Por toda a estrada que corta o delta do rio Irrawaddy, a zona mais devastada pelo ciclone, famílias inteiras trabalham dia e noite carregando bambus, recolhendo folhas secas e levantando escombros, enquanto policiais e militares jogam baralho nos vários postos de controle espalhados pelo local.
Na única estrada transitável da região, os motoristas pagam um pedágio de 500 kyats (menos de US$ 0,50) e recebem um panfleto amarelo no qual se adverte que está proibido repartir comida sem autorização.
O caminho é cheio de rostos fracos, sem esperança, que esperam a ajuda de alguém diante de suas casas destruídas.
Para muitos, uma singela estrutura de bambu apoiada em alguns troncos, coberta com plástico e com um telhado de folhas secas, serve como moradia provisória.
Em um dos plásticos, colocado sobre quatro pedaços de madeira precária, é possível ler: “UNHCR” (sigla em inglês para Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).
Porém, como a maior parte da pouca ajuda humanitária que chega à região é destinada aos campos de deslocados administrados pelo Governo, eles não recebem nada.
“Não há comida, não há nada. Só temos isto”, informa à Agência Efe um camponês de meia-idade em uma pequena aldeia espalhada pelo delta, aonde só é possível chegar caminhando entre os arrozais destruídos pelo “Nargis”.
Incapaz de soletrar seu nome por não saber ler nem escrever, o homem explica com gestos como a tempestade destruiu a colheita onde trabalhava junto a mais quatro famílias.
O camponês é consolado por duas de suas filhas, que têm o rosto coberto por “thanaka” – uma espécie de pomada esbranquiçada com crosta de árvore moída que muitas mulheres usam tanto como maquiagem quanto como protetor solar.
“A madeira está estragada devido à água da tempestade”, explica uma delas, Maw Za, de doze anos, e que fala alguma coisa de inglês porque vai à escola em Daedaye, a cerca de 120 quilômetros ao sudeste de Yangun.
Ali, entre os edifícios de cimento que resistiram ao ciclone, ficava o colégio, que deve retomar as aulas em assim que terminarem as férias oficiais do verão.
À medida que se avança pelo estreito e empoeirado caminho, a devastação do ciclone torna-se cada vez mais evidente, embora três semanas depois da tragédia as árvores arrancados pela raiz já não sejam um obstáculo no caminho.
Os telhados que voaram com a tempestade continuam nos mesmos povoados onde caíram e nada é descartado, como as montanhas de lodo misturado a escombros.
Na estrada principal, os motoristas das caminhonetes carregadas com sacos de arroz e batatas, a maioria sem distintivo de organização alguma, tiram um dinheiro extra levando passageiros que vão sentados sobre as próprias caixas ao lado do veículo.
Ao longe, nota-se uma pessoa vagando pelos arrozais em busca de restos de cereal para colocar em sua sacola.
O arroz colhido após o ciclone é de péssima qualidade, pois ficou mergulhado na lama e tem excessiva quantidade de areia e sal.
Sua ingestão tem um valor nutritivo praticamente nulo, mas neste momento é a única coisa que muitos dos desabrigados no delta possuem.
Os camponeses não sabem se conseguirão realizar a colheira feita habitualmente entre os meses de maio e junho.
“Já perdemos a última colheita e é provável que não tenhamos arroz nos próximos seis meses, caso não nos dêem sementes”, afirmou U Nyae, o chefe de um dos povoados.