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Mundo

Sobreviventes de ciclone em Mianmar lutam sozinhos para reconstruir casas

Arquivo Geral

26/05/2008 0h00

Três semanas depois da passagem do ciclone “Nargis” arrasar o sul de Mianmar, case os desabrigados lutam sozinhos para reconstruir suas casas e tentam retomar a vida normal, embora o medo de uma nova tempestade permaneça.


Por toda a estrada que corta o delta do rio Irrawaddy, a zona mais devastada pelo ciclone, famílias inteiras trabalham dia e noite carregando bambus, recolhendo folhas secas e levantando escombros, enquanto policiais e militares jogam baralho nos vários postos de controle espalhados pelo local.


Na única estrada transitável da região, os motoristas pagam um pedágio de 500 kyats (menos de US$ 0,50) e recebem um panfleto amarelo no qual se adverte que está proibido repartir comida sem autorização.


O caminho é cheio de rostos fracos, sem esperança, que esperam a ajuda de alguém diante de suas casas destruídas.


Para muitos, uma singela estrutura de bambu apoiada em alguns troncos, coberta com plástico e com um telhado de folhas secas, serve como moradia provisória.


Em um dos plásticos, colocado sobre quatro pedaços de madeira precária, é possível ler: “UNHCR” (sigla em inglês para Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).


Porém, como a maior parte da pouca ajuda humanitária que chega à região é destinada aos campos de deslocados administrados pelo Governo, eles não recebem nada.


“Não há comida, não há nada. Só temos isto”, informa à Agência Efe um camponês de meia-idade em uma pequena aldeia espalhada pelo delta, aonde só é possível chegar caminhando entre os arrozais destruídos pelo “Nargis”.


Incapaz de soletrar seu nome por não saber ler nem escrever, o homem explica com gestos como a tempestade destruiu a colheita onde trabalhava junto a mais quatro famílias.


O camponês é consolado por duas de suas filhas, que têm o rosto coberto por “thanaka” – uma espécie de pomada esbranquiçada com crosta de árvore moída que muitas mulheres usam tanto como maquiagem quanto como protetor solar.


“A madeira está estragada devido à água da tempestade”, explica uma delas, Maw Za, de doze anos, e que fala alguma coisa de inglês porque vai à escola em Daedaye, a cerca de 120 quilômetros ao sudeste de Yangun.


Ali, entre os edifícios de cimento que resistiram ao ciclone, ficava o colégio, que deve retomar as aulas em assim que terminarem as férias oficiais do verão.


À medida que se avança pelo estreito e empoeirado caminho, a devastação do ciclone torna-se cada vez mais evidente, embora três semanas depois da tragédia as árvores arrancados pela raiz já não sejam um obstáculo no caminho.


Os telhados que voaram com a tempestade continuam nos mesmos povoados onde caíram e nada é descartado, como as montanhas de lodo misturado a escombros.


Na estrada principal, os motoristas das caminhonetes carregadas com sacos de arroz e batatas, a maioria sem distintivo de organização alguma, tiram um dinheiro extra levando passageiros que vão sentados sobre as próprias caixas ao lado do veículo.


Ao longe, nota-se uma pessoa vagando pelos arrozais em busca de restos de cereal para colocar em sua sacola.


O arroz colhido após o ciclone é de péssima qualidade, pois ficou mergulhado na lama e tem excessiva quantidade de areia e sal.


Sua ingestão tem um valor nutritivo praticamente nulo, mas neste momento é a única coisa que muitos dos desabrigados no delta possuem.


Os camponeses não sabem se conseguirão realizar a colheira feita habitualmente entre os meses de maio e junho.


“Já perdemos a última colheita e é provável que não tenhamos arroz nos próximos seis meses, caso não nos dêem sementes”, afirmou U Nyae, o chefe de um dos povoados.


 

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