JOSÉ MARQUES
FOLHAPRESS
O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, mantinham um “vínculo próximo” que viabilizou aportes do Rioprevidência (fundo de previdência de servidores do Rio de Janeiro) na instituição financeira, segundo a Polícia Federal.
As desconfianças surgiram a partir de análise de material que estava em um dos celulares apreendidos de Vorcaro, e levaram o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), a autorizar busca e apreensão contra o ex-governador.
O advogado de Castro, Carlo Luchione, acompanhou as buscas, mas ainda não se manifestou sobre a operação.
“A atuação do ex-governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do Rioprevidência”, diz o ministro.
Segundo a decisão de Mendonça, Castro “exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes do Rioprevidência no Banco Master”.
“A representação aponta sincronismo entre encontros mantidos entre ambos e os aportes financeiros subsequentes do RPPS (Regime Próprio de Previdência Social), além de conversas encontradas no celular de Vorcaro indicando que a liberação de determinados investimentos dependia de alinhamento político com o ex-chefe do Executivo estadual”, diz o ministro.
“Soma-se a isso a referência à alteração da composição da gestão do Rioprevidência em período imediatamente anterior ao início da série de investimentos e à descrição de eventos e encontros custeados ou organizados por Vorcaro em contexto de proximidade pessoal com o ex-governador.”
Essa sincronia, afirma Mendonça, alinhada à supressão de etapas técnicas e de justificativas formais idôneas para os aportes, reforçam a possibilidade de interferência política indevida no processo.
O relacionamento entre os dois viabilizou, por exemplo, a liberação dos investimentos e também a nomeação de dirigentes do Rioprevidência em cargos-chave. Mesmo depois de alertas formais de órgãos de controle, as aplicações foram mantidas, afirma Mendonça.
A ação desta terça-feira (26) é um desdobramento da Operação Barco de Papel, de janeiro, que identificou aportes suspeitos do Rioprevidência em letras financeiras do Master, em um valor de R$ 970 milhões entre outubro de 2023 e julho de 2024.
De acordo com a PF, a operação desta terça envolve aplicações “de R$ 2,01 bilhões, a partir de julho de 2024, em fundos de investimentos do Master, totalizando cerca de R$ 3 bilhões transferidos do Rioprevidência”.
Além de Castro, um dos principais alvos da operação é Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado como “articulador, captador e lobista, com papel ativo na identificação de oportunidades de negócios e na aproximação entre Daniel Vorcaro e autoridades públicas”.
Rodrigues é uma figura conhecida de investigações policiais: ele foi delator na Lava Jato do Rio de Janeiro. Sua defesa não foi localizada.
O Rioprevidência é uma autarquia estadual responsável por gerir o Regime Próprio de Previdência Social dos servidores públicos fluminenses.
O órgão centraliza a arrecadação das contribuições previdenciárias e administra o pagamento de aposentadorias e pensões, funcionando como a entidade jurídica que deve garantir o equilíbrio financeiro para que aposentadorias de servidores e pensões a dependentes sejam honradas a longo prazo.
O Rioprevidência era presidido até janeiro por Deivis Marcon Antunes, preso em fevereiro. A prisão ocorreu em meio às investigações sobre as aplicações no Master.
Esta é a segunda operação no mês em que Castro é um dos alvos. No último dia 15, o ex-governador esteve em operação por suspeitas relacionadas à refinaria Refit, relacionada a que envolve suspeitas no setor de combustíveis. As investigações da Polícia acusam o ex-governador do Rio de Janeiro de usar a máquina do estado para facilitar crimes atribuídos ao empresário Ricardo Magro, da Refit.