LUANA LISBOA E JOÃO PEDRO PITOMBO
SÃO PAULO, SP, E SALVADOR, BA (FOLHAPRESS)
Foram 70 dias intensos de campanha. Em Propriá (SE), o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) liderou uma motociata montado em um quadriciclo carregado de apoiadores. Em Fortaleza, subiu no trio elétrico e arriscou os passos de um jingle tal qual um tiktoker.
A imagem sisuda do ex-promotor de Justiça, que no passado denunciou agentes penitenciários pela morte de presos e pediu a prisão de um general da reserva do Exército por fraude, ficou para trás.
Indicado ao posto de vice do senador Flávio Bolsonaro (PL) menos de 24 horas antes do anúncio da chapa presidencial, Alfredo Gaspar chega à votação deste domingo (25) com participação discreta na propaganda eleitoral, mas com uma agenda intensa de atos de campanha no Nordeste.
Gaspar foi escolhido de olho no desgaste do presidente Lula (PT) com o escândalo da Previdência. O deputado era relator da CPI do INSS e vinculou as fraudes em aposentadorias e pensões ao governo federal e a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente.
A escolha também indicou uma tentativa de Flávio Bolsonaro de fortalecer sua campanha no Nordeste, região onde o PT tem uma vantagem histórica em eleições presidenciais desde 2006.
Nas redes sociais, as agendas no Nordeste e o escândalo do INSS concentraram a maioria das publicações do candidato a vice-presidente. Nas últimas semanas, as postagens focaram a empresária Roberta Luchsinger, amiga do filho de Lula investigada por suspeita de tráfico de influência.
Com 1,1 milhão de seguidores no Instagram, Gaspar não pagou para impulsionar nenhuma publicação nos perfis oficiais durante a campanha, segundo levantamento da reportagem na biblioteca de anúncios da Meta. Sem anúncios, as postagens dependeram da própria base para circular.
Promotor de Justiça de carreira, Gaspar teve como porta de entrada na política a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas, pasta que comandou no governo Renan Filho (MDB). Adotava uma postura de xerife, perfil que fez sucesso na época na esteira da operação Lava Jato.
Teve relação próxima aos Calheiros antes mesmo de assumir o cargo. Quando ainda era Procurador-Geral de Justiça de Alagoas, seu filho Carlos Mendonça Neto foi nomeado para a direção da Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária de Alagoas.
Na ocasião, Alfredo Gaspar afirmou que não tinha relação com a nomeação do filho e que o cargo não o impediria de conduzir uma possível investigação que envolvesse o governo de Alagoas ou o governador.
Sua primeira disputa eletiva foi em 2020, quando concorreu à prefeitura de Maceió pelo MDB apadrinhado por Renan Filho e pelo senador Renan Calheiros (MDB). Chegou ao segundo turno, mas perdeu para o então deputado João Henrique Caldas, o JHC, hoje governador eleito pelo PSDB e seu aliado.
A aproximação com o bolsonarismo foi gradual. Em 2022, foi eleito deputado federal pelo União Brasil como o segundo mais votado do estado naquela eleição. A filiação ao PL aconteceu somente em março de 2026, a convite de Flávio, quando assumiu o diretório do partido no estado.
Inicialmente, seria candidato ao Senado por Alagoas. Sua indicação para o posto de vice ajudou a pacificar as oposições no estado, selando uma aliança entre JHC e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP), agora senador eleito.
A busca por um vice do PL para Flávio Bolsonaro se intensificou após o partido ficar sem o apoio do PP e do Republicanos. Segundo um amigo do deputado, Gaspar estava em Maceió quando recebeu a ligação de Flávio, em 4 de agosto.
Em parte da campanha, Gaspar esteve associado a um pedido de investigação por suspeita de estupro de vulnerável. O pedido foi arquivado pelo STF (Supremo Tribunal Federal). A campanha de Lula (PT) levou o caso ao horário eleitoral, mas a Justiça Eleitoral suspendeu o vídeo.
Gaspar classifica a acusação como um ataque criminoso de opositores, feito quando ele era relator da CPI. Ele move ação contra o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) sob acusação de calúnia, denunciação caluniosa, injúria e coação no curso do processo.
Natural de Maceió, Alfredo Gaspar tem 56 anos e é casado. À Justiça Eleitoral, declarou patrimônio de R$ 564,7 mil, que inclui casas e terrenos em Maceió e em Marechal Deodoro (AL), dois carros e cotas de um posto de combustível.
RAIO-X | ALFREDO GASPAR, 56
1970, Maceió – Advogado e ex-promotor de Justiça, foi secretário de Segurança Pública de Alagoas e é deputado federal pelo estado, filiado ao PL. Ganhou projeção nacional como relator da CPI mista do INSS, em que vinculou as fraudes em aposentadorias e pensões ao governo Lula. É candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.