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O véu cai pouco a pouco no Irã, mas as restrições persistem

Redação Jornal de Brasília

27/04/2026 8h25

Foto: AFP

Foto: AFP

Imagens de mulheres passeando ou tomando café com a cabeça descoberta, desafiando a obrigação de usar véu, são cada vez mais comuns em Teerã. Mas para Elnaz, de 32 anos, não representam qualquer avanço.

“Isso não é de forma alguma sinal de uma mudança por parte do governo. Não foi obtido nenhum progresso em matéria de direitos das mulheres”, afirma essa pintora que, como outros iranianos contatados pela AFP a partir de Paris, pediu para permanecer anônima.

A obrigação de usar véu, adotada após a Revolução Islâmica de 1979, continua em vigor no Irã. Mas a aplicação da regra, considerada um pilar da teocracia iraniana, parece ter sido relaxada, ao menos em alguns bairros da capital e em outras cidades.

A tendência começou após as manifestações de 2022-2023, desencadeadas pela morte sob custódia, em setembro de 2022, de Mahsa Amini, uma jovem detida em Teerã por supostamente infringir esse código de vestimenta.

Continuou durante a guerra de junho de 2025 contra Israel, nos protestos de dezembro pelo custo de vida, e no contexto da atual guerra contra os Estados Unidos e Israel, suspensa por um frágil cessar-fogo.

  • “Um preço alto” –
    Mas o véu não desapareceu. Embora quase não se vejam mais os temidos veículos brancos da polícia da moralidade patrulhando as ruas, as mulheres sem véu ainda podem ser convocadas pelas autoridades.

Em geral, elas devem usá-lo em bancos, centros de ensino e edifícios administrativos. Nos cafés, por trás das “fotos bonitas” de mulheres de cabeça descoberta hoje em dia, os proprietários pagaram “um preço alto”, lembra Negin, que administra um desses estabelecimentos em Teerã.

“Já fomos fechados várias vezes, fomos multados, tivemos de pagar subornos (…) O que ainda me indigna é quando eles dizem que isso é ‘liberdade’ e que as mulheres são mais livres”, diz essa mulher de 34 anos.

Os direitos das mulheres continuam limitados no Irã, sob um governo que prendeu dezenas de milhares de pessoas durante as manifestações de dezembro e janeiro, e outras milhares durante o conflito atual, segundo grupos de direitos humanos.

A Anistia Internacional estima que a “resistência generalizada” ao uso obrigatório do hijab colocou as autoridades sob pressão nos últimos anos.

No entanto, continuam impondo “o uso obrigatório do véu nos locais de trabalho, nas universidades e em outras instituições públicas, expondo assim meninas e mulheres que resistem a assédio, agressões, detenções arbitrárias, multas e à exclusão do emprego e da educação”, acrescentou a ONG.

  • “Nenhuma mudança” –
    Atualmente é possível ver na televisão estatal imagens de mulheres sem hijab, desde que apoiem a República Islâmica e denunciem os inimigos do Irã.

“A cada dia mais mulheres superam o medo e se atrevem a sair sem hijab; esse fenômeno está se generalizando. Mas não vejo nenhuma mudança no sistema de governo”, afirma Sahrzad, uma dona de casa de 39 anos.

“Nada mudou, salvo esses vídeos de garotas jovens que aparecem diante das câmeras dos canais de notícias estatais sem hijab e gritam: ‘meu líder, meu líder, eu daria minha vida por ele'”, acrescentou.

E a situação é desigual no país. Em Mashhad, uma grande cidade no leste que abriga um dos santuários mais sagrados do islamismo xiita, as regras são mais rígidas, segundo Mahsa, uma estudante de 32 anos.

“Antes da guerra de 12 dias (em 2025), não nos deixavam entrar em nenhum lugar sem hijab em Mashhad”, recorda. “Agora nos deixam entrar, mas não é o mesmo nível de mudança que em Teerã nesses últimos três anos”.

AFP

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