A campanha para as eleições ao Senado que começou hoje no Japão representa o retorno à atividade política do ex-presidente peruano Alberto Fujimori, hospital que participa a distância, de sua prisão domiciliar no Chile.
As eleições renovarão metade das 242 cadeiras da Câmara Alta, a menos poderosa do sistema bicameral japonês. O pleito desperta expectativas com o risco de que o partido do Governo perca a maioria e obrigue o primeiro-ministro, Shinzo Abe, a deixar o cargo.
Dezenas de candidatos arrastaram hoje os eleitores nas praças públicas a bordo de caminhões com potentes alto-falantes, pedindo apoio para a votação do dia 29.
O presidente do Novo Partido dos Cidadãos (NPC), que lançou Fujimori, se apresentou acompanhado da nova esposa do ex-presidente, Satomi Kataoka, em um sinal de que mesmo preso no Chile ele quer muito participar das eleições.
O NPC é um partido pequeno, com 4 cadeiras, contra as 109 do Partido Liberal-Democrata (PLD) de Abe e as 23 do Novo Komeito, legenda de orientação budista que participa da base governista.
Fujimori, com dupla nacionalidade peruana e japonesa, e cuja liberdade está pendente da decisão em última instância da Justiça chilena, é um dos 377 candidatos que concorrem.
A ausência física na campanha foi amenizada com um vídeo no qual, falando devagar e em japonês com sotaque, promete “dar a vida pelo país dos samurais”.
Enquanto os políticos de vários partidos concentram propostas na questão da previdência – depois que o Ministério da Fazenda perdeu o cadastro de contribuições de 50 milhões de japoneses -, Fujimori promete solucionar os problemas do Japão fazendo uso de sua “experiência como presidente no Peru”.
A campanha de Fujimori tem o slogan de “O último samurai”, junto a uma foto do ex-presidente com colete à prova de balas e mãos para o alto, tirada em 1997, após a invasão militar que pôs fim ao seqüestro da casa do embaixador do Japão em Lima.
O incidente, que terminou com o resgate de todos os reféns japoneses, ficou gravado na memória coletiva do Japão como um ato de heroísmo que Fujimori expõe constantemente em seus discursos.
Segundo o professor Kazuo Ogushi, especialista em Política Latino-Americana da Faculdade de Direito da Universidade de Tóquio, a idéia generalizada entre os japoneses sobre Fujimori é a de “um homem muito simpático que nunca fez nada de mau”.
“O lado polêmico de Fujimori só interessa aos intelectuais e aos jornalistas”, diz o Ogushi, defensor dos direitos humanos. Ele classifica a candidatura do peruano ao senado japonês como “jocosa” e a considera uma artimanha para iludir a Justiça.
Segundo Ogushi, Fujimori tem poucas chances de ser eleito. Em sua lista proporcional, na qual os candidatos buscam votos para o partido, também aparecem ex-deputados com forte necessidade de conseguir apoio.
A votação para o Senado é o primeiro teste de popularidade nas urnas para Abe desde que se tornou primeiro-ministro, em setembro de 2006.
Abe transformou as eleições em um plebiscito sobre sua continuidade à frente do PLD e do gabinete. O apoio popular ao Governo está em um dos níveis mais baixos, abalado por escândalos de corrupção que provocaram demissões de ministros e o suicídio de um deles.