LAURA SCOFIELD E THAÍSA OLIVEIRA
FOLHAPRESS
O gasto do Senado com diárias para policiais legislativos que fazem a escolta de senadores em viagens saltou de R$ 1,1 milhão para R$ 1,8 milhão nos primeiros cinco meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2025.
Autoridades que acompanham o tema afirmam que o aumento de 64% é resultado de viagens de senadores que vão disputar as eleições, sobretudo as de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em pré-campanha pela Presidência da República.
O parlamentar tem feito uma série de viagens desde que foi anunciado como candidato de Jair Bolsonaro (PL) na eleição presidencial. Na última delas, na semana passada, foi aos Estados Unidos, onde se reuniu com o presidente Donald Trump. Aliados do presidente Lula (PT) têm vinculado o encontro à proposta de um novo tarifaço aos produtos brasileiros, anunciada nesta terça.
Seis senadores têm acesso a proteção individual da Polícia Legislativa. Destes, três já definiram que serão candidatos neste ano: Flávio Bolsonaro; Sergio Moro (PL-PR), que busca se eleger governador do Paraná; e Angelo Coronel (Republicanos-BA), que tenta a reeleição. O Senado não informa o valor gasto com cada parlamentar.
O acompanhamento da Polícia Legislativa é dado apenas para o presidente do Senado e para senadores que indicam ter recebido alguma ameaça. No caso de Moro, por exemplo, a escolta começou em 2023, quando autoridades identificaram a existência de um plano do PCC contra ele.
Completam a lista, além do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), o ex-presidente Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e Ana Paula Lobato (PSB-MA).
Por alegadas questões de segurança, o Senado informa apenas o valor pago para cada policial e as datas. Não é possível saber o nome do servidor público, por qual senador ele é responsável nem a que viagem a despesa se refere.
O maior gasto deste ano ocorreu em 16 de janeiro, quando dois policiais legislativos receberam, juntos, R$ 157 mil para o pagamento de despesas com alimentação e hospedagem. A data coincide com o início do giro de Flávio pelo Oriente Médio, entre janeiro e fevereiro.
A princípio, ele pediu autorização para viajar com todos os gastos custeados pelo Senado, mas voltou atrás após repercussão negativa. No caso dessa viagem e das seguintes, a Casa arcou com o pagamento de diárias e passagens para os seguranças, mas não com outros gastos.
No caso da viagem para o Oriente Médio, Flávio passou por Israel, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Catar. De lá, seguiu para a Europa e fez uma parada na França. A ocasião foi utilizada para apresentar o senador a lideranças da direita internacional e, segundo a dupla, combater o antissemitismo.
Neste ano, Flávio já viajou ao menos três vezes aos Estados Unidos, onde vive o irmão, a última delas nesta semana. O senador se encontrou com o presidente americano, Donald Trump, em meio à tentativa de aliados de emplacar uma agenda positiva depois do desgaste político do caso “Dark Horse”. Ele viajou acompanhado por um segurança.
Em outra ida aos EUA, o parlamentar participou da CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), no Texas, onde se colocou como pré-candidato a presidente e pediu que o país exerça “pressão diplomática” sobre o Brasil nas eleições deste ano.
No primeiro dia da conferência, 25 de março, o Senado registrou o pagamento de duas diárias que totalizam R$ 38 mil para dois policiais legislativos.
As viagens têm sido declaradas por Flávio como missões “não oficiais”, definidas como políticas ou de mandato. As faltas às sessões do plenário são desconsideradas, mas há desconto no salário.
O gasto com os seguranças ocorre mesmo quando os senadores fazem viagens que não fazem parte de missões oficiais.
Em todo o ano passado, o Senado pagou R$ 2,9 milhões em diárias para os seguranças que acompanham os seis parlamentares que recebem escolta.
Apesar de expressivo, o valor das diárias dos seguranças inclui apenas alimentação, hospedagem e pequenas despesas de transporte, como táxis e transfers, mas não o gasto com passagens aéreas que também é pago pelo Congresso Nacional.
O valor da diária varia de acordo com a função do servidor. Para países fora da América do Sul, o montante pago por dia vai de US$ 402 (o equivalente a mais de R$ 2.000 na cotação atual) a US$ 503 (cerca de R$ 2.500). Para países da América do Sul, a diária varia de US$ 342 (R$ 1.700) a US$ 428 (R$ 2.100).
Dentro do Brasil, as diárias vão de R$ 522 a R$ 792 para capitais e cidades com mais de 200 mil habitantes, e de R$ 417 a R$ 633 para cidades com menos de 200 mil habitantes.
FLÁVIO DIZ QUE NÃO ABRIRÁ MÃO DE ESCOLTA
Flávio tem proteção da Polícia Legislativa do Senado desde o governo Jair Bolsonaro (PL). Questionado, o senador afirmou que não vai abrir mão da escolta e que “é público e notório que membros da família Bolsonaro enfrentam, há anos, um ambiente de forte polarização e episódios concretos de ataques e ameaças”.
“O senador Flávio Bolsonaro, assim como outros parlamentares, já foi alvo desses tipos de ataques, possui segurança pessoal garantida pelo Senado Federal, independente de estar na condição de pré-candidato à Presidência da República, e não abrirá mão da proteção a sua vida para dar chance a outro Adélio Bispo [autor de facada em Jair Bolsonaro em 2018]”, declarou o pré-candidato.
“Sobre os valores mencionados, os pagamentos de diárias seguem regras administrativas internas do Senado. O Partido Liberal arcou, e arcará, com todos os demais custos quando em agenda como pré-candidato, em obediência à legislação eleitoral”, completou.
Decidido a concorrer a governador, Moro tem percorrido o Paraná. O senador também comunicou ter viajado para o exterior duas vezes neste ano, 12 dias no início de janeiro e outros 11 em fevereiro.
Questionado pela reportagem sobre o aumento de gastos com diárias de seguranças, o senador disse que “mantém o mesmo fluxo de visitas ao Paraná desde o início do mandato, um compromisso assumido com os paranaenses que reclamavam da ausência dos senadores eleitos”, e que os ataques contra ele são conhecidos.
“Infelizmente, o senador sofre ameaças do PCC em retaliação ao trabalho que realizou e, por isso, tem necessidade de uso de escolta (que não é benefício ou privilégio), vinculada e gerida diretamente à estrutura da Presidência da Casa”, disse, em nota.
A assessoria de imprensa de Angelo Coronel não quis comentar a agenda de pré-campanha nem os motivos que o levaram a receber proteção pessoal. O gabinete se limitou a dizer que apenas a Secretaria de Polícia Legislativa poderia fornecer informações sobre a segurança parlamentar por respeito a protocolos de proteção de autoridades.
A reportagem perguntou ao Senado por que o gasto aumentou neste ano, mas não houve resposta.
Em nota, a Casa afirmou que “informações relativas à segurança de parlamentares são consideradas sensíveis na medida em que podem acarretar vulnerabilidade e riscos às autoridades e aos servidores envolvidos nos serviços de escolta”.
Alcolumbre e Ana Paula estão na metade do mandato. Os dois deixaram o país uma vez cada neste ano.
Pacheco, por sua vez, diz que não vai disputar as eleições para encerrar sua carreira política. Não há registro no Senado de que ele tenha viajado para o exterior em 2026.