Francisco Dutra
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Armar a população e zerar o preço da passagem de ônibus são propostas do candidato Antônio Guillen (PSTU) para o Governo do Distrito Federal. Para enfrentar a crise de Segurança, ele defende a criação de comitês populares para agir contra os criminosos. Ao mesmo planeja retirar a autonomia operacional da Polícia Militar. Policiais seriam subordinados aos comitês. No transporte, a promessa é cortar o preço da passagem pela metade no primeiro ano de governo. E ao final de quatro anos, a meta é a implantação da tarifa zero. Guillen pretende governar sem respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
O seu governo não vai respeitar a LRF?
A LRF foi feita na época do Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para você conter os gastos públicos e ter uma sobra de dinheiro para dívida externa e interna. A nosso ver, hoje, ela é utilizada exatamente para evitar que os serviços públicos se expandam para a população. Você não pode contratar médicos, embora a Saúde esteja um caos. Nossa proposta é não respeitar a LRF. Para nós, é mais importante ter professores e médicos do que, simplesmente cumprir uma lei que vai deixar os serviços em crise.
Mas o DF não receberá penalizações?
Nosso objetivo é desrespeitar essa lei. Então a gente vai se apoiar na mobilização do povo. Então, a gente não vai deixar faltar leito de UTI. Deveria existir uma Lei de Responsabilidade Social. Aquele governante que não atendesse às necessidades do povo deveria ser punido. A LRF inverte essa lógica. Ela joga a crise para cima dos trabalhadores. O governo está chamando uma rebelião, para que os trabalhadores se organizem para lutar inclusive contra essa lei.
O preço das passagens de ônibus cairá pela metade no primeiro ano de governo?
Primeiro é intervir nas empresas de ônibus. Hoje existem cinco grandes empresas que controlam todo o sistema de ônibus. Elas assumiram esse serviço através de uma licitação questionada na Justiça inclusive, a nosso ver, fraudulenta. Vamos estatizar essas empresas. E nós temos uma empresa pública que é a TCB, especialista em ônibus, que vai passar a gerir esse sistema. A proposta nossa, através da estatização, é tirar o lucro que os empresários têm. A nosso ver o transporte não pode ser uma mercadoria, que vise dar lucro para os empresários e, sim no serviço público ofertado para a população. Por isso nós avaliamos que é possível baixar a passagem e estender o passe livre para estudantes e desempregados.
Ao final do governo, a passagem terá custo zero para o usuário?
Isso. Nossa proposta é que o Transporte Público se “auto-custeie”. Ou seja, o objetivo não é o lucro. O objetivo da passagem é que ela pague o transporte. Lógico, o governo vai apoiar. Ou seja, é um preço de custo. Hoje, além do lucro que os empresários têm, o GDF repassa R$ 700 milhões todo ano de subsídios aos empresários de ônibus. Esses mesmos empresários não pagaram um centavo pelos ônibus. Eles foram subsidiados pelo BNDES. Então eles só estão ganhando.
A PM vai perder autonomia? Será conduzida pelo povo?
Nossa proposta é ir em direção da desmilitarização da PM. Nós queremos uma polícia que trate bem a população. E não use apenas a ostensividade e a violência. Que ela seja controlada pela população. Que ela ajude a população a se auto-defender. Que a população tenha direito à auto-defesa. A população sabe onde moram os bandidos e o que eles fazem. A população deve cooperar e controlar a polícia.
A população será armada?
Mais do que isso. A gente é favor que existam comitês de autodefesa. Porque muitas vezes a população chama, mas a polícia demora a chegar. O tráfico até controla regiões inteiras. A polícia nem entra direito. Então a população tem direito a se auto-defender de forma organizada.
Este comitê andaria armado? Qual é a diferença para a proposta de Bolsonaro (PSL)?
É que existiria um comitê, uma guarda. O que existe hoje é o inverso. Quem está morrendo são os trabalhadores, entre 14 e 24 anos, na maioria negros, pobres das periferias. A população rica vive muito bem, obrigado. Ela tem serviço de vigilância privada. A violência tem um corte de classe. Eles deveriam estar armados. Hoje quem está armado é o tráfico e a polícia. A população fica à mercê disso. A proposta nossa é inverter essa lógica. Não é como Bolsonaro fala: simplesmente armar o cidadão. A ideia dele é completamente diferente. A ideia dele é que a polícia aja cada vez com mais violência sobre a população. A gente, não. A gente quer que a população controle a polícia. Ele propõem que os latifundiários tenham direito a se armar para atacar os quilombolas, indígenas, o povo negro. Ele é um cara da elite, que sempre esteve ao lado da elite, e que quer usar a violência para reprimir a classe trabalhadora.
Cargos de chefia serão escolhidos no voto?
Não é um governo personalista. A gente não quer indicar nenhum cargo comissionado. A gente está se propondo a governar com a classe trabalhadora. A proposta nossa é que em todos os órgãos públicos, empresas estatais, administrações regionais, os próprios servidores de carreira tenham o direito de escolher quem vai ocupar os cargos de chefia.
Secretários serão votados?
Pode chegar. A gente pode fazer uma eleição direta para a Secretário Educação, por exemplo. A gente vai realmente abrir o orçamento para a população. Ela vai opinar sobre os cargos necessários. Por isso a gente está chamando a população a se auto organizar. Nós não acreditamos em um governo onde o povo não esteja mobilizado e lute pelos seus direitos. Todas as empresas terão conselhos. Então por exemplo, Saúde e Educação podem ser organizadas não apenas por um secretário. Mas sim por conselhos.
Isso não pode deixar a demora de decisão e a burocracia piores?
A gente acha o contrário. Toda a estrutura do governo é muito centralizada. A população vota, é chamada de quatro em quatro anos e depois não é chamada para mais nada. A gente acha que essa forma nossa pode até ser mais lenta, mas é muito mais eficiente. Há uma integração muito maior entre várias áreas. É possível o Estado de uma forma totalmente diferente do que é hoje. Hoje é pelo tomá lá dá cá. A gente acha que hoje existe um superfaturamento nos contratos. Nós vamos acabar com isso e auditar todos os contratos, das firmas terceirizadas por exemplo.
Em um segundo turno presidencial entre Haddad (PT) e Bolsonaro, quem o senhor apoia?
O capitalismo brasileiro vai concentrando a renda em poucas mãos. Essas eleições são anti-democráticas. São uma farsa. Por isso nós estamos chamando a população a organizar uma rebelião socialista neste país. Ou seja, é preciso se rebelar contra tudo que está aí. Bolsonaro, Haddad, Ciro Gomes (PDT), dizem que tem que fazer reformas para retirar direitos dos trabalhadores, para dificultar a aposentadoria. O Alckmin (PSDB) também. E nós dizemos o contrário. É preciso revogar as medidas que Temer e Dilma fizeram, que retiraram os direitos dos trabalhadores. A lógica nossa é completamente diferente dessa. Nós não acreditamos que pelas eleições a classe trabalhadora vai conseguir as suas reivindicações.
E se o senhor, eventualmente, for eleito?
Se eu fosse eleito seria um fato, assim, de um apoio popular muito grande. E gente iria incentivar a participação da população através dos conselhos populares. É um governo de mobilização, apoiado no povo. Exemplo, nós não vamos governar com a CLDF. É um governo de atrito e enfrentamento com os políticos. Nós não vamos negociar emendas parlamentares com os deputados.