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Política & Poder

‘Os governos de esquerda na América Latina estão com as mãos atadas’, diz cientista político

Para o analista Christopher Garman, da consultoria Eurasia, o cenário regional e global dificulta o cumprimento de promessas de campanha e afeta a popularidade dos governantes

Redação Jornal de Brasília

18/08/2022 6h10

Foto: John Burwel / Divulgação

O cientista político Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da Eurasia, uma consultoria internacional especializada em avaliação de riscos, tem um índice de acerto respeitável em suas previsões. Em 2018, seis meses antes das eleições, Garman foi um dos poucos entre seus pares a afirmar que Bolsonaro tinha grandes chances de ir para o segundo turno e vencer o pleito. Em 2014, logo depois das eleições, ele antecipou que a então presidente Dilma Rousseff seria atingida ´por uma “tempestade perfeita”, formada por um governo com sustentação política limitada e baixa credibilidade perante o mercado, um escândalo de corrupção bilionário, como o petrolão, e um quadro econômico complicado. Deu no que deu.

Nesta entrevista, ele fala sobre o avanço das esquerdas na América Latina, tema de uma série de reportagens especiais lançada pelo Estadão. Segundo Garman, o que está levando a esquerda a vitórias em série na região não é uma guinada ideológica dos eleitores, como dizem por aí políticos e militantes do grupo, mas “um profundo sentimento desencanto com o sistema e de revolta contra o status quo”.

Desta vez, na avaliação de Garman, os governantes de esquerda latino-americanos deverão um cenário econômico e político regional e global bem mais hostil do que na primeira onda de governos de esquerda na região, que aconteceu em meio ao chamado “boom das commodities”, entre o início dos anos 2000 e meados da década passada. “Os governos de esquerda na América Latina estão com as mãos atadas”, afirma. “Hoje, o potencial de estrago da esquerda está mais limitado, porque eles não vão ter a capacidade de encaminhar medidas mais ambiciosas, até porque muitas vezes não têm apoio parlamentar para isso.”

Como o sr. analisa a atual onda de governos de esquerda na América Latina? O que está levando a esta guinada para a esquerda na região?

Eu acredito que isto não está acontecendo por causa de uma predisposição dos eleitores em favor de plataformas de esquerda. É um movimento de revolta contra o status quo. A América Latina está vivendo um momento muito difícil para qualquer governante. Este é o pano de fundo que a gente tem de reconhecer. É algo que já estava ocorrendo antes da pandemia e foi exacerbado no pós-pandemia. Quando a gente olha as pesquisas, a América Latina, a América Latina aparece no topo do ranking global de desencanto. A geologia da opinião pública está podre. Estamos vivendo um ambiente de uma revolta muito grande com a qualidade dos serviços públicos, com a falta de confiança no sistema visto de forma mais ampla. A confiança nas lideranças políticas, nos partidos, no Judiciário, na mídia, está num nível muito baixo na região.

Na sua avaliação, a que se deve este alto grau de desencanto na América Latina?

Este fenômeno é fruto de uma expansão brutal da classe média durante o período da alta dos preços das commodities, do início dos anos 2000 até 2011, 2012. Nesse período, houve uma ascensão econômica muito importante, em que milhões de famílias saíram da pobreza. Isso levou a uma mudança nas demandas eleitorais. A preocupação passou a ser mais a segurança, a saúde, a educação, e o eleitor associou a corrupção à má qualidade dos serviços públicos. Antes da pandemia, a corrupção se tornou o primeiro ou segundo tema mais relevante no Brasil, no Chile, na Colômbia, no México, no Peru, e houve esse descrédito total. No fundo, o que a gente está vendo é uma combinação deste choque de falta de confiança e de demandas de uma nova classe média que são difíceis de entregar num contexto de crescimento econômico mais baixo.

Como a pandemia se encaixa neste cenário?

A pandemia pegou a América Latina, em termos epidemiológicos, de forma mais forte do que outras regiões. Então houve uma queda mais acentuada do PIB (Produto Interno Bruto), a desigualdade de renda aumentou e a capacidade de os governos entregarem essas demandas caiu. Isso exacerbou esse mal estar. Para completar, veio o choque de inflação global que reforçou a queda de renda das famílias mais pobres. Este é o caldeirão de revolta que está elegendo a esquerda na região. Então, como disse há pouco, é um movimento mais contra o status quo e não a favor da esquerda. Como mais governos de direita e de centro estavam no poder, eles estão sentindo mais. A esquerda estava mais bem posicionada para navegar nesta onda de revolta.

