Por Joana Alves
Agência de Notícias CEUB
Enquanto casais funcionais enfrentam crises por meio do diálogo e da negociação, relações adoecidas são marcadas pelo controle, manipulação e agressividade.
“Em vez de se adaptar, criando soluções e reorganizações, a relação abusiva reforça padrões destrutivos e se repete ao longo do tempo”, diz o psicólogo João Antônio Mallmann, que atua há 16 anos no campo da terapia familiar e psicoterapia.
Ele explica que, nesses casos de abuso emocional, há desequilíbrio de poder, medo, manipulação e sofrimento recorrente. Esses seriam sinais de uma relação adoecida
Mallmann, que é também professor do curso de psicologia no Centro Universitário de Brasília (CEUB), pondera que conflitos necessariamente fazem parte de qualquer interação humana, mas a principal diferença entre uma relação saudável e uma abusiva não está na existência dos conflitos, mas na forma como eles são vividos.
“Em um relacionamento tóxico ou abusivo, o conflito deixa de ser uma divergência que coloca o casal diante da necessidade de interagir com respeito à autonomia de cada um, passando a funcionar como estratégia de controle, desqualificação ou violência”, explicou João Mallmann.
Perturbações
Cada pessoa chega ao relacionamento com histórias, expectativas e formas diferentes de lidar com emoções, o que torna o conflito algo natural. O especialista explica que, em uma relação saudável, os conflitos funcionam como oportunidades de escuta, negociação e transformação do vínculo.
“O aspecto saudável está justamente na capacidade adaptativa diante das perturbações que o casal, na condição de sistema, pode sofrer”, conta o psicólogo.
Segundo ele, existem diferenças entre conflitos comuns entre casais e relações violentas e abusivas. “Um casal pode atravessar uma diversidade de conflitos sem que incorra em abusos” , esclarece.
“Ciúme”
Um exemplo de sentimento que costuma gerar embates entre casais é o ciúme. De acordo com Mallmann, isso pode ser uma reação emocional ligada à insegurança ou ao medo de perder alguém, algo que é passível de ser melhorado. O problema surge quando esse sentimento passa a justificar comportamentos invasivos, na avaliação do especialista
O que pode ser reconhecido como “ciúme excessivo” funcionaria como alerta para quem vive um relacionamento. Ele explica que sentimentos não precisam ser rotulados como “bons” ou “ruins”, mas que se deve estar atento à forma com que eles são expressados.
“Quando o ciúme deixa de ser comunicado de forma madura e passa a justificar vigilância, controle, invasão de privacidade ou restrições à liberdade do outro, o casal se vê diante de um problema”, explica.

emocional e dificultam a saída da vítima do contexto de violência.
Sinais de alerta
Os primeiros sinais de abuso costumam surgir de maneira discreta. Muitas vezes, atitudes abusivas aparecem disfarçadas de cuidado, proteção ou preocupação. O psicólogo destaca que excesso de interesse inicial, críticas mascaradas de preocupação, dificuldade em aceitar os vínculos sociais do parceiro e a constante sensação de “pisar em ovos” durante discussões são sinais que merecem atenção.
Segundo ele, crenças culturais que associam posse, ciúme e controle a demonstrações de afeto contribuem para que muitas pessoas tenham dificuldade em reconhecer comportamentos abusivos.“O controle excessivo pode ser confundido com cuidado ou amor”, afirma.
A dificuldade em se afastar e interromper a dinâmica de abusos é algo comum entre as vítimas. Relações abusivas criam dependência e podem tornar o rompimento do vínculo bastante difícil.
“Existem nessas relações estratégias de recompensa e punição, mantendo a vítima na expectativa de encontrar uma mudança do agressor”, explica o psicólogo. A violência psicológica interfere na autoestima da vítima e a saída do relacionamento pode ser vivida como a perda da própria identidade.
“A identidade, autoimagem, autoconfiança ficam abaladas”, destaca Mallmann. Em muitos casos, a pessoa passa a sentir culpa pelas agressões sofridas, perde a confiança em seus próprios sentimentos e encontra dificuldade para tomar decisões sem a aprovação do parceiro.
