CAROLINA LINHARES, THAÍSA OLIVEIRA, MARIANA BRASIL E CAIO SPECHOTO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O encontro entre o senador Flávio Bolsonaro (RJ), candidato à Presidência pelo PL, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi comemorado por congressistas e influenciadores da direita bolsonarista no momento em que a pré-campanha estava naufragada na crise envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Na tarde desta terça-feira (26), Flávio foi recebido por Trump na Casa Branca, ao lado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), seu irmão. O senador disse ter pedido que o presidente americano classifique o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, na contramão do entendimento do governo Lula (PT). Também ofereceu aos EUA o que chamou de “parceria estratégica de longo prazo” em relação a terras raras e minerais críticos.
Integrantes do PL afirmam que a agenda foi positiva para a campanha de Flávio, mas parte deles ainda demonstra descontentamento com o senador por ele ter escondido sua relação com Vorcaro. O site The Intercept Brasil revelou que o senador pediu dinheiro ao ex-banqueiro para realizar o filme “Dark Horse” (azarão, em inglês) sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Ainda de acordo com deputados do partido, é preciso aguardar para medir se a viagem aos Estados Unidos vai conseguir aplacar o desgaste sofrido por Flávio nos últimos dias.
O senador Magno Malta (PL-ES), crítico contumaz do STF (Supremo Tribunal Federal), diz que o encontro de Flávio com Trump também mostra que os Estados Unidos estão atentos ao que se passa no Brasil e às atitudes do ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou de “violador de direitos humanos mor”.
“Trump chama Flávio porque Flávio é um candidato à Presidência da República. Trump quis ouvir dele o que está acontecendo com o Brasil”, diz, acrescentando que o resultado foi maravilhoso para o senador.
Nas redes sociais, o encontro alimentou os perfis de direita, com deboche em relação a quem havia duvidado da agenda com Trump –que não chegou a ser divulgada formalmente pela equipe da pré-campanha de Flávio.
A foto de Flávio com Trump foi compartilhada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), perfil de maior alcance na direita. “Que faccionado vire terrorista, haja mais investimento tecnológico, acordos comerciais fortes e valorização do agro. Importante aproximação”, escreveu o deputado.
Já o senador Sergio Moro (PL-PR) compartilhou a foto com a legenda “Força e prestígio!”.
Questionada pela reportagem antes do encontro, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) disse que ser recebido pelo presidente dos EUA ajudaria “qualquer candidato”. “Não é segredo para ninguém que o Trump tem um bom relacionamento com os conservadores brasileiros. Se ele [Flávio] é o maior representante nessa pré-campanha dos conservadores, é bem natural esse encontro”, afirmou.
Eduardo, que participou da reunião com Trump, também está envolvido no caso “Dark Horse”. A Polícia Federal suspeita que o montante repassado por Vorcaro pode ter sido usado para financiar despesas do ex-deputado nos Estados Unidos, onde ele vive desde fevereiro de 2025, o que Eduardo e Flávio negam.
Os recursos para o filme, vindos da Entre Investimentos e Participações, que tem ligações com Vorcaro, chegaram a um fundo controlado por aliados de Eduardo e sediado no Texas, nos EUA.
Na primeira pesquisa Datafolha após a revelação do escândalo, o empate entre Flávio e Lula no segundo turno, com 45% cada, se transformou em uma vantagem de 47% a 43% para o petista. Ainda assim, os bolsonaristas comemoraram, já que temiam impacto maior.
Entre petistas e auxiliares do governo Lula, o encontro entre Flávio e Trump foi visto como uma estratégia do senador para desviar a atenção de seus vínculos com Vorcaro.
Para eles, a reunião entre os dois não traz, necessariamente, impactos positivos para o rival e deve ser usada como trunfo pelo governo Lula no reforço ao discurso de defesa da soberania. Segundo um auxiliar do Planalto, Flávio corre o risco de ser associado pela gestão petista a qualquer possível fracasso nas negociações travadas até o momento entre EUA e Brasil.
Nas redes sociais, parlamentares governistas já adotam esse tom ao citar o episódio. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que o encontro mira esconder o escândalo e se referiu ao episódio como “Três patetas com Trump”.
Na visita ao homólogo americano no início do mês, Lula saiu com acordos de cooperação em curso na área do crime organizado e nas tratativas do tarifaço.
Durante evento em São Paulo também nesta terça, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), foi questionado sobre a visita de Flávio a Trump e disse que já bastava “um da família Bolsonaro” trabalhando contra o Brasil.
“Em relação à visita do pré-candidato a Estados Unidos, é assunto e que ele deve explicar. Nós já tínhamos um da família trabalhando contra o Brasil, não precisamos ter dois trabalhando contra, né?”, declarou.
A leitura de aliados é de que, apesar da visita de Flávio em prol de se descolar do escândalo que eclodiu durante sua pré-campanha, a mobilização deve surtir efeitos somente com o eleitorado mais fidelizado de Bolsonaro, servindo como um novo trunfo para Lula neste momento.