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Lobista na mira da CPI recebia núcleo de Bolsonaro para passeios de lancha e churrascos

O lobista ainda se dispunha a cuidar da agenda de pessoas do círculo do presidente, com o agendamento de consultas médicas e salão de beleza

Por FolhaPress 13/09/2021 8h41
Foto: Agência Brasil

Constança Rezende e Raquel Lopes
BRASÍLIA, DF

Mensagens enviadas à CPI da Covid revelam que o lobista Marconny Albernaz de Faria, apontado como um intermediário da Precisa Medicamentos, mantinha relação com o núcleo familiar e uma advogada de Jair Bolsonaro. O material expõe eventos realizados na casa de Marconny, em Brasília, como churrascos e passeios de lancha. O lobista ainda se dispunha a cuidar da agenda de pessoas do círculo do presidente, com o agendamento de consultas médicas e horário em salão de beleza.

As mensagens de aplicativo mostram ainda a proximidade dele com Ana Cristina Valle, ex-mulher de Bolsonaro, com o filho 04 do presidente, Jair Renan Bolsonaro, e com a advogada Karina Kufa. A Precisa Medicamentos está no centro das investigações da CPI por suspeita de irregularidades nas negociações da vacina indiana Covaxin. O Ministério da Saúde decidiu encerrar o contrato de R$ 1,6 bilhão com a empresa para a compra de 20 milhões de doses do imunizante.

Procurada, Ana Cristina, que também é mãe de Jair Renan, não respondeu aos questionamentos da reportagem. Kufa afirmou, em nota, que nunca escondeu a amizade com Marconny, que, por sua vez, por meio de advogados, disse que as mensagens foram distorcidas. As informações constam de conversas no WhatsApp, entre Marconny e pessoas ligadas a Bolsonaro, obtidas pela CPI após quebra judicial de sigilo do lobista a pedido do MPF (Ministério Público Federal) no Pará. A reportagem teve acesso ao material.

Pelas mensagens, Kufa e o lobista chamavam um ao outro de amigos. Ela já o encontrou em diversos momentos, frequentaram a casa um do outro e marcaram almoços em diversas oportunidades. A proximidade dos dois era tamanha que a advogada chegou a compartilhar foto do filho dela com o lobista no WhatsApp. As mensagens indicam que Kufa levou a criança em evento na casa do lobista.

Em uma das mensagens, de maio de 2020, a advogada de Bolsonaro aceita o convite para dar uma volta de lancha. “Borá andar de lancha???”, diz Marconny. Em seguida Kufa responde com três mensagens: “Bom dia”; “Vamos!”; “To precisando tirar a tensão da cabeça”.

Maconny também marcou duas vezes médico para a advogada e até disse que iria com ela a uma das consultas. “Marquei pra manhã seu médico às 17h. Vou com vc!!!”, afirmou em uma mensagem de junho de 2020. A assessoria de Kufa, em nota, disse que não negou a proximidade dela com o advogado. Afirmou ainda que a advogada não tem relação com representantes da Precisa e nunca ouviu o termo “lobista” associado a Marconny.

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“Ao que tudo indica, esse rótulo foi inaugurado na CPI. Ele é uma pessoa conhecida no meio jurídico em Brasília”, disse a assessoria. Assim como Karina, a ex-mulher Bolsonaro tinha proximidade com o lobista. As mensagens indicam que Valle também já almoçou na casa de Marconny em pelo menos uma ocasião.

Foi o lobista que a convidou, em 31 de agosto de 2020, para ir ao casamento da advogada Anna Carolinna Noronha, filha do ministro e ex-presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça) João Otávio Noronha: “Marque na sua agenda”; “Casamento da Filha do min Noronha”; “Já falei com o Renan”; “Quero que venha”; “Vai ser toppp!!!”; “Só a nata da corte …. muito selecionado”.

A relação de proximidade fica evidente nas trocas de mensagem. O lobista chegou a marcar serviços de cabelo e maquiagem para Valle. Ela, inclusive, se arrumou na casa dele antes de ir ao evento. “As profissionais vão vir aqui pra casa”, diz Marconny. “Vai arrumar vc a Tati e a Karina Kufa”, afirma.

A ex-mulher do presidente ainda foi de carona, no carro do lobista, para a festa de casamento. “Bom dia meu querido gostaria de saber se posso ir com vcs no carro pois o Renan tem um compromisso às 16 e depois ele vai direto”, diz Valle, em 12 de setembro do ano passado.

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Valle pediu ao lobista ajuda ao seu filho, mas sem dizer do que se tratava. A mensagem foi encaminhada no dia 14 de setembro de 2020, três dias antes de Marconny procurar Jair Renan para dar prosseguimento à abertura de uma empresa.

