Mônica Salgado resolveu olhar para Xuxa no palco, na estreia de O Último Voo da Nave, e enxergou “erotização desmedida, envelopada como empoderamento”. A jornalista elogiou o corpo e o legado da apresentadora, mas usou o figurino sensual para abrir uma discussão sobre auto-objetificação feminina. A crítica virou assunto e recebeu curtida de Glória Perez, além do apoio da deputada Júlia Zanatta, do PL.
Eu acabava de agendar a retirada do meu terninho de linho branco na lavanderia quando li aquilo. Minha filha, Xuxa colocou uma nave de 400 quilos para voar sobre a plateia, reuniu Paquitas, reviveu quatro décadas de memória afetiva e entregou um show para adultos que foram crianças. Mônica conseguiu sentar na primeira fila de um acontecimento histórico e sair de lá fiscalizando o decote.

“Um corpo maravilhoso, um legado notável. Ela foi unanimidade por uma geração que me inclui”, escreveu Salgado. Até aí, tudo ótimo. Aí veio o pacote completo de bronca: “O problema não é mostrar o corpo. É mostrar o corpo vendendo e acreditando que isso liberta.” Traduzindo do dialeto da palestra para o português da pista: Xuxa pode ter corpo, desde que use do jeito que Mônica considerar politicamente aceitável.
E aqui mora a ironia mais deliciosa. A crítica diz defender a autonomia feminina, mas termina vigiando uma mulher de 63 anos pelo tamanho do short que ela escolheu para o próprio espetáculo. É uma liberdade muito peculiar: você está livre, desde que não brilhe demais, não mostre demais, não dance demais e, de preferência, não deixe ninguém feliz demais.
Se ainda estivesse no Vídeo Show, talvez Mônica tivesse corrido para o backstage com um bloquinho. “Xuxa, me explica essa bota.” “Esse brilho tem autorização do comitê de empoderamento?” “A Nave passou por consultoria de bons costumes?” E a Rainha já estaria no alto do estádio, deixando o interrogatório no chão junto com o bom senso.
Porque a turnê não é um ensaio de moda vendido como manifesto. É uma despedida de carreira. A nova Nave tem estrutura em 360 graus, pesa aproximadamente 400 quilos, sobrevoa o público e passou por três noites de testes antes da estreia. O projeto começou em São Paulo e segue para Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, onde encerra no Maracanã.
Xuxa passou a vida ouvindo que era sensual demais, infantil demais, ousada demais, madura demais para isso ou velha demais para aquilo. Agora sobe ao palco com uma produção gigantesca, canta, dança, troca de roupa e prova que ainda domina a própria imagem. A resposta de parte da elite opinativa é perguntar se ela deveria cobrir mais o corpo. Revolucionário mesmo é achar que uma mulher adulta precisa de fiscalização travestida de cuidado.

Glória Perez curtir o post e Júlia Zanatta aderir à bronca só deixam a cena ainda mais curiosa. De repente, uma artista que marcou gerações virou ré em um tribunal formado por quem decidiu que um look de palco precisa ser julgado como se fosse uma audiência pública sobre moralidade. Faltou só pedir perícia no paetê.
O Último Voo da Nave revisita fases de Xou da Xuxa, Xuxa Park, Planeta Xuxa, cinema e Xuxa Só Para Baixinhos. É nostalgia, espetáculo e celebração de uma carreira gigantesca. Quem foi para ver Xuxa voou. Quem foi para vigiar o figurino perdeu a viagem.