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Mulheres são apenas 1 em cada 7 pré-candidatos a governos estaduais

Os partidos têm adotado postura menos aberta à diversidade de gênero na definição de candidaturas nos estados

Por FolhaPress 16/05/2022 8h28

Victoria Azevedo e João Pedro Pitombo
São Paulo, SP e Salvador, BA

Em uma eleição que será marcada pela polarização e pelo forte enfrentamento entre lulistas e bolsonaristas, os partidos têm adotado postura menos aberta à diversidade de gênero na definição de candidaturas nos estados.

Mulheres são apenas 1 em cada 7 pré-candidatos a governos estaduais, segundo levantamento feito pela Folha. O percentual é inferior ao registrado nas eleições de 2018 e poderá ser ainda menor, já que parte delas ainda não foi referendada por seus partidos.

Até agora, 22 mulheres se lançaram pré-candidatas a governos estaduais em um total de ao menos 161 nomes que devem concorrer aos governos dos 26 estados e Distrito Federal —o equivalente a 14%.

Em 2018, esse percentual chegou a 15% com 30 candidaturas femininas. Quatro anos antes foram 20 candidatas mulheres, representando 11% do total de postulantes a governos estaduais.

Apenas seis estados brasileiros já elegeram mulheres governadoras: Rio de Janeiro, Pará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Roraima.

O Rio Grande do Norte é o recordista nesse quesito: foram três governadoras desde a redemocratização. A última delas foi a atual governadora Fátima Bezerra (PT), única mulher eleita para um governo estadual em 2018.

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Ela vai concorrer a um novo mandato em outubro e tentar repetir o feito de ser reeleita para um governo estadual, que só foi alcançado por duas mulheres no Brasil: Roseana Sarney, no Maranhão, e Wilma de Faria, no Rio Grande do Norte.

Fátima Bezerra vai para a disputa na condição de favorita, mas avalia o momento como de maior dificuldade para as mulheres.

Ela diz que a ascensão do presidente Jair Bolsonaro (PL) —que, em sua avaliação, comanda “um governo federal de perfil machista e misógino”— resultou em retrocessos em todos os espaços de atuação e participação feminina.

“Voltamos algumas casas nas nossas conquistas quando atravessamos períodos em que até mesmo a nossa existência é ameaçada por discursos de ódio e de violência e por políticas públicas facilitadoras da barbárie”, afirma.

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Outras duas mulheres assumiram os governos estaduais em abril deste ano com a renúncia dos titulares para as eleições, mas não há garantia de continuidade.

No Piauí, a governadora Regina Sousa (PT), que assumiu o posto de Wellington Dias (PT), diz que não pleiteou disputar a sucessão por questões de saúde.

A governadora do Ceará, Izolda Cela (PDT), tenta se viabilizar para a sucessão, mas enfrenta concorrência interna de outros três nomes —todos homens— do seu partido, que também são pré-candidatos ao governo. A escolha deve acontecer em julho.

Estado nunca comandado por uma mulher, Pernambuco vive a situação inédita de ter duas mulheres liderando as pesquisas para o governo: a deputada federal Marília Arraes (Solidariedade) e a ex-prefeita de Caruaru Raquel Lyra (PSDB).

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Marília Arraes, que teve que deixar o PT para viabilizar sua candidatura ao governo, classifica a política como um espaço ainda hostil às mulheres, que disputam em condição desigual no acesso aos recursos de financiamento e tempo de televisão.

Isso porque, na visão da deputada, a política ainda é um espaço majoritariamente masculino –pensado e ocupado por homens. “O meu partido está me tratando como prioridade e me dando esse espaço, mas isso é uma exceção na conjuntura partidária do Brasil.”

A parlamentar reconhece que, apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, ainda há “um caminho muito longo pela frente”.

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Raquel Lyra, que foi a primeira mulher a ser eleita prefeita de Caruaru, agora tenta ser a primeira governadora de Pernambuco. Ela destaca a maior presença feminina na eleição majoritária como um marco para o estado.