Saúde mental
Quando o abuso emocional se instala, seus efeitos costumam ser progressivos. As consequências ultrapassam o campo emocional. A médica Renata Facco, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e professora do Centro Universitário de Brasília (Ceub), explica que relacionamentos abusivos podem desencadear transtornos mentais e iniciar um processo de sofrimento emocional extremo.
“Viver sob esse cenário mexe com a química cerebral e funciona como um fator de risco para o transtorno depressivo maior, transtorno do pânico, transtorno de estresse pós-traumático, entre outros”, afirma.
Segundo ela, o organismo entra em estado permanente de alerta. “O circuito do medo no cérebro fica ligado na tomada 24 horas por dia, inundando o corpo com hormônios relacionados ao estresse, como cortisol e adrenalina”, ressalta a médica que atua há 17 anos nessa área. Como consequência, a vítima passa a viver em um verdadeiro “modo de sobrevivência”.

“O próximo ataque”
Esse processo faz com que o corpo inteiro entre em exaustão, prejudicando as decisões, foco e raciocínio lógico. “Toda a energia que a vítima usaria para criar, trabalhar, estudar, rir e ter prazer na vida é gasta pelo seu organismo apenas para conter a angústia e tentar prever o próximo ataque”, explica.
A assistência profissional deve ser acionada o mais rápido possível. A professora recomenda que as pessoas vítimas desse tipo de relacionamento devem procurar um profissional da psicologia e psiquiatria para auxílio imediato. Alguns sinais podem indicar alerta máximo, que exigem intervenção profissional emergencial como “pensamentos de morte ou ideação suicida, ataques de pânico frequentes que paralisam a rotina, incapacidade de manter tarefas básicas do dia a dia, como trabalhar, estudar ou cuidar da própria higiene e alimentação, abusar de álcool ou tomar benzodiazepínicos sem indicação médica”, diz.
A profissional, que é pós-graduada em psicoterapia analítica, explica que esses sinais de alerta podem aparecer de diversas formas. Como resultado da dor profunda, muitas vítimas têm dificuldade de chorar e falar o que sentem. Portanto, sinais de apatia e dissociação também devem ser observados com cautela.
Segundo ela, com o passar do tempo, sem a devida intervenção profissional, o sofrimento emocional e o estresse prolongado também podem se manifestar fisicamente, prejudicando o sistema imunológico, metabólico e inflamatório. Dores crônicas, cefaleias tensionais, fadiga extrema e problemas gastrointestinais são algumas das consequências apontadas pela psiquiatra.
Mulheres vítimas da assimetria de poder
Renata Facco também chama atenção para as vítimas mulheres no âmbito das relações amorosas. A construção da identidade da mulher, enquanto parte de uma sociedade machista, atribui funções baseadas em seu gênero, como o trabalho doméstico e o cuidado exaustivo com os filhos.
Essa cobrança contribui para “sentimento de culpa especialmente em relação à criação dos filhos”, diz a profissional. Ela acrescenta que isso é utilizado como forma de manter a mulher no relacionamento abusivo.
O resultado dessa assimetria de poder são mulheres em constante estado de alerta e hipervigilância, que sacrificam a própria saúde mental e física para evitar a próxima explosão de violência do parceiro. “Isso é acompanhado por ansiedade persistente e isolamento social”, completa a psiquiatra.
Por isso, ambos os especialistas destacam a importância da ajuda profissional. A terapia pode auxiliar vítimas e casais a compreenderem seus padrões de relacionamento, fortalecer a autonomia emocional e reconstruir a autoestima. Nos casos em que o sofrimento já compromete a saúde mental, o acompanhamento psiquiátrico se torna fundamental.
Embora o processo do resgate emocional seja desafiador para a vítima, o suporte médico é capaz de controlar sintomas e restaurar a qualidade de vida da vítima. Segundo Renata Facco, o objetivo é fazer o paciente retomar as rédeas da própria vida. “Há muita vida, autonomia e esperança quando a vítima não está mais sozinha e recebe ajuda”, afirma Facco.
Canais de apoio e orientação gratuitos (24h):
Central de atendimento à mulher – Ligue 180
Centro de Valorização da Vida (CVV) – Ligue 188
Em caso de perigo imediato:
Polícia Militar – Ligue 190