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Saúde

Dois novos casos de pessoas consideradas curadas do HIV são anunciados

Casos reforçam um grupo ainda extremamente reduzido de pessoas que eliminaram ou controlam o HIV sem medicamentos após um transplante de células-tronco

Redação Jornal de Brasília

27/07/2026 17h42

Foto: Agência Brasil

CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS


Dois novos casos de pessoas consideradas curadas ou em remissão prolongada do HIV após um transplante de células-tronco serão apresentados durante conferência internacional de Aids, que acontece no Rio de Janeiro. Agora são 13 registros de pacientes curados de HIV no mundo.

Conhecidos como pacientes Ascent e Kansas City, os casos serão apresentados em uma sessão dedicada às pesquisas sobre cura do HIV, que ocorre nesta quarta (29).

A informação foi antecipada pelo imunologista Christian Gaebler, da Charité Universitätsmedizin Berlin, durante a pré-conferência HIV Cure Without Borders: Science, Community and the Latin America and Caribbean Perspective.

“O paciente Ascent será o número 12 e, depois, o paciente de Kansas City será o número 13”, afirmou Gaebler, classificando os resultados como “realmente fascinantes”.

O pesquisador não revelou detalhes clínicos do paciente de Kansas City, como o tipo de transplante realizado, há quanto tempo ele interrompeu a terapia antirretroviral ou o período de remissão alcançado.

Os dois casos reforçam um grupo ainda extremamente reduzido de pessoas que eliminaram ou controlam o HIV sem medicamentos após um transplante de células-tronco.

Especialistas enfatizam que esse procedimento não representa uma alternativa terapêutica para a população que vive com HIV.

Todos os pacientes considerados curados ou em remissão prolongada também desenvolveram leucemia ou outro câncer hematológico que exigia um transplante de medula óssea —procedimento complexo, de alto risco e indicado apenas para doenças potencialmente fatais.

“O que podemos fazer é aprender com todos esses casos”, disse Gaebler.

Desde o início da epidemia, cerca de 90 milhões de pessoas já viveram ou vivem com HIV. Os 13 casos relacionados a transplantes representam uma fração ínfima desse total, mas vêm oferecendo pistas importantes para o desenvolvimento de estratégias capazes de controlar o vírus sem tratamento contínuo.

O primeiro caso foi o de Timothy Ray Brown, conhecido como “paciente de Berlim”, apresentado em 2009 após receber um transplante de um doador com duas cópias da mutação CCR5-delta32, alteração genética que impede a expressão funcional do correceptor CCR5, uma das principais portas de entrada do HIV nas células de defesa. Durante anos, acreditou-se que essa mutação fosse indispensável para a cura.

Os casos mais recentes, porém, ampliaram esse entendimento.

Gaebler destacou o paciente de Genebra, que entrou em remissão apesar de receber células de um doador sem a mutação CCR5-delta32, e o segundo paciente de Berlim, cujo doador possuía apenas uma cópia da alteração genética. Esses resultados sugerem que outros mecanismos imunológicos podem contribuir para o controle do vírus.

No segundo paciente de Berlim, pesquisadores identificaram anticorpos capazes de neutralizar o HIV e ativar células NK, importantes componentes da resposta imunológica, para destruir células infectadas.

Segundo Gaebler, essa resposta pode ter contribuído para reduzir gradualmente os reservatórios virais — células onde o HIV permanece oculto e que representam o principal obstáculo para uma cura definitiva.

Além dos transplantes, pesquisadores investigam abordagens que possam ser aplicadas a um número muito maior de pessoas vivendo com HIV. Entre elas estão os anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs), terapias com células CAR-T, edição genética do CCR5 e novas estratégias de imunoterapia.

De acordo com Gaebler, diferentes ensaios clínicos com bNAbs vêm mostrando um padrão semelhante: entre 10% e 20% dos participantes conseguem manter controle parcial ou completo do vírus após a interrupção supervisionada da terapia antirretroviral.

O pesquisador também apresentou resultados preliminares de uma terapia experimental com células CAR-T modificadas para reconhecer o HIV e editadas no gene CCR5. Entre dez participantes, um manteve o vírus controlado por cerca de 90 semanas sem tratamento, enquanto outros cinco apresentaram rebote viral inferior ao esperado.

Os resultados ainda são iniciais e obtidos em estudos pequenos, mas ajudam a orientar o desenvolvimento de terapias que possam, no futuro, permitir que pessoas vivendo com HIV mantenham o vírus sob controle sem depender do uso contínuo de medicamentos.
A jornalista viajou a convite da IAS (International Aids Society)

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