segundo andar do Palácio do Planalto. Ali estava um grupo de extremistas com suas camisas verde e amarelas e roupas camufladas. Uns poucos traziam bandeiras do Brasil. A tropa do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), do Exército, – todos com equipamento de controle de ditúrbios civis – fazia uma barreira para impedir que os detidos voltassem para os andares superiores do prédio. Foi quando um militar do BGP começou a filmar a cena com seu celular. É a este vídeo que o Estadão teve acesso
Os extremistas estavam ainda dispersos e de pé. Um deles tentava convencer os militares do Exército: “Você precisa nos ajudar!” As palavras ficaram suspensas no ar do imenso salão, em meio ao alvoroço da multidão. De repente, uma voz de comando se faz ouvir: “Senta! Senta todo mundo!” O burburinho continua. Os extremistas hesitam por alguns instantes até que a mesma voz dá uma nova ordem: “Cala a boca! Cala a boca! Ninguém fala aqui!”
Nesse momento, um outro PM caminha em meio ao grupo de extremistas. “Acabou, acabou a brincadeira. Abaixa a mão!” E caminha com uma vara em dois extremistas. É quando uma mulher com a camisa da seleção se levanta cambaleante. “Tem uma mulher que está passando mal aqui”, alerta um soldado. Quando ela se aproxima do comandante da tropa, o policial ordena aos subordinados: “Algema. Vai algemada.” De imediato, os PMs dão uma rasteira na mulher, que a joga no chão, diante dos gritos de protestos dos demais detidos, que pedem ajuda ao Exército – um oficial do BGP vai então conversar com os PMs. Segundos depois, a mulher se levanta algemada e é conduzida pelo policial.
A cena toda dura cerca de 1 minuto e 30 segundos. Ela é um dos vídeos de que o Exército dispõe sobre a atuação dentro do Palácio do Planalto. E só foi divulgado pelos militares depois que PMs publicaram outro vídeo em que o coronel Paulo Jorge Fernandes, comandante do BGP, é contido por um PM. Na interpretação dos PMs, o oficial tentava permitir a fuga dos extremistas detidos, enquanto os policiais estavam ali para prendê-los. Na versão do Exército, o vídeo que mostra o coronel foi editado para comprometer o oficial, que apenas tentava conter excessos praticados durante as prisões. Uma manifestante idosa detida chegou a acusá-lo: “Você é um traidor”.
Também na versão dos PMs, os militares do Exército estavam desorientados, sem saber o que fazer. Oficiais do Exército ouvidos pelo Estadão negam e dizem terem sido eles os responsáveis pelas prisões e desocupação dos quarto e terceiro andares do Planalto, antes da chegada dos PMs, que foram convocados pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Na quinta-feira, o general Marco Edson Gonçalves Dias, ministro-chefe do GSI, afirmou ao site Metrópoles que foi dele a ordem para prender os extremistas que invadiram a sede do Poder Executivo. Vídeos encontrados pelo Estadão mostram que a ação toda foi premeditada.
Outro fato polêmico envolvendo a operação de retomada do Palácio do Planalto foi a fuga da extremista Ana Priscila Azevedo. Quando os golpistas invadiram o lugar, depredando e destruindo o que viam pela frente, militares do Exército chegaram a deter Priscila, uma das principais lideranças do movimento criminoso identificadas até agora. Porém, a radical não figurou na lista de presos no prédio. Ela organizou caravanas até Brasília e aparece em vídeo sentada e rodeada pelos militares do Exército. Como mostrou o Estadão, nas imagens, ela comemora, sem nada dizer e apenas fazendo gestos militares, o resultado da invasão. Dois dias depois, ela foi localizada e presa pela Polícia Federal por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), em Luziânia (GO).
O Estadão revelou ainda que o Comando Militar do Planalto (CMP) decidiu abrir um Inquérito Policial-Militar (IPM) para apurar a ação do BGP durante a retomada do Palácio, em poder dos extremistas. Também abriu um IPM para apurar a conduta do coronel da reserva Adriano Camargo Testoni, que participou dos eventos do dia 8, chamados pelos extremistas de “tomada do poder”. Testoni divulgou vídeos ofendendo o Alto Comando do Exército e a própria instituição por não terem apoiado a ação dos radicais. Apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o militar era contrário à posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No dia anterior ao ataque aos prédios dos três Poderes, o GSI dispensou o reforço que havia sido enviado pelo CMP para a guarda do Planalto. O pelotão com 36 homens deixou a sede do Executivo e voltou para o BGP, onde permandeceu de prontidão. Só no dia seguionte, quando os extremistas começaram a marchar pela Esplanada é que os militares, por miniciativa do CMP voltaram.
Estadão Conteúdo