MARIANA BRASIL E CAIO SPECHOTO
FOLHAPRESS
Aliados do presidente Lula (PT) se dividem sobre os possíveis impactos eleitorais da investigação da Polícia Federal contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e monitoram mudanças na avaliação do petista nos próximos dias.
Na quinta (30), o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a abertura de inquérito contra ele, a pedido da corporação.
Como revelou a Folha, a solicitação da PF foi feita na última sexta (24) e distribuída na quarta (29) para Mendonça. Os investigadores querem apurar os crimes de corrupção e tráfico de influência em tentativas de obter autorização para a comercialização de cannabis medicinal no Ministério da Saúde.
Para integrantes da campanha e do governo, a abertura do inquérito deve ser usada pela oposição, mas ainda não é possível medir os exatos efeitos eleitorais.
Alguns dizem haver motivação política por parte de Mendonça –que foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro (PL) e autorizou a investigação– e poupam a PF, autora do pedido. Esses interlocutores usam o discurso de que o governo Lula deu autonomia e independência para a corporação realizar apurações.
O ministro do STF, porém, já teve sua atuação elogiada por parte do governo Lula após suas posturas na relatoria do caso Master. As investigações sobre a fraude financeira praticada pela instituição de Daniel Vorcaro já atingiram grandes nomes da oposição, como Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Ciro Nogueira (PP-PI), mas também o ex-líder do governo no Senado Jaques Wagner (PT-BA).
O caso de Lulinha ficou a cargo de Mendonça por sorteio. A princípio, o pedido de investigação da PF foi enviado para a presidência do STF pela avaliação de que os fatos não estavam relacionados à Operação Sem Desconto, que envolve fraudes no INSS e que está sob relatoria de Mendonça.
Posteriormente, a PGR (Procuradoria-Geral da República) entendeu que as informações não tinham relação com a operação, e houve sorteio de Mendonça como novo relator para o caso.
Há petistas que apoiam o trabalho do ministro e veem seriedade na sua atuação. Para esses interlocutores, não é possível afirmar que o ministro do STF faz perseguição contra o entorno de Lula e a abertura do inquérito seria parte da natureza do trabalho.
Dentro da equipe de campanha também há a avaliação de que o caso Lulinha pode trazer abalos ao eleitor fidelizado de Lula, assim como aos independentes.
Um auxiliar do governo afirma que o episódio só trará riscos à candidatura caso haja algum ponto mais comprometedor, como áudios, vídeos ou uma eventual prisão. Outro membro da equipe diz que, apesar de ser nova artilharia para a oposição, o caso não deve reverter o desempenho do petista nas pesquisas.
Na quinta, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda, Lula foi questionado se seria melhor que o filho se manifestasse, ao que o presidente negou, de forma breve. Ele disse ainda que não usará o cargo para proteger o filho.
“Se meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como filho de qualquer pessoa, como eu, será tratado. Não haverá nenhum privilégio. Eu jamais pedirei para um delegado ou para um juiz não fazer as coisas corretas”, disse. “Se ele estiver certo, ele vai ter ajuda minha, se fizer coisa errada, ele sabe o que eu passei”, disse. “Ele sabe, então ele não tem o direito de errar.”
Nas redes sociais, Flávio Bolsonaro já usou o caso para criticar diretamente o adversário. “Mesmo com toda a blindagem patrocinada pelo pai do Lulinha, a PF começou a investigar um ‘suposto’ caso de tráfico de influência no Ministério da Saúde,”
“Já imaginaram se fosse o filho do presidente Bolsonaro que fosse suspeito de receber dinheiro desviado dos aposentados do INSS?”, questionou, em vídeo.
Outros nomes da oposição, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o senador Rogério Marinho (PL-RN), também se manifestaram sobre o caso. “Filho de Lula, Lulinha é”, escreveu Nikolas.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, membro da equipe de campanha do presidente e advogado de Lulinha, diz que o presidente sempre defendeu a autonomia da Polícia Federal e que a abertura de inquérito tem motivações políticas.
“É um alerta para que a polícia use essa independência e autonomia com responsabilidade. Esse inquérito é um absurdo, é uma peça de ficção”, diz. “Se o Fábio não fosse filho do presidente Lula, provavelmente esse inquérito não teria sido instaurado e o anterior já teria sido arquivado.”
O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, escreveu em suas redes que acusações contra Lulinha costumam surgir em períodos eleitorais e comparou as posturas de Lula e Bolsonaro frente a investigações envolvendo os filhos.
“Quando era presidente, Bolsonaro reuniu todo o governo no Palácio do Planalto para avisar que mudaria delegado, superintendente e ministro para não deixar Flávio ser investigado. Essa é uma diferença gigantesca e a sociedade brasileira sabe que a Polícia Federal e a Justiça têm a necessária autonomia para trabalhar nos nossos governos. Com os Bolsonaros não”, disse.
PT e governo preveem artilharia, mas se dividem sobre dano eleitoral de inquérito contra Lulinha
Para integrantes da campanha e do governo, a abertura do inquérito deve ser usada pela oposição, mas ainda não é possível medir os exatos efeitos eleitorais
Foto: Reprodução