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Política & Poder

PT e PL ignoram legislação eleitoral e impulsionam críticas a opositores

Redação Jornal de Brasília

01/07/2026 6h02

Fotos: Evaristo Sá / AFP

Laura Scofield
Folhapress


O PL e o PT ignoraram regra da Justiça Eleitoral que proíbe o impulsionamento de críticas contra adversários nas redes sociais e pagaram pelo menos R$ 277 mil para ampliar o alcance de publicações com ataques a seus concorrentes. As postagens chegaram a mais de 39,1 milhões de impressões, como se chama o número de vezes que determinado conteúdo aparece na tela.

O PL chegou a impulsionar mais publicações para atacar Lula e o PT do que para promover a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Das 82 postagens patrocinadas no Facebook e Instagram de janeiro até o dia 24 de junho, 34 contêm críticas ao petista ou ao partido, o que representa 41% do total. Os anúncios buscam, por exemplo, vincular o PT ao escândalo do Banco Master.


Já o PT fez 76 anúncios contrários aos Bolsonaros. As críticas representam quase 18% das 429 publicações impulsionadas neste ano e abordam temas como a pressão do presidente americano, Donald Trump, contra o Brasil, articulada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

A lei e as resoluções eleitorais proíbem que conteúdo com críticas tenha o alcance turbinado durante a campanha e a pré-campanha. Os pré-candidatos podem fazer postagens contrárias aos opositores, mas não podem criar anúncios, ou seja, investir dinheiro para aumentar a entrega ao público.

O PT não impulsiona conteúdo negativo desde abril, priorizando a promoção de Lula. Já o PL veiculou propaganda desfavorável ao adversário até o último dia 21. No momento, nenhum deles está pagando para ampliar o alcance desse tipo de publicação. Os dados são da Biblioteca de Anúncios da Meta (empresa dona do Instagram, Facebook e WhatsApp).

Os gastos para fazer publicações críticas chegarem a um número maior de pessoas já motivaram ações judiciais de ambos os lados, com decisões do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para remoção dos conteúdos.

“Baseados em informações, fatos e dados concretos, inclusive em notícias”. O número divulgado pelo partido se refere às peças produzidas. É comum que uma mesma peça seja transformada em vários anúncios.

“O Partido dos Trabalhadores acata os entendimentos recentes do TSE e, a partir das liminares deferidas, define parâmetros de suas postagens em observância às decisões da corte eleitoral. As postagens citadas pelo TSE já estão expiradas e foram retiradas do ar espontaneamente”, afirmou a sigla.

O PL foi contatado por email e por WhatsApp da terça (23) até quinta-feira (25), mas não respondeu. Foram enviadas mensagens para a assessoria e para o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto.

A Meta enviou à Folha postagens institucionais dizendo que atua conforme a legislação.

Ao todo, os posts do PL com propaganda negativa alcançaram mais de 19,7 milhões de impressões a partir de um pagamento de R$ 132 mil, o que significa 35% do gasto total do partido com esse mecanismo. O valor pode ser maior, pois a Meta não informa o gasto exato.

Já os anúncios sobre a pré-candidatura presidencial geraram 9,4 milhões de impressões. Foram 15 posts pagos para promover Flávio e 12 para defender Jair Bolsonaro.

Entre os posts críticos, um dos mais recentes diz que a influenciadora e advogada Deolane Bezerra, que é ré sob a acusação de lavar dinheiro do PCC, é amiga de Lula.

O vídeo tem tom sombrio e mostra imagens de encontro entre os dois em 2022. “Você ainda acredita que esse governo vai combater as facções?”, pergunta.


A turbinada no alcance custou ao menos R$ 9.000 para o PL e levou a cerca de um milhão de impressões.

Há ainda outras 11 postagens que tentam vincular o governo Lula ao Banco Master. O PL gastou R$ 21,6 mil para impulsioná-las no fim de maio. Uma delas cita o ex-líder do governo no Senado Jaques Wagner (PT-BA), que foi alvo de operação da PF por suspeita ter recebido pagamentos do Master.

Outras duas postagens tentam ligar o presidente ao empresário conhecido como Careca do INSS, que está preso desde setembro por suspeitas de articular esquema de fraudes. O PL investiu ao menos R$ 35 mil nos posts.

Já o PT gastou pelo menos R$ 145 mil para fazer os posts críticos aos Bolsonaros alcançarem 19,4 milhões de impressões. A sigla priorizou a tentativa de vincular os adversários ao aumento dos preços dos combustíveis, o que motivou 27 dos 76 anúncios pagos neste ano.

“Antes da guerra, uma outra bomba tinha atingido o Brasil. Com o apoio do filho Flávio, Bolsonaro privatizou refinarias e a BR Distribuidora, dificultando o controle dos preços dos combustíveis”, diz uma das peças.

Quinze postagens do tipo foram retiradas pela Meta por serem consideradas ilegais, mas a empresa não explica a razão.

Outro foco do partido foi a relação entre os Bolsonaros e Trump. O PT patrocinou posts que chamam Flávio de “traidor da pátria” e “aliado” do presidente que quer “acabar com o Pix”. A legenda pagou R$ 35,6 mil no tema e gerou ao menos 4,7 milhões de impressões.

Também houve tentativas de ligar os adversários ao escândalo do Master. Um dos posts divulgou que Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, doou para a campanha de Bolsonaro em 2022.

“O patrocínio, se for a crítica, ainda mais se for uma crítica que possa ser entendida nesse sentido de ‘não vote’, não é algo que vem sendo tolerado, nem na pré-campanha e nem na campanha”, afirma a advogada eleitoral Gabriela Rollemberg.

Não há definição oficial de quando a pré-campanha começa, mas, de acordo com Rollemberg, todo o ano eleitoral costuma ser considerado como parte do período.

“Se houver uma reincidência, além de sanções pecuniárias, pode incorrer, a depender da quantidade e da dimensão, em abuso”, afirma a também advogada eleitoral Ana Carolina Clève.

As duas, entretanto, são contrárias à norma. Elas consideram que o impulsionamento de críticas, desde que baseadas em informações verdadeiras, deveria ser permitido para resguardar a liberdade de expressão.

No início deste ano, a Justiça Eleitoral discutiu permitir o impulsionamento de críticas contra o governo no período eleitoral. Sob o argumento de que a permissão geraria desequilíbrio na disputa, o PT pediu ao TSE que barrasse a alteração, o que foi aceito.

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