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Política & Poder

Agnelo cometeu estelionato eleitoral, afirma João de Deus

Arquivo Geral

11/08/2013 10h16

Mesmo com raízes políticas e carreira de policial militar em Brasília, João de Deus da Silva Carvalho buscou novo desafio político na pequena Água Fria de Goiás. Foram três mandatos como deputado distrital e, nas duas últimas eleições, prefeito. Polêmico, ele não descarta uma volta à política do Distrito Federal, nem mesmo no próximo ano, e não poupa críticas ao governo Agnelo, principalmente na área de segurança pública. Até mesmo seu programa de rádio teria sido tirado do ar por pressão da atual gestão do GDF. Apesar de estar morando em Goiás, João de Deus continua a presidir a Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares do Distrito Federal (Aspra). E garante: na segurança, Agnelo cometeu estelionato eleitoral.

 

A política do DF não lhe interessa mais?

Interessa. Eu tenho muito o que agradecer  à Brasília e ao DF. Sou filho de um pequeno lavrador. A casa em que nasci não tinha nem telha, era de palha. De repente, eu vim pra cá, depois fui cabo e sargento da Polícia Militar e enveredei na vida política. Não gosto quando falam mal de Brasília. Eu tenho mandato de presidente da Aspra, até o final de 2014. Sou cidadão honorário de Brasília e me sinto no dever de defender a capital.

 

Pode concorrer mais uma vez a cargo eletivo em Brasília?

É possível. Depende das conjuminâncias. Eu sei que essa legislatura vindoura vai se bastante renovada.

 

A Câmara está menos representativa hoje em dia, em relação a sua época de deputado?

Muito menos. Havia debate, as discussões. Precisa ter a bancada do governo e a oposição, porque da oposição que gera a discussão. Eu acho que a Câmara foi dominada pelo governo atual, está dominada. 

 

O senhor foi vítima de censura? 

 Já tiraram meu programa de rádio no ar por duas vezes. Na rádio Atividade, eu fiquei 18 anos. Eu, que fui preso, perdi minha graduação, defendendo a liberdade, estou sendo vilipendiado por não poder falar o que as pessoas gostam de ouvir.  Aliás, meus dois programas foram os mais ouvidos de Brasília, porque o povo gosta, principalmente quando fica nessa inércia de ninguém falar mal do governo. Aí é que o povo gosta, quando tem alguém que levanta a voz e diz “chega, eu não concordo com isso”. 

 

Seus programas foram tirados do ar? Como ficou essa situação?

Do programa da Rádio Atividade eu saí. Ficaram falando se eu ia entrar na Justiça contra o Vigão, seu dono, mas não fiz isso, até porque, quando precisei, ele me deu oportunidade. Então, deixa pra lá. Não faço rádio para ganhar dinheiro. Faço rádio por gostar, por hobby.  Esse atual secretário, Abimael,: foi ele que forçou a barra com o Vigão para me tirar de lá. Ele falou que eu estava atrapalhando o governo. Aí eu fui demitido por telefone, assim como o Lula demitiu o Cristovam. Mas eu levei na esportiva. Aí depois vim para a 104 FM e saí depois que virou Mania FM. Estou por aí. Qualquer canal de comunicação que me chamar e aceitar o meu estilo, eu vou. Não vou para qualquer lugar para ter um cabresto.

 

Mesmo quando era da base governista, o senhor era tido como “incontrolável”.  Já havia ocorrido com o senhor uma censura como essa?

Não. Primeira vez. Eu sobrevivi ao Cristovam, Roriz, Arruda e nunca botaram o pé na parede para me tirar. Agora o Agnelo fez isso “ou me tiram ou cortam toda a publicidade”. Alguém falou que algumas rádios estavam recebendo R$ 1,2 milhão. Então eu penso que esse é o preço que eu valho. Sobrevivi a todos, menos o Agnelo. Inclusive, era uma pessoa que eu jamais imaginava. Agora eu entendi que a democracia que eles querem é a democracia deles.

