Eu estava no Café del Mar, em Ibiza, óculos escuro, espumante gelado, pôr do sol fazendo aquele número dele todo. Aí o telefone toca. Eu atendo. E a pessoa do outro lado começa a frase com “Kátia, senta que lá vem”. Eu já sentei antes de ela terminar. Larguei a taça, virei de lado na espreguiçadeira e ouvi a história inteira com o sol descendo no meio do mar. Tem tarde que a gente escolhe. Tem tarde que a tarde escolhe a gente.
Cris Galera, 38 anos, revelou que parou de frequentar academia depois de passar por episódios de orgasmo involuntário durante exercícios de fortalecimento do abdômen. No começo ela achou que fosse coincidência. Depois percebeu que a coisa acontecia sempre nos mesmos movimentos, sempre no mesmo lugar, sempre com a sala cheia. E aí, meus amores, coincidência vira padrão.

O fenômeno tem nome, tem sigla, tem estudo e tem gente séria pesquisando. Chama coreorgasmo, acontece sem nenhum estímulo sexual direto e aparece justamente em atividades que exigem ativação pesada do core e do assoalho pélvico. Pesquisadores americanos já mapearam centenas de mulheres relatando exatamente isso, e boa parte dos casos concentrada em abdominal. Ou seja: a informação existe há anos. Só não chegou na academia. Chegou creatina, chegou pré treino, chegou aquele rapaz explicando cadência de repetição para quem não perguntou. Assoalho pélvico que é bom, ninguém comenta.
E a solução dela foi de uma lógica que eu respeito profundamente. Cris não procurou tratamento, não fez terapia, não abriu uma cruzada. Ela simplesmente mudou de cenário. Trocou o ambiente fechado por corrida, caminhada e treino em lugar com privacidade. Não parou de cuidar da saúde. Parou de fazer isso na frente da plateia. Existe uma inteligência prática nesse movimento que muita gente com equipe de crise inteira não teve.
Agora, a parte que me pegou de verdade. Ela passou anos achando que era a única mulher do planeta naquela situação. Com medo de alguém perceber. Sem entender o que estava acontecendo no próprio corpo. Quando descobriu que aquilo tinha nome, sentiu alívio. Alívio, gente. A mulher precisou de um diagnóstico para parar de achar que era um defeito de fabricação. E isso não diz nada sobre ela. Diz tudo sobre o tanto de informação básica que não circula em um setor que vive vendendo conhecimento sobre o corpo humano.

Ela resolveu falar porque acha que, se aconteceu com ela, acontece com muita gente calada. Está coberta de razão. Eu desliguei o telefone, coloquei o óculos de volta, olhei para o mar e pensei que a internet inteira vai passar o dia rindo do assunto errado. O engraçado nunca foi a Cris. O engraçado é uma indústria bilionária de fitness que sabe explicar hipertrofia de bíceps em três idiomas e não sabe explicar isso em nenhum. Brindei sozinha. O espumante ainda estava gelado.