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Política & Poder

Saiba por que Lula precisa de radioterapia após cirurgia de câncer de pele

Tratamento de Lula prevê 15 sessões de radioterapia ao longo das próximas três semanas, sem necessidade de afastamento de suas atividades

Redação Jornal de Brasília

25/05/2026 16h01

lula mancha cabeca

Em abril o presidente passou por um procedimento cirúrgico para a remoção de uma lesão cutânea na cabeça. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS

A radioterapia iniciada pelo presidente Lula (PT) nesta segunda-feira (25), após a retirada de uma lesão de câncer de pele no couro cabeludo, é um tratamento complementar indicado para reduzir o risco de o tumor voltar a se manifestar no local.

Segundo boletim médico divulgado pelo Hospital Sírio-Libanês em Brasília, trata-se de uma radioterapia superficial, com previsão de 15 sessões ao longo das próximas três semanas, sem necessidade de afastamento de suas atividades.

A lesão retirada no fim de abril era um carcinoma basocelular, o tipo mais comum e menos agressivo de câncer de pele, com baixa probabilidade de disseminação para outros órgãos.

Na maioria dos casos, a cirurgia é suficiente para extirpar o tumor. Há situações, porém, em que a radioterapia é recomendada para aumentar a segurança oncológica.

Embora o boletim oficial não detalhe a razão específica para a indicação do tratamento, médicos ouvidos pela reportagem afirmam que a conduta não é incomum.

Uma das indicações clássicas ocorre quando o exame anatomopatológico detecta invasão perineural, situação em que células tumorais são encontradas ao redor de pequenos nervos.

“Mesmo com margens livres, esse achado aumenta o risco de retorno local e costuma justificar radioterapia complementar”, afirma Rodrigo Guedes, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e especialista em câncer de pele.

Outra circunstância é quando a margem cirúrgica fica muito estreita —ou positiva, quando ainda há sinais de tumor na borda do tecido retirado. Nesses casos, a radioterapia funciona como reforço para eliminar possíveis células cancerígenas remanescentes.

Guedes aponta ainda uma terceira possibilidade: a recidiva no mesmo local. “Quando o tumor reaparece após uma cirurgia prévia, é comum associar radioterapia para reduzir a chance de nova recorrência.”

A radio-oncologista Denise Ferreira, diretora da Sociedade Brasileira de Radioterapia, afirma que a radioterapia é um dos principais tratamentos para tumores de pele, embora muitas vezes seja menos lembrada porque lesões pequenas costumam ser resolvidas cirurgicamente.

“O tratamento radioterápico é uma opção curativa importante. Muitas vezes ele não é a primeira escolha porque a cirurgia resolve de forma rápida, mas há situações em que a radioterapia é mais adequada, seja por questões anatômicas, estéticas ou pela complexidade da ressecção”, diz.

Segundo ela, no caso de tumores localizados no couro cabeludo, a decisão pode ocorrer quando, durante a cirurgia, constata-se que a lesão é mais infiltrativa do que parecia inicialmente.

“Para evitar uma cirurgia muito extensa, com necessidade de retalhos e maior morbidade, pode-se optar pela radioterapia complementar, que também tem excelente taxa de controle.”

Ferreira destaca que outro cenário possível é a presença de sinais patológicos de maior risco, como margens exíguas, infiltração vascular ou perineural.

O radio-oncologista Elton Leite, da equipe de tumores cutâneos do serviço de radioterapia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira, afirma que a radioterapia pós-operatória é rotina em casos específicos de carcinoma basocelular.

“Mesmo sendo um tumor de excelente prognóstico, dependendo da localização e de fatores encontrados no exame patológico, a radioterapia funciona como consolidação. Ela esteriliza o leito tumoral e reduz ainda mais a chance de recorrência”, afirma.

Ele cita outros exemplos em que a radioterapia é indicada nesse tipo de câncer de pele, como invasão da musculatura do couro cabeludo ou eventual acometimento ósseo. “A chance de cura já é muito alta, mas com a radioterapia conseguimos empurrá-la ainda mais para perto de 100%.”

Apesar da necessidade do tratamento complementar, os médicos afirmam que o prognóstico é bastante favorável. “A chance de cura costuma ser altíssima, superior a 90%”, diz Guedes.

A técnica utilizada nesses casos geralmente é a radioterapia superficial, com feixes de elétrons que concentram a dose na pele e em tecidos rasos, poupando estruturas profundas.

“Hoje conseguimos fazer uma radioterapia muito superficial, sem atingir tecido cerebral ou regiões profundas, o que torna o procedimento bastante seguro”, explica Leite, do Icesp.

Segundo Ferreira, o esquema radioterápico adotado no caso de Lula é um hipofracionamento —doses um pouco maiores em menos sessões. “É um formato moderno, bem estabelecido, que reduz o tempo total de tratamento e facilita a rotina do paciente sem comprometer a eficácia.”

Por isso, os efeitos colaterais tendem a ser localizados e leves. Entre os mais comuns estão vermelhidão na área irradiada, irritação cutânea —conhecida como radiodermite— e queda temporária de cabelo na região tratada.

“É um tratamento bem tolerado. Os efeitos são predominantemente locais e, em geral, não impedem a rotina normal”, diz Guedes.

Ferreira afirma que também pode haver necessidade de cuidados extras com a pele irradiada para evitar irritação ou infecção local. Leite acrescenta que fadiga pode ocorrer, mas costuma ser discreta. “Se aparecer, é algo leve, praticamente imperceptível, sem impacto sobre as atividades diárias.”

A manutenção da agenda presidencial está em linha com esse perfil terapêutico, segundo os médicos.

Para Ferreira, o caso também ajuda a ampliar o debate sobre uma modalidade ainda pouco conhecida do público. “A radioterapia para tumores de pele tem baixa visibilidade, mas muitas vezes evita múltiplas cirurgias e preserva melhor a estética e a função. É importante que a população saiba que ela também é uma opção curativa.”

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