A Rússia está estudando um veto total à exportação de seu óleo diesel, algo que afetaria diretamente o Brasil, que tem no país de Vladimir Putin seu maior fornecedor internacional do derivado do petróleo.
Segundo disse nesta terça-feira (23) o vice-premiê Alexander Novak, considerado o czar do setor energético por supervisionar suas atividades, a medida e outras podem ser necessárias para estabilizar os preços no mercado interno russo.
O problema é a renovada campanha de ataques com drones e mísseis da Ucrânia, país invadido por Putin em 2022, contra o sistema energético russo. A queda de produção de derivados como a gasolina nas refinarias do país chegou a 25% no começo deste mês, segundo consultores locais.
Novak afirmou que também poderão ser tomadas medidas tarifárias, como novas taxas de exportação, o que também implicaria aumento de custos para os brasileiros.
Desde o início da Guerra da Ucrânia, o Brasil passou a elevar sua compra de diesel russo, vendido com descontos atrativos dadas as sanções que clientes usuais de Moscou passaram a aplicar no fim de 2022, como países europeus.
Em maio, mesmo com a queda já relatada na produção russa, o diesel de Moscou foi dominante na pauta de importação do derivado pelo Brasil, com quase 75% dos desembarques no país. Os Estados Unidos vêm num distante segundo lugar.
No mercado brasileiro, que depende fortemente do diesel para fazer circular suas mercadorias dado o uso intensivo da malha rodoviária, a Petrobras fornece cerca de 70% do produto. O restante vem de fora.
Desde que a Europa impôs um teto progressivo às compras de petróleo e derivados russos, algo menos radical inicialmente no caso do gás natural pela dependência que tinha de Moscou, o Brasil tornou-se o terceiro maior comprador do diesel russo.
Segundo o norueguês Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, do início das sanções europeias até maio deste ano, 11% do derivado foi embarcado para o Brasil, pouco menos do que o índice da China (13%).
Lidera a lista com 26% das vendas a Turquia, país que é membro da aliança militar Otan e apoia o esforço de guerra de Kiev, mas tem boas relações com Moscou. No caso do petróleo, a pauta exportadora russa é dominada pela China e pela Índia, parceiras da Rússia no bloco Brics assim como o Brasil.
Para a Rússia, a questão é tão econômica quanto política. Os recentes ataques ucranianos, que fizeram cair em 15% a exportação do petróleo cru do país em maio devido aos danos a terminais marítimos, levaram a crises na oferta de diesel e gasolina em diversas regiões.
No Extremo Oriente e na Crimeia anexada em 2014 da mesma Ucrânia, o cenário é mais crítico, com filas relatadas em postos de combustíveis e limitação para a compra dos produtos.
Também nesta terça, Putin havia dito mais cedo que as ações visam desestabilizar o país, e pediu maior proteção contra drones e mísseis a suas Forças Armadas.
Novak disse que pesa na situação, que qualificou de complexa, atrasos nos consertos de refinarias e outras instalações atingidas. Segundo o jornal econômico Vedomosti, o país poderia até importar combustíveis, mas isso não foi confirmado pelo vice-premiê.
Esse contexto turva os ganhos que Putin havia logrado inicialmente com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, quando os preços globais do petróleo haviam subido e restrições ao produto russo foram retiradas para evitar uma crise ainda maior.
Com isso, em abril a Rússia teve a maior receita com exportação de petróleo e derivados desde o começo do conflito com o vizinho, aumentando seu cofre de guerra e levando à ação de Kiev.