Alguns analistas dizem que a gestão da pandemia também está influenciando o comportamento dos eleitores na América Latina. Como o sr. avalia isto?

Esta tese não tem base na realidade. Quais as duas lideranças que manejaram a covid da pior forma na região? O (presidente Jair) Bolsonaro, no Brasil, e o (presidente) Manuel López Obrador, no México. Só que eles terminaram a pandemia com uma taxa de aprovação maior do que as do (ex-presidente colombiano) Iván Duque, do (ex-presidente chileno) Sebastián Piñera, e do que Alberto Fernández, na Argentina. Eles fizeram tudo certinho na covid e terminaram em pior situação do que os governantes que adotaram, digamos assim, o “receituário errado”. Por que? Porque o Bolsonaro e o Obrador têm credenciais de liderança contra o sistema. Isto é um ativo no cenário atual e explica por que o Bolsonaro ainda tem uma chance na disputa presidencial, a despeito da má gestão da pandemia e de ter havido uma queda de renda de 6% nesse período.

Que impacto tudo isto está tendo nas eleições na região?

Isto está levando à vitória candidaturas que são contra o sistema. Foi assim que o (presidente) Manuel López Obrador, um candidato da esquerda, que se posicionou contra o sistema, foi eleito conseguiu se eleger no México. Foi assim também que o Gustavo Petro se elegeu na Colômbia. Pela primeira vez, um candidato de esquerda ganhou as eleições para presidente no país. No Chile, aconteceu algo parecido. Com a fragmentação da direita no primeiro turno, a disputa no segundo turno ficou entre candidaturas de extrema direita e de esquerda. O (presidente Gabriel) Boric, que também se posicionou contra o sistema, ganhou as eleições. O próprio Bolsonaro já foi eleito neste cenário. Por isso, discordo da ideia de que a eleição de 2018 foi atípica no Brasil e que agora nós vamos voltar para a valorização da experiência administrativa, para o político mais tradicional. É um diagnóstico totalmente equivocado. O desencanto agora piorou e não melhorou. É isto que explica a existência de duas candidaturas com credenciais contra o sistema no País. Uma parte dos eleitores acredita que o Lula foi colocado na prisão porque os ricos e poderosos queriam impedi-lo de atender os pobres e pelo lado da direita o Bolsonaro é visto como um outsider que enfrenta o establishment.

Em que medida esta nova onda de esquerda na América Latina é diferente da onda que se propagou pela região do início dos anos 2000 até meados da década passada?

O quadro atual é muito diferente do que havia na onda de esquerda anterior. A primeira onda coincidiu com o boom das commodities e aconteceu em meio a um superciclo econômico e político que proporcionou uma abundância de recursos e levou a taxas de aprovação muito elevadas dos governantes. Isso gerou um período longo de permanência deles no poder. Houve espaço para ter a política do governo Lula 2, da Dilma, do kirschnerismo, e assim por diante. Agora, este ambiente de desencanto vai impactar a esquerda politicamente. Os governantes vão ter uma lua de mel curta e uma taxa de aprovação popular estruturalmente baixa. A capacidade de governar vai ser difícil. Acredito que a capacidade de os governantes se reelegerem também deve diminuir estruturalmente.

O sr. pode dar um exemplo concreto de como isto está acontecendo?

O caso do Chile ilustra bem este fenômeno. A lua de mel do Boric foi muito curta. Com menos de seis meses de governo, sua aprovação já caiu para cerca de 30%, de acordo com as pesquisas mais recentes. Está mais baixa do que a do Bolsonaro no Brasil. A aprovação do Bolsonaro hoje está em 39%. Na minha visão, o (presidente Gustavo) Petro, da Colômbia, deve seguir o mesmo caminho do Boric. No Peru, com o (presidente) Pedro Castillo, está ocorrendo algo semelhante, embora lá sempre haja governos fracos. Então, não é algo tão fora do padrão. Na Argentina, também, a gente está vendo isto acontecer com o Alberto Fernández, que não deverá ser reeleito em 2023. O kirchnerismo dificilmente vai sobreviver às próximas eleições.

Agora, hoje, com a guerra na Ucrânia e a própria pandemia, está ocorrendo uma alta dos preços das commodities como a que houve na primeira onde de governos de esquerda na América Latina. Isto não pode ter novamente um impacto positivo para os atuais governantes?

