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Política & Poder

PF expõe extensão de elo entre Ciro e Vorcaro; pai de banqueiro segue preso

Horas antes do julgamento, o ministro do Supremo André Mendonça, relator do caso, decidiu retirar o sigilo de relatório da Polícia Federal

Redação Jornal de Brasília

16/06/2026 20h38

Atualizada 17/06/2026 5h47

ciro nogueira

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Brasília, 16 – A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) manteve ontem a prisão de Felipe Cançado Vorcaro e Henrique Moura Vorcaro, primo e pai do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, respectivamente, em sessão marcada por divergências. Horas antes do julgamento, o ministro do Supremo André Mendonça, relator do caso, decidiu retirar o sigilo de relatório da Polícia Federal que expôs as conexões entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Vorcaro.

Os investigadores chegaram a fazer um powerpoint para detalhar a relação entre uma das empresas do senador e Vorcaro. A CNLF Empreendimentos Imobiliários seria o “eixo material” das “vantagens indevidas” recebidas pelo parlamentar de Vorcaro. Também foram identificados pagamentos de cerca de R$ 500 mil em viagens ao senador ao exterior.

A CNLF, segundo os investigadores, movimentou R$ 20 milhões em um ano, mas declarou apenas R$ 832 mil de faturamento à Receita Federal no mesmo período. A análise da PF foi feita a partir de um Relatório de Informação Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF). O órgão identificou 350 comunicações contendo operações suspeitas envolvendo Ciro, Eliane e Silva Nogueira Lima (sua mãe), Iracema Maria Portella Nunes Nogueira Lima (sua ex-mulher), a CNLF e a Ciro Nogueira Comercio de Motocicletas LTDA, empresa da qual o senador também é sócio. Procurado, senador ainda não se manifestou.

Os dados coletados pelo COAF abrangem o período de nove anos (2016-2025), mas os principais achados se concentram entre agosto de 2023 e agosto de 2024, quando a CNLF teria servido para escamotear valores recebidos por Ciro das mãos de Vorcaro.

O relatório produzido pela PF afirma que a empresa do senador recebeu R$ 902 mil da BRGD S.A – empresa cujo único sócio é Marcelo Tavares Faria, mas que, na avaliação dos investigadores, era operada secretamente por Vorcaro e seu primo, Felipe Vorcaro, para realizar pagamentos a aliados.

Diálogos entre Vorcaro e Felipe interceptados pela PF revelam ordens do banqueiro para que fossem realizados pagamentos mensais de R$ 300 mil a Ciro a título da “parceria BRGD/CNFL”. “Assim, o RIF materializa financeiramente a hipótese de ‘mesada’ já delineada na IPJ supramencionada: BRGD ? CNLF ? beneficiário final”, diz a PF.

“À luz desse contexto, mostra-se tecnicamente plausível inferir que o pagamento mensal discutido entre FELIPE e DANIEL – denominado “mesada” – guarda relação direta com o repasse de R$ 902.128,70 efetuado pela BRGD em favor da CNLF, na medida em que se verifica convergência temporal entre o período da comunicação financeira (15/08/2023 a 04/08/2024) e o início dos pagamentos”, afirma o relatório.

A investigação identificou pagamento de R$ 468,7 mil em despesas de Ciro Nogueira, em locais como Paris, Nova York e Courchevel, estação de esqui nos Alpes Franceses. Em troca, aponta a PF, ele teria apresentado projetos de lei para favorecer os interesses do dono do BaMaster.

“Conclui-se que o benefício econômico direto atribuído a CIRO NOGUEIRA, decorrente das viagens internacionais examinadas no subtópico 5.3.4, perfaz o montante de R$ 468.721,78, sem considerar os gastos com voos privados, realizados em ao menos três oportunidades em deslocamentos internacionais de entrada e saída do Brasil, bem como em duas ocasiões em voos internos nos Estados Unidos”, diz o relatório da PF.

JULGAMENTO

O ministro André Mendonça, que havia determinado medidas cautelares contra os réus em maio, defendeu, no julgamento de ontem a manutenção da prisão do primo e do pai de Vorcaro. O ministro Gilmar Mendes, que havia pedido vistas do processo por entender que o não teve acesso integral às informações do caso, defendeu a flexibilização das cautelares, com domiciliar para Henrique e soltura de Felipe. O ministro Nunes Marques, que estava inclinado a votar contra as cautelares, também optou pela manutenção da prisão.

O tom do debate na Corte foi duro. Gilmar chegou a comparar a manutenção da prisão dos parentes dos envolvidos com o modelo de cautelares aplicados n a Lava Jato. Na avaliação dele, a prisão preventiva dos réus poderá servir como forma de pressioná-los a firmar acordo de delação premiada. Ele foi vencido pelo restante dos magistrados, que decidiram manter os réus presos. O resultado da votação foi 3 a 1.

‘CONTORNOS DE MÁFIA’

“Não estamos falando de Lava Jato, ministro Gilmar”, disse Mendonça, destacando que o caso trata de uma atuação semelhante a da máfia porque envolve até ameaça de morte a pessoas. “Aqui, á contornos de máfia. há contornos de crime organizado mafioso, de fuzis, de metralhadoras, de armas raspadas, de infiltração no sistema policial”, disse.

Mendonça defendeu a manutenção das cautelares e lembrou dos indícios de condutas violentas de grupo que agia a mando de Vorcaro. “O pai de Vorcaro também era presidente da Multipar, empresa que, de 2020 a 2025, movimentou mais de R$ 1 bilhão entre contas ligadas ao banqueiro, de acordo o Coaf. Segundo o órgão, as operações indicam tentativa de ocultação de patrimônio

O primo de Vorcaro, Felipe, faz parte do que a PF considera o núcleo financeiro-operacional do grupo criminoso comandado pelo banqueiro. Já Henrique, coordenava o grupo batizado de “A Turma”, que organizava ações violentas para intimidar adversários do banqueiro. De acordo com a PF, seus integrantes mantiveram as atividades criminosas mesmo após a deflagração da força-tarefa que apura ilícitos relacionados ao Master.

LISBOA

Além de Ciro Nogueira, outro beneficiado pelas viagens pagas por Vorcaro foi o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos). Segundo a PF, ambos foram a Lisboa custeados pelo banqueiro.

As informações foram obtidas pelos investigadores no celular do dono do Master e foram enviadas ao Supremo dentro da mesma operação que realizou busca e apreensão contra Ciro Nogueira. Motta não foi alvo de nenhuma diligência na ocasião. A defesa de Vorcaro e os parlamentares não se manifestaram ontem.

O período da reserva coincidia com a realização, na capital portuguesa, de um fórum jurídico organizado todo ano pelo ministro Gilmar Mendes, conhecido como Gilmarpalooza.

“No dia 18/06/2024, DANIEL BUENO VORCARO informou que necessitaria de reservas de hotel em LISBOA, no período de segunda-feira a sábado, para ele próprio E para “Ciro e Hugo”. Conforme se verifica adiante na mesma conversa, os nomes mencionados referem-se, respectivamente, a CIRO NOGUEIRA e HUGO MOTTA”, diz a PF.

De acordo com a PF, o custo total para cada um seria de cerca de R$ 90 mil, com base na cotação do euro da época.

Estadão Conteúdo

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