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‘Último nazista no Canadá’ morre aos 97 anos antes de ser deportado

De origem alemã e nascido em uma cidade hoje pertencente à Ucrânia, Oberlander se mudou para o Canadá em 1954, com a mulher

Por FolhaPress 26/09/2021 9h19

Helmut Oberlander morreu aos 97 anos, em sua casa em Waterloo, na última segunda-feira (20), cercado por entes queridos. Descrito pela família como sujeito caridoso e um homem de família, para a polícia federal ele era, na verdade, o último nazista no Canadá. O Estado buscava, desde 1995, sua deportação, que estava prestes a finalmente acontecer.

De origem alemã e nascido em uma cidade hoje pertencente à Ucrânia, Oberlander se mudou para o Canadá em 1954, com a mulher, e recebeu a cidadania seis anos depois. O governo descobriu, mais tarde, que ele omitiu, ao entrar no país, o fato de ter colaborado como intérprete para um esquadrão da morte nazista na invasão à União Soviética.

A morte fez a família defendê-lo, usando a definição de um homem de negócios devotado à fé e a sua comunidade, mas o episódio também levou analistas e instituições de memória do judaísmo a criticar o governo canadense pela forma com que lida com supostos colaboradores do nazismo em seu território.

Segundo o jornal The Globe and Mail, Oberlander era a última pessoa com cidadania canadense viva de um grupo de 12 acusados de envolvimento com atrocidades cometidas na Segunda Guerra pelas forças de Adolf Hitler.

Ao mesmo veículo, Irwin Cotler, ex-parlamentar liberal que atuou como ministro da Justiça nos anos 2000, disse que a morte de Oberlander deixa lições que devem ficar claras para todos.

“Temos criminosos de guerra residentes no Canadá, de diferentes campos de extermínio”, disse. “Não temos capacidade de investigação nem abordagem legal de reparação para fazer o que tem de ser feito da forma mais eficaz possível.”

Para ele, o processo de julgamento dessas pessoas deve ser revisto. “Esse caso reflete um padrão de atraso tal que a justiça acabou nunca sendo, de fato, feita”, afirmou.

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As primeiras suspeitas contra Oberlander surgiram já em 1963, mas só em 1995 o Canadá iniciou oficialmente as investigações contra ele. À época, depois do julgamento de um ex-militar húngaro acusado por seu papel na deportação de judeus para campos de extermínio, o país passou a privar suspeitos da era nazista de obter ou permanecer com a cidadania canadense, enviando-os de volta à Europa.

Ao longo dos últimos 26 anos, o idoso travou uma batalha judicial para ficar no Canadá. Ele foi destituído de sua cidadania em 2001, mas recorreu. O documento foi revogado mais três vezes, em 2007, 2012 e 2017, e novamente ele pôde apelar a decisão.

Em 2019, porém, a Suprema Corte manteve a cassação da cidadania, abrindo as portas para um processo de deportação. No começo deste mês, nas audiências finais no Conselho de Imigração e Refúgio, os advogados de Oberlander pediram a extinção da ação, com o argumento de que o cliente estava com a saúde debilitada e no fim da vida.
O idoso alegou aos policias canadenses, na investigação de que foi alvo em 1995, que foi recrutado pelos chamados Einsatzgruppen nazistas à força —e que fugir ou desertar significaria ser executado. No depoimento, ele ainda afirmou que fez apenas tarefas não violentas, como tradutor, e que não participou de assassinatos na Segunda Guerra.

“Eu tinha apenas 17 anos —era só uma criança”, disse aos oficiais.

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A um jornal local, sobre a batalha judicial travada contra o Estado por sua cidadania, afirmou: “Vou lutar até morrer ou ficar sem dinheiro, o que vier primeiro”.








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