Sim, isto ajuda o governo do lado da arrecadação. Mas, em termos de trocas, não está ajudando muito, porque os preços das importações, especialmente de insumos, também subiram muito. Há um ambiente de preços de commodities elevados, mas a renda caiu de forma brutal no Brasil e em outros países. A sensação de bem estar econômico não está acompanhando este ciclo de commodities. Os ganhos políticos, portanto, não são os mesmos que os da primeira onda. Além disso, há também um cenário de recessão nos Estados Unidos e isso deverá conter esta alta das commodities. O cenário global em 2023 tende a ser mais difícil. Todos países da América Latina tiveram de aumentar os juros para tentar controlar a inflação. A conta vai chegar nos próximos 12 meses. Eu diria, então, que os mesmos fatores que estão levando a esquerda a ganhar as eleições vão dificultar a capacidade de eles governarem e colocar restrições no que podem entregar e fazer, para o bem e para o mal. Por isso, estruturalmente, os riscos representados pela chegada da esquerda ao poder estão menores hoje do que 14 anos atrás.

Na primeira onda, ficou um saldo muito negativo na economia, apesar de os governantes na época terem se beneficiado do boom de commodities. Que efeito estes novos líderes de esquerda que chegaram ao poder poderão ter para a América Latina do ponto de vista econômico e político?

Num contexto econômico mais desafiador, particularmente em relação ao risco de uma recessão americana, na Europa, e à desaceleração da China, é claro que os preços de commodities podem ajudar. Mas quando você coloca propostas de mais gastos, aumento de tributos agressivo, como o Chile e a Colômbia, gera mais incerteza na gestão macroeconômica, na estrutura tributária. Você acaba tendo um mix de política econômica que compromete a confiança do setor privado e exacerba dificuldades políticas.

É só olhar o segundo governo da Michelle Bachelet (2006-2010 e 2014-2018), que é um indicador prévio da região, porque o Chile tem uma classe média mais robusta e viveu todo este ciclo mais cedo. A Michelle Bachelet disse que ia aumentar a tributação em 3% do PIB e foi um choque que impactou o investimento, a economia sofreu. Ela tentou rever parcialmente a medida, mas o estrago já estava feito. Com todas as demais variáveis constantes, acho que uma taxa de crescimento menor deverá exacerbar esse pano de fundo político. Agora, hoje, o potencial de estrago da esquerda está mais limitado, porque eles não vão ter a capacidade de se reeleger, de encaminhar medidas mais ambiciosas, até porque muitas vezes não tem apoio parlamentar. Os governos de esquerda estão com as mãos atadas.

No Chile e na Colômbia, não têm. No Peru, o (presidente Pedro) Castillo não parece que vai sobreviver ao mandato. Na Argentina, é uma crise atrás da outra. No Brasil, se o (ex-presidente) Lula vencer as eleições, também não terá maioria só com a esquerda e vai ter de compor com o centro. Então, é uma esquerda com mais restrições. Os governos de esquerda estão com as mãos atadas.

Para finalizar, qual deve ser o papel do Lula, caso ele seja eleito no Brasil, nesta onda de esquerda latino-americana?

Por ser maior economia da América Latina, o Brasil tem protagonismo maior. O Lula vai focar no Mercosul, enquanto o Bolsonaro estava olhando mais para fora. A soft diplomacy da agenda sul-sul vai estar forte. Dentro da região, também. Com a esquerda no governo, haverá uma aproximação maior da América Latina em relação à China. Mas sem necessariamente fechar as portas para os Estados Unidos e a Europa. Agora, em relação a acordos, negociações comerciais, sou um pouco mais cético. O movimento de enfraquecimento do Mercosul pode ter um refluxo. O Lula tem esse “espírito de corpo” em relação à esquerda, mas também tem uma simpatia pelo Biden. Ao menos é o que eu escuto de lideranças petistas. Outro ponto importante é que, hoje, as lideranças latino-americanas, como o Boric, no Chile, estão incorporando mais na agenda os temas ambientais. Isso é interessante. O Lula está encampando mais as pautas ambientais do que o PT encampava no passado. O Petro, na Colômbia, é um animal distinto. É um pouco mais nacionalista, com pitada ambiental mais forte. Olhando para onde está indo a economia nos países industrializados, não deixa de ser algo interessante. Mas é claro que, assim como a questão identitária, não não são pautas que têm muito eco na opinião pública.

Estadão Conteúdo

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