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Com ‘sete vidas’ na política, Renan ressurge, admite erros, relembra embates e vira tormenta de Bolsonaro

Quatro mandatos de presidente do Senado, crises com governos federais, escândalos, acusações de corrupção, e confusões com partidos e políticos…

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Leandro Colon
Brasília, DF

Renan Calheiros (MDB-AL) senta no sofá preto de seu amplo gabinete, ajeita a máscara e conta que já perdeu seis de suas sete vidas na política. “A relatoria da CPI da Covid é o que me sobrou, o que me resta”, diz o senador.

Quatro mandatos de presidente do Senado, crises com governos federais, escândalos, acusações de corrupção, e confusões com partidos e políticos marcaram até aqui as outras “vidas” de Renan, 65 anos e vacinado com a primeira dose da Astrazeneca.

No centro do poder nos últimos 35 anos, Renan justifica sua trajetória, fala das relações conturbadas com PT e PSDB, diz ser um personagem ‘franco’ no Congresso e admite erros: “Time que joga aqui nessa tabela [aponta para anotações da reportagem sobre seus comentários políticos] não tem como não perder e cometer erros”.

Ele aponta o maior deles: ter distribuído sua declaração de Imposto de Renda à imprensa na época do que considera a pior crise política que já viveu, em 2007. Naquele ano, foi acusado de receber dinheiro de um lobista da empreiteira Mendes Júnior para pagar pensão da filha que tivera com a jornalista Mônica Veloso.

“Foi um grande erro. Entreguei o IR e pedi ao Ministério Público para ser investigado, e fiquei oito anos sob investigação”, afirma. Desgastado, Renan renunciou à presidência do Senado.

O alagoano de Murici (AL) está como senador desde 1995. De lá para cá, a Casa se renovou, desafetos ficaram pelo caminho, e Renan se mantém como peça relevante no tabuleiro político – sofrendo reveses acachapantes, como em 2007 e 2019, ou como protagonista, no comando do Senado várias vezes e agora relator da CPI que atormenta o governo de Jair Bolsonaro.

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Renan costuma ser problema e solução para os governos – a depender da circunstância. Foi de líder da tropa de choque a algoz do ex-presidente Fernando Collor, em 1992. Sete anos depois, saiu do Ministério da Justiça, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), trocando acusações com o então governador de São Paulo, o tucano Mário Covas. “O Covas pediu minha exoneração”, relembra.

Renan acusa o PT de tentar derrubá-lo da presidência do Senado em 2007, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de quem é amigo. Votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016. Chegou a afirmar que Michel Temer, do seu partido, o MDB, “fazia de conta” que governava o país em 2017. E agora virou peça relevante no xadrez do governo Bolsonaro.

Não há dúvidas nos corredores do Senado de que o relatório final da CPI, a ser apresentado por Renan na conclusão da investigação, será uma peça política pesada, com uma enxurrada de sugestões de responsabilizações do governo e, muito provavelmente, do próprio presidente.

“É uma investigação fácil de fazer, tem muita coisa aí, só fazer uma linha do tempo”, afirma Renan.

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“Quem decidiu incluir a cloroquina como política pública, com dinheiro público?”, questiona ele, em longa conversa com a Folha em seu espaçoso gabinete, um dos mais cobiçados do Senado.

Sobre as ameaças do ministro da Justiça, Anderson Torres, de escalar a Polícia Federal para investigar governadores, Renan leva alguns segundos para formular uma frase em tom de recado ao Planalto: “O governo não vai transformar a CPI em sucursal do gabinete do ódio”.

A CPI da Covid é comparada no Congresso a outras duas: a CPI dos Correios, que investigou em 2005 e 2006 o esquema do mensalão no governo Lula, e a do caso Collor, em 1992. “Eu estava na presidência do Senado na CPI sobre o mensalão e depus por quase nove horas na do Collor. Nenhuma CPI teve tanto apoio popular como essa da pandemia”, diz Renan.