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Por outro lado, também avalia que o avanço das mulheres é brecado pelas instâncias decisórias dos partidos. Quanto mais importante é o cargo, maior é o desafio para a consolidação de candidaturas femininas.

“O desafio é garantir candidaturas que sejam viáveis. Não é fácil se manter de pé, a caminhada para a mulher é sempre difícil”, afirma.

Em 2018, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) definiu que ao menos 30% do fundo público de financiamento de campanhas, o chamado fundo eleitoral, devem ir para candidaturas femininas.

Cabe aos partidos decidir quais candidaturas serão beneficiadas com os recursos para candidaturas de mulheres, o que inclui candidaturas majoritárias com homens como cabeça de chapa e mulheres como candidatas a vice.

Com isso, o número de mulheres candidatas a vice cresceu tanto na disputa presidencial quanto nos estados.

Em 2019, a Folha revelou a existência esquemas de candidaturas laranjas nos estados de Pernambuco e Minas Gerais, com suspeitas de desvios de recursos que deveriam financiar candidaturas de mulheres.

Pelo cenário das pré-candidaturas desenhado até o momento, apenas 14 das 27 unidades da federação terão mulheres como candidatas a governadoras. Mas são poucas que serão uma prioridade de seus partidos em nível nacional.

A deputada federal Rose Modesto (União Brasil) é pré-candidata ao Governo do Mato Grosso do Sul —a última vez que uma mulher concorreu a esse cargo no estado foi em 2002.

A parlamentar reforça que as legendas ainda investem pouco em mulheres para cargos do Executivo. “Sempre olham para as mulheres como ‘uma boa vice’. Estamos sempre nesse lugar.”

Ela diz ainda que seu partido enfrentou pressão de outras legendas para desistir de lançar seu nome e formar alianças locais. “Eles enxergaram em mim o potencial e analisaram a minha candidatura pelo critério de quem tem condição de disputar, não se é homem ou mulher.”

Para Flávia Biroli, professora do Instituto de Ciência Política da UnB, uma hipótese que pode ajudar a explicar a baixa representatividade feminina que se desenha para 2022 é, justamente, a atuação dos partidos políticos e de seus dirigentes.

“Sem a existência de uma legislação que exija que os partidos abram espaço para as mulheres, enxergamos que a roda segue girando do jeito que está azeitada. Ou seja, é mantido o controle dos homens sobre os recursos partidários, o que inclui o direito de candidatura, que segue produzindo esse desequilíbrio muito grande.”

Para ela, também há uma reação “silenciosa, embora com efeito forte” dentro das próprias legendas à pressão cada vez mais crescente por participação das mulheres na política, no sentido de “uma reafirmação do controle masculino nos partidos”.

Além disso, Biroli destaca o que considera “desmantelamento de políticas públicas para mulheres” no governo de Jair Bolsonaro e a violência política contra as candidatas —​o que pode contribuir para a diminuição da participação das mulheres.

Ao todo, dez partidos devem lançar candidatas mulheres a governos estaduais: PSOL, PDT, PT, MDB, PSDB, PSB, União Brasil, Solidariedade, PMB e PCB.

Para o Palácio do Planalto, o MDB lançou a senadora Simone Tebet (MS), e há outras duas postulantes mulheres: Vera Lucia (PSTU) e Sofia Manzano (PCB).

O MDB também lançou Teresa Surita ao Governo de Roraima e a deputada federal Mara Rocha ao Governo do Acre.

O PDT tem quatro pré-candidatas: além de Izolda Cela no Ceará, o partido prepara as candidaturas da senadora Leila Barros, no Distrito Federal, da vice-governadora Lígia Feliciano, na Paraíba, e da defensora Carol Braz, no Amazonas.

O PSOL é recordista em pré-candidaturas femininas, com oito postulantes. Nem todas, contudo, devem chegar à eleição, já que há chance de alianças com outros partidos de esquerda em alguns estados.








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