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Eleitora fiel de Bolsonaro não deve ser afetada por acusações de assédio, diz pesquisadora

Entre as eleitoras que ainda compõem os cerca de 30% que sustentam apoio ao presidente, pouco deve mudar, diz a pesquisadora

Por FolhaPress 30/06/2022 6h25
Foto: Evaristo Sá/ AFP

Fernanda Brigatti
São Paulo, SP

As acusações de assédio sexual envolvendo o ex-presidente da Caixa Pedro Guimarães, aliado de primeira hora do presidente Jair Bolsonaro (PL), devem ter um efeito moderado sobre o eleitorado feminino, avalia a cientista social Débora Messenberg, do Instituto de Ciências Sociais da UnB (Universidade de Brasília).

O caso gera constrangimento e reforça a aversão a Bolsonaro já observada em parte desse eleitorado. Porém, entre as eleitoras que ainda compõem os cerca de 30% que sustentam apoio ao presidente, pouco deve mudar, diz a pesquisadora em entrevista à Folha.

“Para aquelas mulheres que até agora não deixaram de aderir aos princípios morais que supostamente o Bolsonaro defende ou a que elas efetivamente se alinham, acho que isso não será tão dramático.”

O efeito mais danoso, avalia Messenberg, deverá ser mais visível entre indecisos e eleitores que já não se sentem mais tão confortáveis com os posicionamentos de Bolsonaro. “Para o eleitorado envergonhado, isso pode —e espero que crie— algum tipo de dúvida.”

O presidente já deu diversas declarações consideradas misóginas, diz Messenberg, além de reafirmar com frequência que seus assessores e ocupantes de outros níveis hierárquicos importantes são pessoas de sua confiança. “Não é de se surpreender que aqueles que estão no seu governo compartilhem de certa visão de mundo próxima à dele”, afirma.

Quando consideramos a ligação de Pedro Guimarães com o governo e sua proximidade com o presidente, as denúncias podem ter impacto sobre o eleitorado feminino?

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É mais uma situação, não só de constrangimento, mas de clareza do posicionamento do próprio presidente da República frente a uma série de questões relacionadas a gênero, de uma forma ampliada, e particularmente em relação às mulheres. Com relação ao eleitorado feminino, ele já sofre uma rejeição bastante elevada e isso deve se confirmar.

Mas acho que é importante também ficar claro que o eleitorado do Bolsonaro é construído sobre outras referências. Ele tem um eleitorado que, mesmo depois de todos esses escândalos, depois da pandemia, depois de um governo que efetivamente fez muito pouco, e com 33 milhões de famintos, se mantém com 30% [de intenção de voto]. O eleitorado dele transcende essas questões concretas.

É possível que haja algum impacto sobre as mulheres que já compõem o eleitorado dele?

Depende do nível de engajamento. Aquilo que a gente considera como [apoiador] raiz são aqueles que estão, independentemente da ação do Bolsonaro, na perspectiva de idealização, e continuam na projeção dele como líder. É o fascínio que os líderes de extrema-direita exercem sobre parcela do eleitorado.

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Para aquelas mulheres que até agora não deixaram de aderir aos princípios morais que supostamente o Bolsonaro defende, ou a que elas efetivamente se alinham, acho que isso não será tão dramático.

Certamente ele vai dizer que isso é uma intriga da oposição ou mesmo que já tomou uma atitude e que o Guimarães vai se demitir ou vai ser demitido, ‘não admito esse tipo de situação’. E também porque não é uma busca pela verdade que esse eleitorado espera, ele quer sempre uma performance, uma projeção contínua em relação a essa liderança.

Mas creio que para os que estão em dúvida, ou o que a gente chama de ‘eleitorado do Bolsonaro envergonhado’, isso pode —e espero que crie— algum tipo de dúvida, ou pelo menos aumente o constrangimento. Hoje, muito se trabalha nessa perspectiva, a gente está percebendo o eleitorado que não está mais tão a vontade em dizer que vota nele. Talvez para essa parcela possa trazer alguma implicação.

O eleitor do Bolsonaro é visto como conservador e avesso a pautas identitárias ou de gênero. Como esse tipo de assunto, um suposto caso de assédio sexual, pode reverberar nesse cidadão conservador?

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Vai depender de como isso vai ser tratado, de qual a narrativa o governo vai utilizar para a defesa. Na questão de pauta moral, não sei qual é a narrativa que ele vai construir, mas aparentemente ele vai afastar a pessoa [Guimarães] que estava do lado dele o tempo todo.

Certamente, no mínimo, ele conhece o executivo, e já há um longo tempo. A sua história, e já está saindo na imprensa, é que ele tem essa postura misógina há muito tempo.

Quando ele [Bolsonaro] diz que usava o apartamento aqui de Brasília para ‘comer gente’, realmente é o que se espera de uma pessoa que tem esse tipo de discurso em relação a suas referências mais próximas, os cargos mais diretos, que tenham e compartilhem dessa visão de mundo semelhante.

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O que esse tipo de acusação, envolvendo o presidente de um importante banco público, diz sobre nós como sociedade?

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Desde que esse governo assumiu estamos tendo retrocessos significativos em todas as pautas. Seja na perspectiva da ciência, seja nas pautas progressistas relacionadas às mulheres, os avanços do movimento feminista e LGBTQIA+, estamos vivendo um contínuo retrocesso há três anos e meio, mas isso não é uma peculiaridade de Bolsonaro.

Bolsonaro faz parte de um processo de avanço da extrema-direita no mundo. A vida humana vai em ciclos, ela retrocede. E os governos de extrema-direita estão aí para mostrar que têm um respaldo daquilo que o Umberto Eco chama de fascismo eterno.

São essas pessoas em geral que aderem a discursos milagrosos, de transformação social, e discursos reacionários que prometem uma volta ao momento idealizado. Essas pessoas sempre existiram.

É impressionante o que a gente viveu no último mês. A história do Genivaldo [homem torturado e morto em um carro da Polícia Rodoviária Federal], do Bruno Araújo e do Dom Phillips [indigenista e jornalista assassinados no Amazonas], e uma série de outros casos bárbaros, e isso não alterou esses 30% que ele tem.

Porque, na verdade, isso não é um interesse. As pessoas que se alinham com esse discurso de extrema- direita não estão preocupadas com a verdade, mas com a reafirmação de suas visões de mundo.








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