Para ele, os depoimentos dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich à CPI na semana que passou foram essenciais para reforçar a narrativa de negacionismo do presidente Bolsonaro e de sua atuação a favor de medicamentos sem eficácias e contra medidas de isolamento social.

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Na avaliação do senador, um ministério da Saúde paralelo opera no governo, no que ele chama de “gabinete das sombras”.​

Com mandato até 2027, Renan transita por todos os lados da política e coleciona aliados com a mesma facilidade com que rompe com eles – e a mesma desenvoltura com que restabelece as relações. “Eu falo com todo mundo”, gaba-se.

Foto: Agência Brasil

E também leva tombos sem precedentes, submerge e, quando a política abre brecha, volta à cena.

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Renan não é um habitué de CPIs no Senado. Sua experiência mais marcante foi na condição de testemunha, em 1992, na CPI da Câmara que levou ao impeachment de Collor.

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Ele depôs por oito horas na época. Afirmou que Collor, hoje senador também por Alagoas, sabia do esquema de desvios de PC Farias, tesoureiro do ex-presidente. “Hoje, temos uma ótima relação pessoal, já me apoiou algumas vezes e eu o apoiei”, diz.

A saída do governo de FHC não foi seu único estranhamento com os tucanos. Em 2009, protagonizou histórico bate-boca com Tasso Jereissati (PSDB-CE) no plenário do Senado. “Não aponte esse dedo sujo para cima de mim”, disse o cearense na ocasião.

“O dedo sujo infelizmente é o de Vossa Excelência. O dedo dos jatinhos que o Senado pagou”, respondeu Renan, chamando o colega de “coronel de merda” fora dos microfones.

Doze anos depois, ele ri e minimiza o barraco. “Houve um excesso. Logo depois, procurei o Tasso e pedi desculpas”, diz. Hoje, ambos estão do mesmo lado na CPI da Covid.

Apesar da amizade com o ex-presidente Lula, Renan nunca digeriu o que classifica de movimentos do PT para derrubá-lo na crise que o levou a renunciar à presidência do Senado em 2007. “Dos 14 senadores do partido na época, 7 eram contra mim”, diz.

Para o hoje relator da CPI da Covid, o “lulismo” lhe é mais simpático do que o petismo. “A relação com o PT no Senado sempre foi conturbada, desde os tempos de Marina Silva, Heloisa Helena e Aloizio Mercadante”, lembra.

O senador alagoano debita da conta dos petistas uma alta fatura na crise de 2007. “Foi o momento mais difícil porque tive que me defender de uma questão pessoal, transformaram isso em um problema institucional.”

A Folha pergunta então sobre erros cometidos na carreira política. Não foram poucos, admite. E o maior deles, diz o senador, foi no escândalo que levou à sua renúncia da presidência.

Na tentativa de justificar que possuía recursos para a pensão da filha, ele entregou à TV Globo e outros jornalistas em Brasília a sua declaração de IR.

No documento da Receita, ele declarava manter na época cerca de 1.700 bois e búfalos em fazendas alagoanas. O Jornal Nacional foi à região e entrevistou comerciantes que negaram a compra dos bois do senador.

A crise, até então arrefecida, deu uma reviravolta, e Renan continuou sangrando politicamente, tendo de renunciar no fim daquele ano à presidência do Senado por causa de outra acusação, a de que usou laranjas para comprar veículos de comunicação.

O caso Mônica Veloso foi para os tribunais. Em 2018, o STF (Supremo Tribunal Federal) absolveu o senador da acusação de peculato feito pela PGR (Procuradoria-Geral da República).

Renan é alvo de oito inquéritos no STF. Teve seu nome vinculado a suspeitas de desvios e de recebimento de propina. O senador se diz inocente e atribui as acusações ao que classifica de perseguição de Rodrigo Janot, ex-chefe da PGR, e de Deltan Dallagnol, ex-coordenador da Lava Jato.

