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Saúde

HIV pode deixar rastro no sistema nervoso mesmo com vírus controlado no sangue, indica estudo

Pesquisa acompanhou 79 adolescentes sul-africanos que nasceram com HIV e começaram o tratamento antirretroviral na infância

Redação Jornal de Brasília

28/07/2026 14h16

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Foto: Breno Esaki/Arquivo Agência Saúde-DF

CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS


Um estudo apresentado na 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, sugere que o HIV pode deixar sinais de atividade imunológica no sistema nervoso central mesmo quando o vírus está totalmente suprimido no sangue — achado que reacende o debate sobre o que, de fato, significa controlar a infecção.

A pesquisa acompanhou 79 adolescentes sul-africanos que nasceram com HIV e começaram o tratamento antirretroviral na infância, parte da coorte PAVE-80, um dos estudos mais longos do mundo sobre o tema, com 16 anos de seguimento.

Os cientistas compararam amostras pareadas de sangue e de líquido cefalorraquidiano — fluido que banha o cérebro e a medula espinhal — para responder a uma pergunta que exames de rotina não respondem: se o HIV está controlado no sangue, ele também está “quieto” no sistema nervoso central?

Entre os participantes com supressão viral no sangue — 75% do total —, 11 dos 59 adolescentes, cerca de 19%, ainda apresentavam atividade imunológica específica contra o HIV no líquido cefalorraquidiano. Um histórico mais longo de interrupções no tratamento foi mais comum nesse grupo.

Durante a apresentação, a autora do estudo, Shalena Naidoo, da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, descreveu a coorte como uma oportunidade rara de entender os efeitos de longo prazo do tratamento precoce e classificou o resultado como “surpreendente”.

Ela fez questão de conter alarmismo: o achado não significa que os adolescentes estavam doentes, que o tratamento estava falhando ou que alguém precise trocar de esquema terapêutico.

O que ele mostra é que o ambiente imunológico do sistema nervoso central nem sempre reflete o que ocorre no sangue — os dois compartimentos, ainda que conectados, podem contar histórias biológicas diferentes.

O exame usado (Western blot) detecta a ligação de anticorpos ao HIV, mas não permite saber se eles refletem memória imunológica antiga, transferência passiva do sangue ou produção contínua dentro do sistema nervoso.

A equipe também identificou proteínas no sangue associadas à atividade no fluido, o que pode, no futuro, levar a biomarcadores capazes de sinalizá-la sem recorrer a punções lombares, exame invasivo usado para coletar a amostra.

O estudo é transversal — fotografou os participantes em um único momento — e não permite saber se o sinal reflete vigilância protetora, uma marca de infecção antiga ou inflamação contínua, nem associá-lo a desfechos cognitivos.

Outra coorte (CHER) já havia mostrado que o início precoce do tratamento reduz o risco de doenças cerebrais ligadas ao HIV, e exames de neuroimagem identificaram diferenças sutis na estrutura do cérebro de quem adquiriu o vírus ao nascer — sem vínculo causal estabelecido com o achado atual.

Para Naidoo, a principal implicação está nas estratégias de cura do HIV, que não podem mais ser avaliadas apenas pelo sangue. O sistema nervoso central é protegido pela barreira hematoencefálica, que limita a entrada de alguns medicamentos, enquanto células de vida longa no cérebro podem abrigar o vírus ou sustentar uma resposta imune.

“Se estamos realmente buscando uma cura, e não apenas a supressão viral, precisamos entender também o que acontece ali”, afirmou a pesquisadora.

“Às vezes as descobertas mais importantes não vêm de confirmar o que esperávamos, mas de reconhecer que ainda existe biologia que não compreendemos totalmente.”

Naidoo reforçou que o estudo não sugere que a terapia antirretroviral esteja falhando, e que a carga viral no sangue continua sendo medida essencial de sucesso do tratamento — mas que pode não capturar toda a biologia do HIV em outros compartimentos.

O próximo passo é acompanhar os adolescentes ao longo do tempo, cruzando os achados com testes cognitivos e neuroimagem.

Para pessoas que vivem com HIV, disse a pesquisadora, a mensagem é de esperança: a terapia antirretroviral transformou a infecção de doença fatal em condição crônica administrável, e nada no estudo muda essa conquista. O convite é para que cientistas e médicos olhem além do que é mais fácil de medir.

“Nosso objetivo não é apenas ajudar as pessoas a sobreviver, mas garantir que possam viver vidas longas e saudáveis, com todos os aspectos da saúde — incluindo o cérebro — levados em conta”, afirmou Naidoo.

A repórter viajou a convite da IAS (International Aids Society)

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