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Presidente da Caixa investe em agenda positiva e quer se viabilizar como vice de Bolsonaro

O executivo sempre negou interesse em ingressar na política e se diz concentrado na transformação do banco

O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, durante entrevista coletiva para apresentar detalhes da campanha de renegociação de dívidas “Você no Azul”.

Julio Wiziack e Bernardo Caram
Brasília, DF

A atual gestão da Caixa Econômica Federal, que só entrega boas notícias para Jair Bolsonaro no momento em que sua popularidade está em franca decadência, levou o presidente do banco, Pedro Guimarães, a se colocar na disputa pela vaga de vice na chapa que disputará a reeleição em 2022.

Assessores do Palácio do Planalto e pessoas próximas ao executivo afirmam que, desde o início da pandemia —quando a Caixa passou a operar o pagamento do auxílio emergencial por um aplicativo—, Guimarães vislumbra a possibilidade de ingressar na vida política.

O executivo sempre negou interesse em ingressar na política e se diz concentrado na transformação do banco. Consultado, não respondeu até a publicação desta reportagem.

A ideia ganhou força recentemente, depois que Bolsonaro pediu ao ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, que seja seu candidato ao governo de São Paulo. O grupo político que atua com o presidente cogitava o ministro como possível vice.

O ministro das Comunicações, deputado Fábio Faria, também é considerado, mas ele pretende se lançar ao Senado.

Oficialmente, ninguém afirma que tem aspiração política no momento. Tarcísio e Faria se dizem comprometidos com a agenda de projetos de suas pastas.

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Nos bastidores, no entanto, as conversas entre aliados de Bolsonaro ocorrem em ritmo acelerado. A aspiração política de Guimarães vem crescendo no mesmo ritmo dos anúncios feitos pelo banco, segundo assessores do Planalto.

Nesta quinta-feira (16), a Caixa anunciou uma redução na taxa de juros do crédito imobiliário.

Segundo Guimarães, a modalidade atualizada de linha de crédito contará com taxas a partir de 2,95% ao ano, mais a remuneração da poupança, o que representa uma queda de 0,4 ponto percentual em relação às taxas hoje vigentes.

Analistas de crédito afirmam que a medida é populista porque, com a tendência de alta da Selic (taxa básica de juros da economia), esse aumento de custo terá de ser repassado para o tomador de crédito. A Selic hoje está em 5,25% ao ano.

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Isso porque o rendimento da poupança equivale a 70% da Selic mais a TR (Taxa Referencial, hoje zerada), sempre que a taxa básica estiver em até 8,5% ao ano. Se a Selic subir, a poupança também sobe, impactando a taxa do crédito imobiliário.

O corte nos juros dos empréstimos habitacionais da Caixa surgiu no momento em que o governo tenta quebrar a resistência do Congresso para permitir parcelamento no pagamento de precatórios (títulos de dívida da União) como forma de deixar mais recursos no caixa para financiar o Auxílio Brasil, programa social que vai substituir o Bolsa Família.

A ideia de Bolsonaro é que, politicamente, o novo programa sirva para atrair eleitores, especialmente no Norte e Nordeste, com mais pessoas vulneráveis e dependentes desse socorro.

Enquanto discute com o Congresso, o governo achou melhor elevar o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para viabilizar o lançamento do programa, que, assim, já teria recursos disponíveis neste ano.

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Como o clima político no Congresso contra Bolsonaro vem levando o governo a sucessivas derrotas, Guimarães, ainda segundo assessores do Planalto, decidiu cortar os juros, uma forma de compensar pelo revés da alta dos juros e do aumento do IOF, que também será pago pelos mais pobres.

No anúncio, o executivo explicou que a medida é uma consequência de sua gestão à frente do banco, que registrou um lucro recorde.

“Não está aumentando a Selic [taxa básica de juros da economia]? Então a Caixa, com o lucro que nunca teve, sem roubar, vai diminuir os juros da casa própria.”

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Nas contas oficiais da Caixa em redes sociais, são comuns as publicações que destacam a atuação do presidente do banco, com imagens e textos de suas declarações, viagens, aparições em agências bancárias e vistorias em obras, além de outras atividades inusitadas.

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O banco já publicou, por exemplo, fotos do executivo dentro do lixão de Cuiabá e sujo de lama dentro de um mangue na Bahia, acompanhado de pescadores.

