LUCAS MARCHESINI
FOLHAPRESS
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) manteve em seu gabinete de junho de 2025 até esta semana um ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal demitido por assédio sexual.
Celso Leonardo Barbosa recebia R$ 20,7 mil mensais como assessor parlamentar do pré-candidato do PL à Presidência da República. Ele foi exonerado após Flávio ser procurado pela Folha.
“As informações reveladas pela reportagem são extremamente graves e incompatíveis com a conduta exigida de qualquer integrante da equipe parlamentar”, disse o senador, em nota.
Celso Leonardo foi procurado por telefone tanto no celular quanto no gabinete de Flávio. Ele não estava no local quando a Folha telefonou, às 10h de sexta-feira (22), e não respondeu ao contato depois nem respondeu às novas tentativas de contato nesta segunda-feira (25).
O ex-vice da Caixa era homem de confiança do ex-presidente do banco Pedro Guimarães e ficou na instituição financeira de 2019 a 2022, quando foi demitido pouco depois do chefe, que também saiu após acusações de assédio.
A Folha apurou que Celso Leonardo fez um acordo de não persecução penal com a Justiça no processo de assédio, no qual assumiu a culpa e prestou serviços comunitários.
Conforme apurou a reportagem na época de sua demissão, uma funcionária do banco relatou que tinha se sentido assediada por ele em uma viagem do programa Caixa Mais Brasil a Goiás.
Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, em 2022, Celso Leonardo também foi acusado por uma servidora do banco de ter acobertado abusos de Pedro Guimarães na instituição.
Além disso, ele está sendo processado pelo MPF (Ministério Público Federal) sob a acusação de falsidade ideológica. De acordo com a denúncia, Celso Leonardo teria inserido informações inverídicas nos documentos necessários para a indicação ao cargo de vice-presidente da Caixa.
Após ser questionado pela Folha de S.Paulo sobre a presença de Celso Leonardo em seu gabinete no Legislativo, Flávio afirmou que ele “omitiu da chefia imediata pendências judiciais relevantes e, além disso, infringiu de forma grave as normas do Senado Federal ao exercer atividades particulares durante o horário de expediente”.
“O gabinete não compactua com qualquer desvio de conduta, abuso de confiança ou descumprimento das obrigações funcionais. Diante da gravidade dos fatos, o desligamento foi realizado de forma imediata”, afirmou o pré-candidato do PL à Presidência.
De acordo com seu próprio currículo, Celso Leonardo acumulava o cargo de assessor parlamentar com o de professor na Fundação Dom Cabral, uma instituição particular de ensino.
Em suas redes sociais e na sua página na internet, ele omitia a função no gabinete de Flávio, definindo-se como “professor, palestrante, mentor, autor, investidor anjo e especialista em gestão, estratégia, inovação, IA e empreendedorismo”.
Na sua página na internet também não há menções sobre sua passagem pela Caixa. Ele diz que desde 2020 é professor na Fundação Dom Cabral, sem citar o cargo de vice-presidente no banco público.
A Fundação Dom Cabral disse em nota que Celso Leonardo “está credenciado como professor convidado eventual, sem vínculo empregatício com a instituição”. “A atuação de professores convidados ocorre de forma pontual, conforme demanda específica de programas e projetos educacionais”, afirmou.
A instituição disse ainda que “acompanha com atenção situações que possam impactar seus princípios institucionais, sua relação com clientes e seu ambiente educacional” e que “diante das informações recebidas, a participação do referido profissional em atividades futuras encontra-se em reavaliação interna”.
“A FDC reafirma seu compromisso com um ambiente de respeito, integridade e responsabilidade institucional, e com processos de seleção e credenciamento conduzidos com base em critérios técnicos e em conformidade com a legislação vigente”, concluiu.
Em suas redes sociais e na sua página na internet, Celso Leonardo posta diversas atividades, como palestras e aulas, em horário de trabalho. Algumas delas são fora de Brasília, onde mora e dá expediente.
Em 22 e 23 de abril, uma quarta e uma quinta-feira, por exemplo, ele participou de um curso do Senac em Mato Grosso do Sul. Em 19 de janeiro, uma segunda-feira, participou da conferência Futuro do Empreendedorismo no Rio de Janeiro.
Em 4 de dezembro do ano passado, uma quinta-feira, foi para São Paulo para a palestra “Inteligência Artificial na Gestão Empresarial”.
Pedro Guimarães foi presidente da Caixa Econômica Federal desde o início do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) até pedir demissão em 29 de junho de 2022, após acusações de assédio sexual.
Durante a sua gestão, ele se cercou de pessoas de confiança, como Celso Leonardo, que ocupou o posto de vice-presidente de Negócios de Atacado. Ele saiu do cargo em 1 de julho de 2022, dois dias depois do chefe.