Logo após a queda em 2007, o emedebista se recolheu. “Aprendi muito com as derrotas, como a relação de ódio com a imprensa naquela época. Sempre priorizei o recomeço”, diz.

Anos depois, voltou à presidência do Senado, por duas vezes, nos biênios 2013-2015 e 2015-2017. Nesse período, o Senado aprovou o impeachment de Dilma.

Cinco anos depois, Renan diz que seu voto a favor da saída da petista foi uma estratégia para “acumular” capital político, articular o desmembramento do processo e manter Dilma elegível, o que acabou de fato ocorrendo.​

Reeleito senador em 2018, em uma eleição marcada pela renovação dos quadros do Senado, Renan arriscou novamente. E se deu mal na tentativa de ser eleito pela quinta vez para chefiar a Casa.

Sem apoio, anunciou a desistência da candidatura no meio da sessão de votação em uma tentativa de escapar de uma derrota avassaladora para Davi Alcolumbre (DEM-AP). “Vou ficar no segundo turno implorando voto?”, diz hoje. “Aquela renúncia foi uma opção.”

Dias antes da disputa, em fevereiro 2019, Renan recebeu uma ligação de Jair Bolsonaro. “O presidente me ligou a pedido do Flávio Bolsonaro [Republicanos-RJ] dizendo que gostaria de conversar comigo”, diz. O Palácio do Planalto, porém, trabalhou contra Renan em plenário. O próprio Flávio declarou voto em Alcolumbre naquela sessão.

Renan jamais engoliu o episódio. Assim como em 2007, novamente saiu de cena discretamente e, durante a pandemia da Covid-19, reapareceu com um discurso oposicionista.

Ajudou Randolfe Rodrigues (Rede-AP) a coletar assinaturas para a instalação da CPI. Em troca, o colega articulou para emplacá-lo na relatoria da comissão. E Renan reapareceu como protagonista para conduzir a apuração sobre as falhas do governo no combate a uma pandemia que já matou mais de 400 mil brasileiros.

Os governistas ainda tentaram impedi-lo de assumir alegando conflito de interesse por ter um filho governador de Alagoas – entre as funções da CPI está investigar os repasses federais aos estados.

“Não sou candidato a nada”, afirma o senador, quando questionado sobre suas pretensões políticas diante do holofote da CPI que hoje ilumina seus cabelos grisalhos e implantados. Nega também que esteja atuando a serviço de uma candidatura de Lula contra Bolsonaro em 2022.

Na semana passada, Lula esteve em Brasília para uma série de encontros políticos, mas passou longe de Renan. “Eu telefonei para ele [Lula] antes da viagem e disse que não seria aconselhável encontrá-lo, assim como não deveria encontrar o presidente Bolsonaro”, conta o senador.

Dias antes, Bolsonaro, aliás, encontrou-se com o ex-presidente José Sarney, do grupo político de Renan no MDB, como um gesto ao partido em meio a uma CPI majoritariamente antigoverno.

Bolsonaro não teria falado de CPI, mas questionado Sarney sobre as relações entre Lula e Renan. O ex-presidente minimizou o tema, e disse a Bolsonaro que há três crises em curso: uma internacional pandêmica, a econômica e uma crise política.

Renan não acha impossível, mas vê com ceticismo a possibilidade de a CPI estimular abertura de processo de impeachment de Bolsonaro.

O calendário político é um entrave, avalia. “Há uma agenda eleitoral em 2022. Dilma e Collor caíram no meio de seus governos”, diz.

Em seu discurso de renúncia à presidência do Senado, em 4 de dezembro de 2007, o senador apelou aos colegas para não ser cassado. Se o fosse, disse na época, ficaria inelegível até 2022. “A pena que se propõe é de morte política. Cívica. Uma violência sem tamanho”, declarou, na ocasião.​

Renan foi atendido lá atrás pelos pares. Cassado, não teria sido presidente do Senado por mais duas vezes, nem relator da CPI da Covid no governo Bolsonaro.​​ ​

As informações são da FolhaPress






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