Entre as dezenas de viagens, o presidente da Caixa também inaugurou empreendimentos de infraestrutura, participou de apresentações musicais e visitou empresas.

As visitas comandadas por Guimarães fazem parte de um projeto batizado de Caixa Mais Brasil, similar ao slogan “mais Brasil, menos Brasília” usado por Bolsonaro. Até este mês, foram 114 edições do projeto, com mais de 150 municípios visitados.

Na marca de 100 edições, a Caixa informou em nota que o objetivo das viagens é permitir aproximação com a realidade do país, apoiar os mais carentes, reduzir taxas de juros e focar em habitação social e pequenas empresas.

Guimarães também é presença corriqueira nas lives das quintas-feiras organizadas por Bolsonaro. Em uma delas afirmou ter 14 armas, defendendo o porte, uma das bandeiras de Bolsonaro.

A frequência do executivo nas lives presidenciais destoa das participações do ministro Paulo Guedes (Economia), que raramente acompanha Bolsonaro nas transmissões, e se equipara somente à de Tarcísio.

A maior defesa do governo, no entanto, veio no fim de agosto, quando Guimarães ameaçou tirar a Caixa da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) após a entidade decidir apoiar um manifesto para pedir harmonia entre os Poderes no momento em que Bolsonaro estimulava a população a fazer manifestações de cunho golpista no 7 de Setembro. O banco público segue na entidade.

De acordo com membros do Ministério da Economia, a rebelião teria sido liderada por Guimarães. Para auxiliares de Guedes, o objetivo do presidente da Caixa seria agradar a Bolsonaro e demonstrar alinhamento incondicional.

Em tom de brincadeira, o próprio Guedes chegou a afirmar, em maio deste ano, que Guimarães seria cotado para o posto de vice.

A ameaça à Febraban foi interpretada pela equipe econômica como um erro estratégico. A avaliação é que a carta tinha conteúdo inofensivo e não teria grande repercussão, não fosse o barulho provocado pelos bancos públicos com o auxílio de Guimarães.

O executivo, no entanto, avaliou que não poderia assinar um documento com críticas ao controlador.

Diante da resistência da diretoria da Febraban em aprovar um documento com assinatura individual de todos os bancos —exceto Caixa e BB—, ele teria feito a ameaça de deixar a entidade.

Meses antes, a Caixa lançou um programa de financiamento imobiliário destinado a militares de patentes inferiores com juros subsidiados. A medida, estendida para policiais nos estados, agradou a essa ala, importante base de Bolsonaro.

Apesar da disposição pessoal de Guimarães, o núcleo político próximo a Bolsonaro avalia que as chances do executivo são muito remotas.

Diante do cenário político atual e da franca erosão da popularidade de Bolsonaro —segundo pesquisa Datafolha, a rejeição do presidente saltou para 53%—, os assessores do Planalto consideram que o presidente precisará de um vice ligado a um partido forte e que esse nome vai depender do panorama do próximo ano, quando ficará mais claro quem estará na disputa.

ENTREGAS DA CAIXA

  • 12 de maio
    Pedro Guimarães assina, ao lado de Bolsonaro, adesão ao programa Adote um Parque, com investimento de R$ 150 milhões em preservação ambiental e plantio de árvores
  • 18 de maio
    Caixa anuncia condições especiais de financiamento para caminhoneiros, que ameaçam com paralisações no país por causa do preço dos combustíveis
  • 19 de junho
    Banco destina 400 toneladas de alimentos arrecadados para o programa Pátria Voluntária, coordenado pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro
  • 20 de julho
    Caixa anuncia abertura de 268 novas agências, movimento contrário ao adotado pelo Banco do Brasil, que está enxugando operações
  • 19 de julho
    Banco anuncia contratação de 10 mil novos colaboradores, entre empregados, estagiários e aprendizes
  • 13 de agosto
    Governo e Caixa entregam 2.800 unidades habitacionais do Casa Verde e Amarela
  • 19 de agosto
    Caixa anuncia lucro líquido de R$ 10,8 bilhões no primeiro semestre de 2021, recorde histórico
  • 13 de setembro
    Governo e Caixa anunciam programa habitacional para profissionais da segurança pública com subsídio de R$ 100 milhões
  • 16 de setembro
    Caixa anuncia redução de taxas de juros para financiamentos imobiliários, na contramão do movimento de alta feito pelos bancos concorrentes








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