Como a Folha revelou, a empresa de Jair Renan, a Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia, foi aberta com a ajuda do advogado.
De acordo com os diálogos, o lobista e Jair Renan começaram a tratar do tema no dia 17 de setembro de 2020, quando Marconny lhe escreveu: “Bora resolver as questões dos seus contratos!! Se preocupe com isso. Como te falei, eu e o William estamos a sua disposição para ajudar te ajudar”, disse.

A mensagem trata de William de Araújo Falcomer dos Santos, que Marconny representa na CPI da Covid. Jair Renan então respondeu: “Show irmão. Eu vou organizar com Allan a gente se encontrar e organizar tudo”. Em seguida, o filho do presidente diz que precisa abrir um processo para registrar no INPI (Insituto Nacional de Propriedade Industrial) as marcas e patentes e abrir o MEI como microempreendedor.

No mesmo dia, o lobista mandou uma mensagem para Santos, para marcar uma reunião entre ele e o filho do presidente. Frederick Wassef, advogado de Jair Renan, frisou que não existe relação de negócio ou amizade, mas contou que o filho do presidente foi apresentado a Marconny por Santos.

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“Renan é uma pessoa pública e volta e meia está em eventos, em festas e tem muitos conhecidos, é comum que ele conheça várias pessoas. Conheceu esse advogado no começo de 2019 e não tem e nunca teve qualquer tipo de relação com ele”, disse. As conversas também expõe pedidos de Marconny ao círculo próximo de Bolsonaro. Ele pediu ajuda a Valle para influenciar na escolha do defensor público-geral da União em 2020.

Marconny também fez pedido semelhante a Kufa. O lobista queria a ajuda da advogada para fazer a indicação de uma pessoa na diretoria do Instituto Evandro Chagas. As mensagens foram trocadas no dia 25 de maio de 2020. “Que dia podemos ver a situação do instituto Evandro chagas!?”, diz Marconny; “Temos que tirar os petralhas logo de lá.”


Em seguida, a advogada de Bolsonaro responde: “Agora”. Ele então diz: “Show”. Na sequência a advogada fala: “Vou lá falar sobre isso nesse momento”. A assessoria de Kufa disse que Marconny teria encaminhado um currículo argumentando ser uma pessoa tecnicamente qualificada. A advogada, no entanto, afirmou não ter dado prosseguimento ao pedido.

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“Esse tipo de indicação é feita rotineiramente pelas pessoas, o que é natural. A decisão é sempre do presidente”, disse a assessoria, em nota. Marconnny também participa de alguns grupos de WhatsApp em comum com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho mais velho de Bolsonaro.

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Santos, advogado de Marconny, disse, em nota, que por causa da apreensão do celular do cliente, em outubro de 2020, tem havido divulgação indevida e distorcida de conversas. “Foram feitas distorções maldosas em relação aos nomes da advogada Karina Kufa e Ana Cristina Valle”, afirmou o advogado. Segundo ele, “as duas não tiveram qualquer participação” nas atividades profissionais de Marconny.

Santos disse ainda que Marconny não negociou vacina com o Ministério da Saúde ou qualquer outra área do governo. De acordo com o advogado, Marconny conversou com uma colega, em maio de 2020, para tratar da possibilidade de se viabilizar a venda de testes de Covid entre entidades privadas.

“Isso não dá o direito a ninguém de fazer acusações inverídicas. Não há qualquer referência nos diálogos a dinheiro público. Não há qualquer irregularidade nas tratativas entre as duas partes”, afirmou. Em diálogos de posse da CPI, Marconny discutiu, em junho de 2020, a venda de 12 milhões de testes rápidos pela Precisa Medicamentos ao Ministério da Saúde.

A CGU (Controladoria-Geral da União) apontou evidências de tentativa de interferência no processo de chamamento público para a contratação com a ajuda de Roberto Dias, ex-diretor de Logística da pasta, para beneficiar a Precisa. O depoimento de Marconny está marcado para quarta-feira (15) na CPI da Covid. Já na terça-feira (14) é a vez de Marcos Tolentino da Silva. O empresário entrou no radar da comissão devido à suspeita de que seja um sócio oculto da FIB Bank, empresa usada pela Precisa Medicamentos para oferecer uma carta de fiança ao Ministério da Saúde em negociação para a compra da vacina indiana Covaxin.

A comissão ainda não definiu quem prestará depoimento na quinta-feira (16). O depoimento da advogada Karina Kufa estava previsto para ocorrer nesta semana. No entanto, ainda não houve concesso entre membros da comissão se ela será ouvida ou não.






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