respiração rápida, sensação de opressão no peito, dificuldade para falar frases curtas, lábios arroxeados, sonolência, prostração, confusão ou desmaio, edema nos olhos com rigidez de nuca, vômitos repetidos pode não ser só a rinite”, reforça Soubak, que sugere buscar a emergência o mais rápido possível nesses casos.