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Saúde

Detecção de variantes de coronavírus no esgoto pode antecipar alta de internações por Covid

Os cientistas analisaram 12.290 sequências do coronavírus obtidas em amostras coletadas na rede de esgoto entre janeiro de 2023 e abril de 2025

Redação Jornal de Brasília

23/05/2026 10h26

Foto: Geovana Albuquerque / Agência Saúde

ANA BOTTALLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A análise do Sars-CoV-2 presente na rede de esgoto pode ser adotada para monitorar transmissões comunitárias de Covid. Mas a maior parte desse processo se concentra na quantidade de material genético viral encontrado nas amostras, dado que pode refletir tanto múltiplas infecções quanto uma única pessoa com carga viral elevada.

Agora, uma nova pesquisa conseguiu demonstrar que a diversidade genética do Sars-CoV-2 nas redes de esgoto é um melhor preditivo para incidência de casos na população do que a carga viral. Segundo o modelo proposto, há uma forte correlação entre a ocorrência de variantes do vírus nas amostras coletadas e a incidência de novos casos e hospitalizações pela doença registrados em 1 a 2 semanas depois.

O estudo, publicado na revista Science no último dia 14, foi conduzido por Dustin Hill, do departamento de Saúde Pública da Escola Maxwell de Cidadania e Assuntos Públicos de Syracuse (Estados Unidos) e pesquisadores da Universidade de Syracuse, do departamento de Saúde Estadual de Nova York e da Universidade de Albany, todos no estado de Nova York.

Os cientistas analisaram 12.290 sequências do coronavírus obtidas em amostras coletadas na rede de esgoto entre janeiro de 2023 e abril de 2025 em 194 locais no estado de Nova York. A análise buscou não apenas quanto vírus havia nas amostras, mas quão geneticamente diverso ele era, usando diferentes métricas de variabilidade molecular.

De acordo com os autores, a diversidade genética parece refletir melhor a dinâmica real de transmissão do vírus na população. Isso porque a concentração viral no esgoto pode sofrer influência de diferenças individuais na eliminação do vírus pelas fezes, degradação do material genético ao longo da rede sanitária e fatores ambientais, como chuvas.

Segundo Hill, três medidas distintas de diversidade genética mostraram associação mais forte com novos casos. “Ao longo do tempo, a variabilidade genética do vírus aumenta e depois cai, e esse padrão acompanha o número de novas infecções e hospitalizações. Quando a diversidade cresce, mais pessoas adoecem; quando ela cai, as taxas de infecção diminuem”, diz ele.

As análises estatísticas indicaram ainda que o aumento da diversidade genética do vírus no esgoto antecedeu em uma a duas semanas o crescimento de internações por Covid, sugerindo que o método pode funcionar como um sistema de alerta precoce para o agravamento da transmissão da doença.

“Nós já sabíamos que a concentração de vírus no esgoto oferecia uma capacidade preditiva de uma a duas semanas para hospitalizações. Mas a diversidade genética trouxe um sinal ainda mais forte”, diz David Larsen, também do departamento de Saúde Pública de Syracuse e coordenador do projeto.

“A diversidade genética funciona como uma lente para observar não apenas como o vírus evolui, mas também como responde ao mundo humano —às estações do ano, vacinas, tratamentos e circulação de pessoas”, afirma Ian Vasconcellos Caldas, pesquisador brasileiro da Universidade de Syracuse e um dos autores do estudo.

Apesar do potencial, os pesquisadores dizem que a técnica ainda enfrenta barreiras. A principal delas, segundo Hill, é o tempo necessário para processar e sequenciar as amostras, que pode chegar a duas semanas. Além disso, o método exige equipamentos de sequenciamento genético mais caros e complexos do que os utilizados em testes convencionais de PCR.

Na avaliação dos autores, a abordagem pode futuramente ser aplicada também para outros patógenos, como influenza e VSR (vírus sincicial respiratório). “É difícil contar todas as árvores de uma floresta, mas basta uma para saber se ela tem muitas espécies diferentes ou poucas”, diz Caldas.

“Estamos vendo muitos avanços em técnicas de sequenciamento, inclusive abordagens metagenômicas [análise do DNA ambiental], que analisam amostras sem buscar um único patógeno específico”, afirma Larsen. “A diversidade genética pode ajudar não apenas a detectar quais vírus estão circulando, mas também a inferir como a transmissão está acontecendo e se as medidas de controle estão funcionando.”

“Minha esperança é que nosso estudo encoraje pesquisadores a investir mais nessa tecnologia. A literatura científica já sugere que diversidade genética pode ser um elemento importante para prevenção de doenças”, diz Hill.

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