 

Como o senhor vê essa tendência de censura por parte do GDF nos últimos tempos?

É algo inconcebível, um ato muito violento, um atentado contra o direito de ir e vir, liberdade de expressão, contra a democracia e contra o atual momento que vive o nosso país. Perde o povo e perde o governo. Aliás, o governo é o maior perdedor, porque as pessoas levam a notícia.

 

Como o senhor avalia o governo Agnelo? Quais os principais defeitos e qualidades?

Péssimo. Eu sou um indivíduo de periferia. Eu às vezes ponho uma chinela de dedo e saio de cara para cima na rua e ouço e vejo as pessoas falarem do governo, sem eu provocar. Para saber como está o governo, vai para a periferia, vai para a porta de um hospital público, de uma delegacia. Aí você vê o clamor do povo por atitudes mais enérgicas do estado, para proteger os cidadãos, principalmente os mais carentes. É inconcebível fazer um estádio de R$ 2 bilhões e não ter uma seringa para aplicar uma injeção em um paciente carente que chega a um hospital público. 

 

Voltando a sua área, como avalia a segurança, já que tem um diálogo com os policiais?

Na verdade, o governador Agnelo cometeu um estelionato eleitoral, com os policiais militares, bombeiros e policiais civis. O Agnelo e o Tadeu Fillipelli fizeram uma carta com 13 itens. Prometeu que ia dar o mar com todos os peixinhos e o céu com todas as estrelas. Até agora não cumpriu uma sequer. Eu desafio o governo Agnelo a me mostrar que cumpriu uma só  promessa  daquela carta.

 

Qual o sentimento da corporação?

Angústia, decepção. O indivíduo fica desmotivado, porque quando um governador promete algo para uma categoria e não cumpre, além de ser odiado pela categoria, ele desmotiva o afinco no combate à criminalidade. Por isso que Brasília é uma das campeãs de sequestro relâmpago, é o sétimo lugar em violência e furto de carro.

 

Como  avalia o episódio da capas de chuva, que levou à exoneração do comandante da PM?

Aquilo me cheirou muito mal, porque hoje o policial recebe o dinheiro para comprar o seu uniforme. Então porque a polícia comprar a capa para ele? Acho que por trás disso existiu uma trapicolada, coisas peçonhentas. Sobre a demissão do Suamy, como o Agnelo precisava de um comandante como ele, para dar um tranco nos colegas. Depois disso, a coisa foi se pacificando internamente, mas externamente, o governo começou a ser odiado pelos atos do Suamy. Agnelo soube disso e procurou uma maneira de fritar o Suamy, que foi torrado pelas chuvas de junho.

 

Qual a sua avaliação sobre a situação do policial João Dias?

Por muito menos do que ele fez, eu fui expulso da polícia.  Nunca joguei R$ 200 mil em ninguém e ele fez isso com a secretária do Paulo Tadeu, dizendo que era um dinheiro sujo e foi aposentado com todos os direitos. Como é que um indivíduo se aposenta na polícia e vai dar aula de taekwondo, caratê? Um cara jovem daqueles. Qual foi o diagnóstico que deram para ele? Diagnóstico de cala boca? Se ele resolvesse falar, haveria choro e ranger de dentes.

 

O senhor falou sobre a Câmara perdendo o papel de ressonância. Qual o papel da oposição nessa questão?

Parece que o único macho que tem lá é a Celina Leão. Quais são os outros da oposição, fora ela e a Liliane (Roriz)? Não vejo ninguém. O governo dominou os deputados por completo e deve ter feito alguns acordos, alguns bons, outros peçonhentos, que no futuro a sociedade vai conhecer.  

 

Na sua opinião, o Agnelo vai ser candidato, o PT vai arranjar outro candidato? 

No PT, Magela. Dentro das entranhas do governo, existe outro nome bom, com experiência, e se fizer um bom acordo com a direita e pode dar trabalho é o Filippelli. Mesmo tendo o rótulo de vice do Agnelo. Mas tem experiência, já foi deputado distrital e federal, secretário de Habitação, de Obras.

