Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana, advogada internacional, empresária e presidente do Instituto Cidadania Italiana
Em um cenário global marcado por instabilidade geopolítica, tensões econômicas e reconfiguração de poder, a aproximação entre Europa e América Latina deixou de ser apenas uma pauta diplomática para se tornar uma estratégia essencial de futuro. Nos últimos anos, líderes europeus têm reforçado alianças com países latino-americanos, buscando novos parceiros diante de um mundo cada vez mais multipolar, imprevisível e energeticamente desafiador. Nesse contexto, a relação entre Itália e Brasil emerge não apenas como simbólica, mas como profundamente estratégica.
A guerra na Ucrânia evidenciou de forma contundente a vulnerabilidade energética europeia. Ao mesmo tempo, metas ambiciosas como as estabelecidas pelo Pacto Verde Europeu, que prevê reduções expressivas de emissões até 2035, exigem soluções concretas, escaláveis e economicamente viáveis. É nesse cenário que a América Latina ganha protagonismo, deixando de ser apenas uma região historicamente conectada à Europa para assumir o papel de parceira estratégica, aliada energética e eixo de estabilidade em um mundo fragmentado. Dentro desse contexto, o Brasil ocupa uma posição central.
O Brasil não é apenas um parceiro, é parte da solução. Com uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, o país combina escala, eficiência e sustentabilidade. Cerca de 85% a 90% da eletricidade brasileira é gerada a partir de fontes renováveis, enquanto o país lidera globalmente a produção de biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar, por exemplo, possui uma pegada de carbono significativamente inferior à da gasolina, além de elevada produtividade. Soma-se a isso o enorme potencial para o desenvolvimento do hidrogênio verde, impulsionado por políticas públicas recentes e por um ambiente regulatório cada vez mais estruturado. Esse conjunto posiciona o Brasil como protagonista na transição energética global.
Se o Brasil oferece escala e recursos, a Itália aporta tecnologia, conhecimento industrial e influência estratégica dentro da União Europeia. Durante minha atuação no Parlamento italiano, tive a oportunidade de liderar iniciativas que colocaram o etanol brasileiro no centro do debate energético europeu, incluindo a aprovação de uma moção pioneira para ampliação da mistura de biocombustíveis na gasolina. Hoje, com o avanço de diretrizes como a RED III, a Europa reconhece o papel dos biocombustíveis avançados, abrindo espaço para soluções que o Brasil já domina.
A convergência entre Europa e América Latina ganha forma concreta por meio de parcerias industriais e investimentos. Empresas como a Eni já demonstram interesse crescente no Brasil, especialmente em áreas como biocombustíveis avançados, combustível sustentável de aviação e hidrogênio verde. Essa cooperação permite não apenas acelerar a descarbonização da economia europeia, mas também gerar empregos, fomentar inovação e reduzir custos energéticos. Trata-se, portanto, de uma relação baseada em pragmatismo econômico, e não apenas em discurso ambiental.
A ampliação do uso de biocombustíveis brasileiros na Europa pode reduzir significativamente a dependência energética do continente, ao mesmo tempo em que impulsiona cadeias produtivas sustentáveis no Brasil. Esse movimento pode ocorrer sem avanço sobre áreas de preservação, utilizando, por exemplo, terras degradadas e promovendo uma transição energética que seja ao mesmo tempo eficiente, inclusiva e ambientalmente responsável. Esse é o verdadeiro sentido de uma transição justa: alinhar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e geração de oportunidades.
A reaproximação entre Europa e América Latina vai além da agenda energética. Ela reflete uma convergência de interesses em temas como inovação tecnológica, segurança alimentar, sustentabilidade e defesa da democracia. A intensificação de encontros multilaterais e a retomada de negociações estratégicas indicam que essa parceria está se consolidando como um dos pilares da nova ordem global.
A realização da COP30 na Amazônia reforçou esse protagonismo conjunto. O Brasil apresentou ao mundo sua força em bioeconomia e matriz limpa, enquanto a Itália consolidou seu papel como ponte estratégica entre Europa e América Latina. O desafio, agora, é transformar esse alinhamento em ações concretas, por meio de acordos bilaterais, certificação de biocombustíveis, criação de fundos conjuntos de investimento e programas de capacitação técnica que integrem inovação europeia à escala brasileira.
Itália e Brasil têm todos os elementos necessários para liderar a nova geopolítica da energia no século XXI. Não será o petróleo que definirá os protagonistas do futuro, mas a capacidade de produzir energia limpa, acessível e sustentável. Como ex-parlamentar italiana e advogada internacional, reafirmo que essa parceria não é apenas desejável, é estratégica e inevitável.
O futuro da transição energética global passa por uma cooperação sólida entre Europa e América Latina. E, nesse cenário, Roma e Brasília não são apenas centros políticos, mas polos de transformação capazes de demonstrar ao mundo que desenvolvimento econômico, preservação ambiental e justiça social podem caminhar juntos.
