Adriana Fernandes
Folhapress
O diretor do Banco Central Paulo Picchetti ganhou peso na disputa para ser efetivado na diretoria de Política Econômica da autarquia. O posto é considerado chave no BC porque subsidia o Copom (Comitê de Política Monetária), instância que define o futuro da taxa básica de juros (Selic), com estudos, dados e análises de conjuntura.
Chamado de “craque e professor” pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, Picchetti responde hoje, de forma interina, por duas diretorias do órgão após o economista Diogo Guillen encerrar seu mandato no final do ano passado sem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha feito a indicação de um sucessor.
Desde 2024, Picchetti é diretor de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do BC. Ele foi indicado pelo ex-ministro Fernando Haddad (Fazenda) para o colegiado no primeiro ano do governo Lula.
O desempenho de Picchetti na entrevista do último Relatório de Política Monetária, documento divulgado trimestralmente pelo BC, foi considerado sólido e reforçou sua posição para seguir no cargo, de acordo com pessoas a par do tema ouvidas pela Folha. A avaliação comum foi a de que o diretor passou no “teste de estresse”.
A fala do diretor, ao lado de Galípolo, contribuiu para afastar os ruídos no mercado financeiro após a divulgação do comunicado e da ata que acompanharam a decisão do Copom de reduzir a taxa de juros para 14,25% ao ano.
O comunicado tinha causado volatilidade nos mercados porque o BC cortou a Selic e, ao mesmo tempo, alertou para inflação em alta. O ruído gerou problemas no leilão de venda de títulos do Tesouro Nacional.
Após a entrevista, os ruídos se dissiparam, também favorecidos por um cenário externo mais benigno, com agentes do mercado comprando a avaliação do BC de uma inflação mais branda à frente. De forma bastante rápida, as instituições financeiras revisaram para baixo suas projeções de inflação para 2026.
A expectativa para a inflação deste ano no boletim Focus, divulgado na segunda-feira (29) pelo BC, interrompeu uma sequência de 15 semanas consecutivas de alta. O movimento foi suspenso após a apresentação do relatório com as explicações sobre o comunicado e a ata da reunião do Copom, que tinham causado tensão nos mercados.
A curva de juros futuros apresentou queda em praticamente todos os pontos entre os dias 24 e 25 de junho. A projeção da taxa de juros no final de 2026 saiu de 14,12% ao ano, na véspera da reunião, para 14,09%. Nesta terça-feira (30), estava em 13,99%.
As expectativas do mercado para a inflação futura, captadas pela chamada inflação implícita dos títulos do Tesouro corrigidos pelo IPCA, as NTN-Bs de 12 meses, também diminuíram. No mesmo período, o real apreciou 0,4% em relação ao dólar, superior a várias outras moedas.
O acúmulo de diretorias no BC já ocorreu no passado, mas a demora nas duas indicações para diretorias do órgão tem chamado a atenção no mercado. O presidente Lula encontra dificuldades no Senado, onde os nomes são sabatinados. A opção política até agora tem sido a de esperar um ambiente mais propício.
PRODUTIVIDADE
Galípolo tem mantido silêncio sobre as negociações para as indicações das duas vagas.
Mas, na semana passada, o presidente do BC exaltou Picchetti. “O Paulo vale por milhares. Tenho muita sorte de ter um craque professor Paulo do meu lado aqui. Estamos conseguindo, graças à produtividade enorme do Paulo, convergir”, disse, na apresentação do relatório trimestral.
O chefe da autarquia minimizou ainda as dificuldades de um colegiado desfalcado. “Temos uma indicação que é feita pelo presidente da República. Se a vacância atrapalha, de um lado, é óbvio que é sempre importante contar com os nossos diretores por uma questão institucional. As pessoas dizem que eu peguei vários desafios e momentos difíceis no mandato, mas eu também dei uma sorte enorme de ser contemporâneo de diretores como Paulo”, acrescentou.
A outra vaga aberta no BC é a da diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, que era chefiada pelo diretor Renato Gomes, que teve papel central para barrar a compra do Banco Master pelo BRB.
O cargo está sendo disputado pela atual diretora da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) Marina Copola, que tem buscado apoio em Brasília à sua indicação, mas ainda não se encontrou com Lula. Procurada, ela não comentou. O PT busca influir nas indicações.
DIRETORIA COLEGIADA
A diretoria colegiada do BC é composta por nove membros, sendo um presidente e oito diretores. Os mandatos para o colegiado são para os diretores e não têm a ver com as diretorias que assumem.
O mandato de Picchetti acaba em dezembro de 2027, independentemente de qual diretoria ele esteja ou assuma até lá. Pelo regimento interno, o presidente do BC pode remanejar os diretores aprovados pelo Senado dentro da diretoria do colegiado.
Não há ainda previsão na equipe econômica se o governo Lula vai deixar as indicações para depois das eleições de outubro.
Como a sessão de sabatinas tem que ser presencial, ainda há uma brecha para as nomeações ocorrerem antes das eleições, já que em agosto e setembro o Senado fará esforço concentrado de uma semana em cada mês.
Em caso de derrota nas eleições, o risco para Lula seria o de perder a chance de nomear mais dois diretores para a casa.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já disse publicamente que ainda vai conversar com o presidente sobre o tema. Um auxiliar de Lula admite que as coisas continuam difíceis no Senado para o envio das indicações.
A reportagem procurou o BC, a Fazenda e a Presidência da República, mas não obteve resposta.