 

E na oposição?

Um cara jovem, o Rodrigo Rollemberg, que, dependendo das combinações com Cristovam e Reguffe pode ser um bom nome.

 

Qual desses nomes está mais forte, na sua opinião?

O Rodrigo eu vejo em condições. Ouvi dizer que o Cristovam ia ser candidato, mas ele vive no mundo dos livros. Se ele fosse candidato, Agnelo não estaria aqui.

 

As pesquisas sempre mostram os nomes de Roriz e Arruda como fortes entre as intenções de voto. Esses nomes emplacam?

Roriz tem uma história no DF, principalmente em relação às camadas mais carentes. O Arruda começou o governo de um forma bem forte, mas deu no que deu. Na eleição o povo vai olhar muito para isso. 

 

O próprio Roriz concorreria ou seria uma das filhas?

Já falei para a Liliane, ela me perguntou, que não deveria ser candidata. Acho que nem a vice, porque precisava de mais experiência. 

 

E sobre a experiência como prefeito, como está sendo lá em Água Fria?

O prefeito e o vereador são os políticos mais próximos do povo. Já tive que resolver o problema de um morador da cidade, que tinha a plantação comida pelas galinhas do vizinho. Resolvo desde os menores problemas, até os mais cabeludos. Sem falar na questão da droga. Ora, minha origem é a segurança pública. Água Fria é uma cidade pequena, com duas entradas. Não posso aceitar que minha cidade seja tomada por craqueiro ou traficante. Aí estipulei um prêmio de mil reais, para quem denunciasse. Em uma semana, prendemos três traficantes. 

 

Para o ano que vem é mais difícil uma candidatura sua?

Não. Ainda tem tempo hábil para isso. Até setembro, tem a questão da mudança de domicílio. 

 

O senhor já foi sondado?

Sim. Posso dizer que fui sondado pelo Rodrigo Rollemberg, também pelo vice-governador, Tadeu Fillipelli, pelo meu amigo Luiz Estevão — não tenho vergonha de dizer que sou amigo dele. 

 

Já sabe se vai, mesmo, transferir o domicílio para cá?

Não, ainda não. Mas é possível que sim e que não. Eu vou ajudar alguém, mesmo que não seja candidato, eu quero participar do processo eleitoral e vou, se Deus quiser. Nem que seja como cabo eleitoral. Claro que vou me conduzir para aquele que tiver a melhor proposta para as categorias de policiais e bombeiros.

 

Sua categoria está bem representada?

Não, fomos abandonados. Inclusive, depois do prazo de mudança de domicílio, vamos fazer um trabalho de cobrança do governo, com cartazes, outdoors, carros de som. Agnelo terá uma grande surpresa. Vamos para o aeroporto, com faixas. “Bem vindo à Brasília, campeã de sequestros relâmpago”. Isso quem vai estar falando é a associação de policiais, não é qualquer um, sem conhecimento.

 

Como o senhor acha que Brasília tem que se preparar para as manifestações durante a Copa do Mundo?

É até possível que eu esteja lá junto com os manifestantes, pedindo tratamento de saúde padrão Fifa, que agora virou moda. 

 

A operação tartaruga na PM continua?

Continua. Não é uma determinação da Aspra, mas é uma orientação. Continua de uma forma involuntária. Porque o governador veio, fez um estádio e gastou milhões. Não cumpriu nada que promete para a categoria. Aí o policial, involuntariamente, acaba fazendo isso. Temos policiais que correm atrás da vagabundagem, valorosamente. Mas sempre tem o policial que vai dizer  “mas, peraí, nós estamos fazendo tudo isso e eles não nos valorizam. Posso levar um tiro aqui e parar numa cadeira de rodas”. O governo foi inábil. O Fillipelli até me disse que era possível cumprir, mas seria necessário apoio do governador. 

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