JOÃO GABRIEL E JOSÉ MARQUES
FOLHAPRESS
A Polícia Federal (PF) identificou um pagamento de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada ao empresário Augusto Lima –ex-sócio de Daniel Vorcaro, do Banco Master, na fraude bilionária ao sistema financeiro brasileiro- ao “núcleo familiar” de Jaques Wagner, líder do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Senado.
Segundo o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, essa é uma das evidências de proximidade entre o parlamentar e o senador.
A transação aconteceu em outubro de 2025, após o Banco Central rejeitar a compra do Master pelo BRB.
Os problemas na negociação entre os bancos, inclusive, são usados por Augusto Lima para justificar o atraso de pagamentos à família de Jaques, de acordo com conversas obtidas pela PF.
As informações constam da decisão de Mendonça que autorizou a operação de busca e apreensão desta quinta-feira (18) contra o senador e o empresário.
A PF aponta, destaca o ministro, que os pagamentos são “supostamente destinados ao núcleo familiar de Jaques Wagner”.
A Folha de S.Paulo procurou a assessoria do senador na manhã desta quinta, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.
“As diligências realizadas pela Polícia Federal nesta data eram desnecessárias, uma vez que Augusto Lima está há seis meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração”, disse o empresário, por meio de nota.
Segundo ele, as investigações vão comprovar que ele sempre atuou “dentro dos limites da lei”.
A operação desta quinta apura suspeitas de que Wagner recebeu pagamentos ligados ao Master, por meio da empresa da esposa do enteado, além de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões.
Também investigam se o senador beneficiou o banco em sua atuação parlamentar.
Além disso, a PF afirma que o senador viajou a Ilha da Paixão, propriedade de Augusto Lima no Rio de Janeiro, com tudo pago pelo empresário. Também fez viagens em jatinho dele.
Segundo a investigação, cobrou e recebeu ingressos para um show em Los Angeles, nos Estados Unidos, pagos pela Reag -empresa que tinha papel central na arquitetura financeira fraudulenta do Master.
A transação de R$ 3,5 milhões aconteceu entre as empresas PKL One Participações -que pertence à prima de Augusto Lima, Andréa- e a BN Financeira- vinculada a Eduardo Sodré, cunhado de Jaques, casado com Bonnie, filha do senador.
Esta segunda teve sua atividade econômica suspensa pela decisão de Mendonça.
A relação entre as empresas é central, segundo a decisão, para demonstrar a proximidade entre o empresário e o líder do governo no Senado.
Diálogos obtidos pela Polícia Federal mostram que, no início de setembro de 2025, Sodré envia mensagens a Lima cobrando a realização de pagamentos. “Amanhã vence os
boletos e são altos”, diz ele ao empresário.
“Em resposta, Augusto [Lima] afirmou que o cenário estava ‘crítico’ e vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação Banco Master/BRB, sugerindo inclusive que se cancelasse a nota para posterior emissão”, diz a Polícia Federal.
A troca, de acordo com a decisão de Mendonça, aconteceu um dia depois do Banco Central reprovar a compra do Master pelo BRB.
A operação de R$ 3,5 mihões é concluída, aponta a investigação, pouco mais de um mês depois, em outubro de 2025.
Segundo a decisão de Mendonça, a BN Financeira, de Sodré, é a “pessoa jurídica central no eixo dos pagamentos supostamente destinados ao núcleo familiar de Jaques Wagner”.
A decisão destaca ainda que a empresa tem capital social reduzido e não apresenta estrutura operacional compatível com os valores movimentados.
“A Polícia Federal sustenta que a empresa [BN Financeira] teria sido utilizada para conferir aparência de licitude a repasses financeiros supostamente desvinculados de prestação real de serviços, funcionando como veículo formal de recepção e dissimulação de vantagens indevidas.
Essas informações são usadas por Mendonça para justificar a proibição de contato entre Jaques Wagner e Augusto Lima, além dos demais investigados na operação -com exceção dos familiares.
Além disso, a PKL One, segundo a PF, uma empresa associada ao Credcesta, programa de crédito consignado do governo da Bahia que, segundo apontam as investigações, foi usado pelo Master para realizar fraudes.
Segundo Mendonça, foi por meio da PKL One e as operações de consignado que Augusto Lima e Jaques Wagner se aproximaram, “inclusive a partir de negócios relacionados a carteiras de crédito e à plataforma Credcesta”.
A decisão, porém, não dá mais detalhes sobre o contexto do Credcesta.