ISABELLA MENON
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)
Depois de fazer da defesa da soberania brasileira uma das bandeiras de sua campanha, Lula (PT) iniciará seu quarto mandato com um desafio central na política externa: administrar a relação com Donald Trump nos dois anos restantes do governo americano. Durante a disputa eleitoral, o petista elevou o tom contra a política dos Estados Unidos para a América Latina.
Integrantes do governo avaliam que a reeleição não eliminará pressões de Washington nem a atuação de aliados do bolsonarismo junto a Trump. A estratégia seguirá combinando defesa da soberania e diálogo, apesar das divergências. Até a publicação desta reportagem, a Casa Branca não havia se manifestado sobre o resultado eleitoral brasileiro.
Lula terá pela frente um presidente americano que já lhe enviou sinais contraditórios. Trump passou de elogios ao petista, a quem recebeu na Casa Branca e chamou de “dinâmico”, a declarações de que o brasileiro é “volátil” e de que “não poderia se importar menos” com o petista.
Apesar da relação conturbada, o republicano também deu sinais de disposição para manter o diálogo. Em agosto, durante encontro com o banqueiro André Esteves, Trump demonstrou respeito por Lula, segundo relatos da conversa, como mostrou a coluna da Mônica Bergamo.
A postura contrasta com a resistência de integrantes de seu governo, especialmente no Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, que já elevou o tom nas críticas ao petista e cuja pasta impôs sanções a diversos membros do governo brasileiro.
Um ex-integrante do primeiro governo Trump avalia que as críticas de Lula e de seus principais assessores à política americana aprofundaram a resistência dos americanos. O problema, segundo ele, é agravado pela ausência de interlocutores na atual administração capazes de compreender as particularidades da política brasileira e explicar os interesses do país em Washington. Sem essa ponte, a desconfiança tende a se transformar em hostilidade.
Ele diz, porém, que essa resistência não é uniforme. Enquanto setores do Departamento de Estado demonstram animosidade em relação a Lula, boa parte da administração Trump tem pouco interesse pelo Brasil e prioriza a disposição de outros governos em atender às demandas americanas.
Superada a eleição, Lula terá de decidir sobre o agrément de Daniel Perez, indicado para a embaixada dos EUA no Brasil e que depende de autorização do governo brasileiro para assumir o posto em Brasília.
A expectativa é que o aval seja concedido até o fim do ano, em um possível gesto de distensão nas relações entre os dois países.
Também terá o desafio de traduzir o discurso de soberania em resultados concretos, a começar pelas tarifas americanas de 37,5%. Segundo interlocutores do governo brasileiro, Washington sinalizou que as negociações do tarifaço devem ser destravadas após as eleições.
Outros pontos de atenção são o interesse americano pelas terras raras e o combate ao crime organizado, que levou o governo republicano a designar as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas.
Na campanha e na Assembleia Geral da ONU, em setembro, Lula criticou a interferência americana na região e a submissão latino-americana a potências estrangeiras. O primeiro teste após a eleição, porém, será a reação de Trump ao resultado. Em carta a congressistas democratas, o Departamento de Estado evitou se comprometer expressamente a reconhecer o vencedor, mas manifestou apoio a eleições livres e justas no Brasil.
Paulo Abrão, ex-secretário Nacional de Justiça do governo Dilma e diretor do Washington Brazil Office, considera que a vitória de Lula pode distender a relação ao retirar a disputa brasileira do horizonte imediato de Washington, desde que os EUA aceitem o resultado. “Se Washington concluir que terá de negociar com Lula, pode haver incentivo para substituir parte dessa disputa eleitoral por uma negociação entre governos”, afirma.
Para Abrão, Lula terá de mostrar que a defesa da soberania pode se traduzir em redução de barreiras comerciais, investimentos e acordos vantajosos para o Brasil.
Lucas de Souza Martins, pesquisador e professor da Universidade Temple, nos EUA, também espera uma relação mais pragmática e lembra que Lula dialogou com presidentes de diferentes orientações políticas, incluindo o republicano George W. Bush. O comércio deve ser a principal frente de aproximação.
Outro foco de atrito será a estratégia de Trump para a América Latina, centrada no combate ao crime organizado, na cooperação militar e na tentativa de restringir a influência de potências concorrentes. Uma de suas principais iniciativas é o Escudo das Américas, coalizão regional que reúne governos alinhados a Washington e estabelece compromissos nas áreas de segurança e economia.
Nos bastidores, o governo Lula rejeita a possibilidade de adesão ao grupo. A avaliação é que a iniciativa foi desenhada unilateralmente pelos Estados Unidos, sem que os demais países participassem da definição de suas prioridades, contrariando a tradição brasileira de negociação multilateral.
Abrão, porém, não descarta que as circunstâncias levem o Brasil a negociar algum tipo de participação condicionada, especialmente se a iniciativa passar a concentrar mecanismos relevantes de cooperação contra o crime organizado. Nesse cenário, Lula poderia buscar acesso a inteligência e tecnologia sem aceitar a presença de forças americanas em operações no território nacional.
Steven Dudley, diretor do InSight Crime, think tank de crime e segurança da América Latina, afirma que o intercâmbio de informações entre autoridades dos dois países existe há anos e resiste a tensões políticas, embora possa perder intensidade. Para ele, problemas estruturais de segurança pública não se resolvem apenas com mais forças, e a descentralização policial brasileira dificulta a implementação de políticas nacionais.
A disputa entre Washington e Pequim também desafiará Lula. O Brasil pretende preservar os laços com a China, seu principal parceiro comercial, enquanto os EUA buscam reduzir a dependência chinesa em setores estratégicos.
Minerais críticos devem ganhar espaço na agenda bilateral. O governo brasileiro defende acordos que ampliem o processamento desses recursos e a produção industrial no país, em vez de limitar a parceria à exportação de matérias-primas.
A atuação de Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro seguirá no radar. Interlocutores de Lula avaliam que os canais políticos mantidos pelo grupo em Washington persistirão mesmo após a derrota eleitoral.
Assim, embora a reeleição possa reduzir parte da tensão associada à disputa presidencial brasileira, Lula continuará diante de uma administração americana cuja estratégia para o hemisfério envolve interesses que vão além do resultado das urnas.
O desafio será preservar a autonomia reivindicada durante a campanha sem fechar as portas para negociações com Washington -e atravessar os dois anos restantes de Trump sem permitir que a disputa política comprometa os interesses econômicos e diplomáticos brasileiros.